WhatsApp admite envio maciço de propaganda durante eleições brasileiras

Milhares de mensagens propaganda e informação falsa foram enviadas através do WhatsApp durante a campanha para as eleições presidenciais brasileiras de 2018.

,Eleições gerais brasileiras de 2018
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O caso tornou-se público em Outubro de 2018 numa série de reportagens do jornal Folha de São Paulo Reuters/UESLEI MARCELINO

A plataforma de mensagens WhatsApp admitiu, esta terça-feira, que foi utilizada para enviar milhares de mensagens em massa a eleitores brasileiros com propaganda e informação falsa durante a última campanha para as presidenciais no Brasil. 

“Durante as eleições brasileiras do ano passado existiram empresas fornecedoras de mensagens em massa que violaram os nossos termos para chegar a um grande número de pessoas”, confirmou Ben Supple, responsável do WhatsApp para a área das políticas públicas, durante o Festival Gabo, na Colômbia, que premeia as melhores peças de jornalismo na América Latina.

O caso tornou-se público em Outubro de 2018 quando uma reportagem do jornal Folha de São Paulo revelou como vários empresários que apoiavam o então candidato Jair Bolsonaro tinham financiado pacotes de disseminação de mensagens por grupos de WhatsApp contra o seu adversário. Na altura, era possível reenviar 20 mensagens de cada vez a grupos de utilizadores que podiam ter até 256 pessoas inscritas – ou seja, cada mensagem podia alcançar facilmente mais de cinco mil pessoas. O caso terá sido exacerbado através de ferramentas ilegais de automatização de mensagens que são proibidas pelo WhatsApp e, também, pelo Tribunal Superior Eleitoral no Brasil. 

Além disso, muitas das mensagens enviadas seriam falsas. Esta semana, um estudo realizado na Universidade de Swansea, no País de Gales, mostrou que pelo menos quatro em cada 10 mensagens partilhadas no Brasil durante as eleições presidenciais de 2018 continham informação fabricada. Para chegar aos resultados, foram recolhidas cerca de 12 mil mensagens partilhadas durante o período eleitoral em 296 grupos de teor político no WhatsApp. A autora do trabalho reconhece, no entanto, que nem todas as mensagens recolhidas puderam ser verificadas por profissionais.

É a primeira vez que o WhatsApp fala directamente sobre o uso de ferramentas ilegais de transmissão de mensagens no Brasil. Até então, o Facebook – que é dono do WhatsApp – apenas tinha admitido que as eleições recentes no Brasil (que conta com mais de 120 milhões de utilizadores no WhatsApp) e na Índia tinham justificado mudanças no funcionamento das aplicações. Em 2018, várias pessoas foram mortalmente agredidas na Índia por multidões influenciadas por mensagens falsas sobre supostos criminosos e raptores de crianças, e que foram partilhadas através da aplicação WhatsApp.

“Estamos constantemente a tentar melhorar o nosso sitema para prevenir o abuso do WhatsApp”, escreve um porta-voz do Facebook em resposta a questões do PÚBLICO. “Antes do segundo turno das votações [brasileiras], o WhatsApp anunciou que já tinha banidado centenas de milhares de contas que estavam a enviar mensagens automáticas ou em massa durante as eleições. Também enviamos avisos legais a várias empresas que vendiam este tipo de serviços que violam as nossas regras”.

Desde Janeiro, os utilizadores do WhatsApp também passaram a só poder enviar uma mensagem para cinco conversas de cada vez. A empresa disse que o objectivo era “limitar o abuso” no envio de mensagens em massa e proteger a privacidade do número de telefone dos utilizadores.

Dados recentes do WhatsApp Monitor, um sistema desenvolvido por uma equipa de universidades internacionais com o objectivo de combater a manipulação eleitoral, mostram que a limitação tem diminuído a rapidez com que informação falsa é transmitida, mas tem feito pouco para impedir a difusão de conteúdo viral.

“A natureza fechada do WhatsApp e a facilidade em transferir conteúdo multimédia e partilhar informação em grupos de grande escala faz com que seja extremamente difícil implementar medidas para combater a desinformação”, lê-se nas conclusões de um estudo da Universidade de Federal de Minas Gerais, no Brasil, sobre os resultados do monitor. Os resultados foram partilhados o mês passado no ArXiv, um repositório de artigos científicos gratuitos que ainda não passaram pelo processo de revisão por outros investigadores (a chamada revisão por pares, ou peer review).

Os académicos descrevem a aplicação como um “paradoxo”, porque funciona simultaneamente como uma plataforma para partilhar conteúdo a grandes grupos de pessoas e como um serviço de mensagens encriptadas. “As duas funcionalidades juntas podem ser abusadas em campanhas de desinformação”, frisa a equipa. Mesmo com a limitação de apenas poder enviar uma mensagem a cinco grupos de 256 pessoas de cada vez, o conteúdo chega facilmente a mais de 1200 utilizadores.

Durante o Festival Gabo, Ben Supple comparou os grupos do WhatsApp usados para enviar mensagens em massa nestes países a “revistas sensacionalistas” e recomendou que os utilizadores os evitem. Desde 2017 que o norte-americano também é responsável pela equipa de integridade cívica e eleições globais do WhatsApp, com o objectivo de criar estratégias e parcerias para educar e proteger os utilizadores daquela aplicação. “A nossa visão é: não entrem nestes grupos grandes com pessoas que não conhecem. Saiam desses grupos e denunciem-nos”, pediu Supple. “O WhatsApp foi criado para alojar conversas entre famílias e amigos.” 

Para evitar que os problemas que surgiram no Brasil e na Índia se repetissem durante as eleições europeias em 2019, o Facebook reuniu equipas com dezenas de profissionais em escritórios na União Europeia para travar redes de desinformação política. O centro de operações incluía cientistas de dados, investigadores, profissionais de segurança, especialistas legais e antigos jornalistas incumbidos de analisar painéis dedicados a informação eleitoral a circular no WhatsApp, no Facebook, e noutros pólos da Internet como o Reddit e o Twitter.

Em Abril deste ano, o Facebook também anunciou uma nova funcionalidade no WhatsApp que permite aos utilizadores controlar quem é que pode adicioná-los a grupos novos. Na altura, a empresa explicou que o objectivo era “limitar o abuso” na criação de grupos para enviar mensagens em massa e proteger a privacidade do número de telefone dos utilizadores.

Actualizado 09/10/2019: Acrescentada resposta do Facebook.