Da Morte de Danton ao Dia do Juízo: seis meses de teatro no São João

Um acordo de cooperação com Cabo Verde, uma atenção especial aos dramaturgos Georg Büchner e Mark O’Rowe e o aumento do número de produções e co-produções marcam a nova temporada do teatro nacional portuense.

Albano Jerónimo é o protagonista de <i>A Morte de Danton</i>
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Albano Jerónimo é o protagonista de A Morte de Danton João Tuna/Teatro Nacional São João

A rentrée do Teatro Nacional São João (TNSJ) vai ter a dupla assinatura do encenador que é simultaneamente, desde o início do ano, o novo director artístico da instituição portuense – Nuno Cardoso. É ele o responsável pela encenação de A Morte de Danton, do alemão Georg Büchner (1813-1837), peça que nos leva de regresso às ruas de Paris no pós-1789, aos tempos mais agitados da Revolução Francesa e aos últimos dias da vida de Georges Danton (1759-1794), o líder sacrificado nesses dias de Terror.

É com este espectáculo, que tem Albano Jerónimo como protagonista, que abre, a 18 de Setembro, no palco do teatro da Praça da Batalha, a nova temporada do TNSJ, cuja programação foi apresentada ao final da tarde desta sexta-feira, na presença da ministra da Cultura, Graça Fonseca.

É uma programação com autoria “mestiça” – como Nuno Cardoso explicou ao PÚBLICO antes dessa sessão –, partilhada ainda com o seu antecessor, Nuno Carinhas. “Um programa de transição, mas também de companheirismo”, acrescentou.

Com a duração de seis meses, esta será também “uma temporada assimétrica, [pois será] interrompida em Fevereiro por uma surpresa guardada ‘shakespeareanamente’ para os Idos de Março”, escreve o director artístico no programa, aguçando a curiosidade acerca da celebração do centenário do edifício projectado por José Marques da Silva, que se cumprirá no dia 7 de Março de 2020.

Na sessão pública de apresentação da temporada, entre actores, encenadores, artistas e responsáveis institucionais, encontrava-se também o ministro da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde, Abraão Vicente, que se deslocou ao Porto para assinar um protocolo de cooperação com o São João. Ao abrigo desta nova relação, que abrange os próximos três anos, o teatro nacional marcará a sua presença naquele arquipélago africano. E são também de Nuno Cardoso as duas produções com que o TNSJ vai inaugurar este intercâmbio, levando à ilha de Santiago, em estreia, o solo Achadiço (Cidade da Praia, 7 de Novembro), e à de São Vicente, em reposição, a sua leitura de Bella Figura, de Yasmina Reza (Mindelo, 7 de Dezembro).

Referindo-se a esta nova aposta do TNSJ, o presidente da administração, Pedro Sobrado, referiu que, para lá destes espectáculos, a ambição comum é ensaiar outras modalidade de colaboração e intercâmbio. Sentimos que a própria maturidade técnico-artística que a estrutura do São João alcançou reclama um modelo de internacionalização que exceda o import/export de espectáculos, favorecendo a partilha de competências e conhecimento, e o estabelecimento de parcerias de longo curso, disse Pedro Sobrado esta tarde no salão nobre do teatro.

Quatro produções próprias

Nos próximos seis meses, o TNSJ vai oferecer, nos seus três palcos, incluindo o Teatro Carlos Alberto (TeCA) e o Mosteiro de São Bento da Vitória (MSBV), 27 espectáculos, que incluem quatro produções próprias e 11 co-produções, entre elas havendo 12 estreias.

Ainda em Setembro, o São João associa-se ao MEXE – 5.º Encontro Internacional de Arte e Comunidade, acolhendo no TeCA três criações em estreia nacional: Empty the Space (dia 19), Synectikos (dia 20) e Isto É um Negro? (dia 21). Empty the Space, do Uganda, reflecte sobre “a partilha de espaço no espaço global do mundo moderno”; Synectikos, do colectivo espanhol Lisarco, que tem um historial de trabalho com portadores de Síndrome de Down, é uma coreografia que reúne dança, música e artes visuais numa contínua “construção-destruição-reconstrução do espaço físico”; Isto É um Negro? chega-nos do Brasil, questionando o racismo estrutural naquele país numa mistura de linguagem e formatos, do stand-up ao videoclip.

Outubro terá duas estreias absolutas: Locker Room Talk, de Gary McNair, com encenação de Jorge Andrade e em co-produção com a mala voadora, no âmbito do seu habitual programa de Outono Uma Família Inglesa (MSBV, dia 4); e A Tragédia de Júlio César, mais uma incursão no clássico de Shakespeare, desta vez com encenação de Luís Araújo e numa co-produção com a companhia Ao Cabo Teatro (fundada e até há pouco tempo dirigida por Nuno Cardoso) e o São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa (TNSJ, 11 de Outubro). Locker Room Talk é a primeira colaboração da mala voadora com o TNSJ, adaptando as “conversas de balneário” com que o dramaturgo escocês, a partir de centenas de entrevistas, colocou homens a falarem livremente sobre as mulheres: uma “tagarelice vil e violenta”, que simultaneamente permite questionar a identidade masculina.

