Entrevista

Uma índia vai ao Vaticano para que a deixem viver na terra dos seus avós

O Sínodo da Amazónia terá a missão de alertar para a defesa dos povos originários da América do Sul. Leila Rocha, do povo Guarani Nhandeva no Mato Grosso do Sul, vai estar em Roma para entregar uma mensagem de medo, mas não de resignação.

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Leila Rocha

Leila Rocha é uma mulher serena e aparenta ter uma paciência quase infinita. A expressão fica carregada apenas quando descreve as tentativas dos fazendeiros brancos ao longo dos anos de tirarem à força o seu povo da terra que pertencia aos seus antepassados Guaranis Nhandeva, no Mato Grosso do Sul (Brasil). Mas logo se suaviza quando descreve a ligação espiritual que ela e a sua comunidade sentem com estas terras.

Não há palavra mais repetida por Leila Rocha do que “terra” durante a conversa com o PÚBLICO durante a sua passagem por Lisboa no final de Setembro, poucos dias antes de ir para Roma onde participará nas actividades do Sínodo do Vaticano sobre a Amazónia. O encontro convocado pelo Papa Francisco ganhou uma relevância reforçada com a eleição de Jair Bolsonaro, um líder que parece estar nos antípodas do chefe da Igreja Católica. Se inicialmente o sínodo tinha como objectivo debater as estratégias da Igreja para recuperar terreno nos estados amazónicos face ao avanço veloz das igrejas pentecostais, hoje tem a missão urgente de chamar a atenção do mundo para a protecção do ecossistema da maior floresta tropical do mundo e dos povos originais que nela habitam.

O povo Guarani Nhandeva não é proveniente da Amazónia, mas Leila é também a voz dos indígenas que se sentem mais ameaçados que nunca e é essa mensagem que quer fazer chegar ao Vaticano. “Espero que façam alguma coisa por nós. No Mato Grosso do Sul, os povos indígenas estão morrendo pela própria mão do fazendeiro”, diz a líder indígena, que pertence ao Conselho da Aty Guasu (Grande Assembleia Kaiowá e Guarani) e da Kuñague Aty Guasu (Grande Assembleia das Mulheres Kaiowá e Guarani).

Leila, cujo nome em guarani significa “mulher sol”, domina mal o português – a língua dos “caraíbas”, os brancos colonizadores – mas percebe que só assim poderá fazer chegar a mensagem de urgência para alertar para os perigos que o seu povo corre. Faz questão de contar a história da recuperação das terras onde hoje vive, quase como se de uma epopeia se tratasse.

Pertence à “retomada” Yvu Katu, que foi um de vários processos de autodemarcação de terras da iniciativa de povos indígenas, que remonta a 1983. O território faz parte do município de Japorã, muito próximo da fronteira com o Paraguai e do rio Paraná. Leila refere-se a estas terras como “Tekoá”, que define como “o lugar definitivo” onde moravam os seus antepassados antes da colonização.

“Nós sabemos onde fica a nossa terra, o nosso cemitério. Voltámos lá porque o espírito dos nossos antepassados chama-nos lá”, diz a líder indígena. Ao longo da conversa, vai reforçando a ligação física, mas sobretudo espiritual, que a comunidade estabelece com as terras que lhes foram retiradas. Nas suas palavras convivem em simultâneo várias gerações, antepassados que nunca conheceu mas que garante estarem presentes. “É o meu lugar, do meu filho, do meu avô, bisavô.”

Séculos de perseguição

Desde que os portugueses pisaram aquele que seria o território que hoje conhecemos como Brasil, há mais de 500 anos, que a vida dos índios não é fácil. Durante séculos foram forçados a abandonar as suas terras, exterminados pelas armas ou pelo contacto com doenças trazidas da Europa, e obrigados a adoptar um estilo de vida radicalmente diferente. A democratização trouxe progressos, incluindo o direito constitucionalmente garantido desde 1988 de que as terras originárias dos vários povos indígenas sejam devolvidas. O processo é lento, implica vários estudos e muita burocracia e, mais de três décadas depois ainda não está concluído. Actualmente, estima-se que cerca de 14% do território esteja reservado para os povos indígenas – apesar de nem todas estas terras terem finalizado o processo de homologação. Bolsonaro tem afirmado publicamente que não pretende autorizar nenhuma nova demarcação.

A pressão sobre os índios também aumenta fora do discurso político. Um relatório recente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), ligado à Igreja Católica, mostra que o número de invasões de terras indígenas disparou desde o início do ano. Leila Rocha diz que se sentem mais desprotegidos do que nunca e conta que vários índios têm sido assassinados no Mato Grosso do Sul sem que ninguém investigue.

“Nós nunca vamos ficar em paz, enquanto o fazendeiro não nos mata a todos nós. Vamos ser sempre perseguidos, violentados, mortos”, afirma.

O Mato Grosso do Sul é um estado agrícola por excelência e a espinha dorsal da economia local está nas grandes explorações de soja ou na pecuária extensiva. Este tipo de actividade descaracterizou as terras indígenas, o “tekoá” dos Guarani Nhandeva. Leila diz que já não há mato e enfurece-se quando fala do “veneno” nas águas dos rios – refere-se aos pesticidas usados pelos agricultores e que o Governo brasileiro tem autorizado a um ritmo inédito.

“As crianças ficam com dor de cabeça, dor de barriga, gripe, porque estão a beber aquela água. Vivemos no meio do veneno”, descreve a índia. Mas aquela terra é sagrada e não pretendem outra, mesmo com todos estes problemas. Querem poder voltar a plantar árvores, plantar em pequenas dimensões e com as técnicas ancestrais, pescar nos rios, caçar no mato e colher as ervas para os seus remédios tradicionais. Ali nasceram, ali viveram, dali foram expulsos, regressaram, e ali querem ser enterrados.

Leila Rocha rebate frontalmente uma das ideias mais difundidas por Bolsonaro e pelos seus apoiantes: a de que os índios nada mais querem do que uma vida igual à do resto da população, nas cidades e em trabalhos regulares. Sorri, abana a cabeça e diz simplesmente: “Jamais, ele inventa. Precisava olhar o nosso lugar para acreditar.”