Mas Outubro é também o mês do Festival Internacional de Marionetas do Porto (FIMP), que fará subir dois espectáculos aos palcos do teatro nacional: a estreia de uma nova encenação do clássico do teatro português Alecrim vs Manjerona, de António José da Silva (o Judeu), numa co-produção com o Jangada Teatro (MSBV, dia 17); e Alma Nómada, da canadiana Magali Chouinard (TeCA, dia 19). Recrear “essa vertigem de ir de etapa em etapa, cada vez mais fundo, até chegar à criança que somos e fomos, esse coração que bate” é o programa desta criadora canadiana muito marcada pelo imaginário de Júlio Verne.

Dois dramaturgos em destaque

Depois de Georg Büchner, o irlandês Mark O’Rowe (Dublin, 1970) será o outro dramaturgo em destaque na nova temporada do TNSJ. Em Novembro, deste autor que tem trabalhado muito de perto com a companhia Assédio, serão encenadas, lidas e publicadas cinco peças, traduzidas por Francisco Luís Parreira, num ciclo (e “atrevimento”) que tem um título bem portuense: Mark O’Rowe, carago! Os Nossos Dias Poucos e Desalmados, com encenação de João Cardoso, estreia-se no TeCA (21 de Novembro); é um drama familiar sobre a culpa, o sacrifício e o amor apresentado como “um thriller psicológico percorrido por uma tristeza palpável”. A “operação Mark O’Rowe” inclui também, no MSBV, a teatralização de dois outros textos – Made in China, encenação de Pedro Frias (dia 25); Sarna, encenação de João Cardoso (2 de Dezembro) –, e a leitura de outros tantos: Terminus e Ossário, que serão publicados em livro (18 de Novembro).

Outra estreia em Novembro será a da criação de Cão Solteiro & André Godinho, Could Be Worse: The Musical, com texto de José Maria Vieira Mendes e música de PZ e Rodrigo Vaiapraia  um musical que explorará os mecanismos do género, entre o teatro e o cinema.

Presença regular no palco do TNSJ, os Artistas Unidos, de Jorge Silva Melo, trarão desta vez ao Porto, após a estreia em Lisboa a 31 de Outubro, Vidas Íntimas, “um divertimento sombrio” que se tornou um clássico, do britânico Noel Coward (14 de Novembro).

Colonialismo e questões de género

2020, o ano do centenário do São João, abre com uma nova estreia, em co-produção com outras companhias: Um Plano de Labirinto, de Francisco Luís Parreira, com direcção de João Garcia Miguel, naquela que é a quarta parceria de ambos (TeCA, 9 de Janeiro). Trata-se, desta vez, de um conto mitológico polifónico sobre a diáspora portuguesa no século XX e a “‘nossa’ guerra no ‘Ultramar’”, entre África e o Oriente.

Também em estreia, mas portuguesa, chegará ao Porto, ainda em Janeiro, a co-produção germano-britânica Western Society, do colectivo Gob Squad (TNSJ, dia 17). É uma história condensada num home-video, uma “odisseia de trazer por casa” sobre os recantos mais luminosos e escabrosos da cultura ocidental: “a solidão, o consumismo, a procura de formas alienadas de intimidade, o sortilégio das canções pop, a obscenidade dos reality shows, a Internet como céu e inferno”, diz o programa.

Já em Fevereiro, merece referência outra criação vinda de fora, neste caso, de Itália: MDLSX, encenação de Enrico Casagrande e Daniela Nicolà (TeCA, 14 de Fevereiro). Estreada em 2015 no Festival de Santarcangelo, este “solo caleidoscópico” da actriz Silvia Calderoni entrelaça textos de autores como Jeffrey Eugenides, Virginia Woolf, Pasolini, Judith Butler e Paul B. Preciado com a músca dos Smiths, Talking Heads ou Vampire Weekend, estilhaçando os conceitos tradicionais de género.

Antes e depois de MDLSX, também em trânsito pelo Porto, teremos duas produções vindas do São Luiz: A Dama das Camélias (TNSJ, 6 de Fevereiro), o clássico de Alexandre Dumas (filho), que esta sexta-feira se estreia em Lisboa com encenação de Miguel Loureiro e interpretação de Carla Maciel; e O Dia do Juízo, uma parábola sobre a culpa e a inocência do austro-húngaro Ödön von Horváth com encenação de Cristina Carvalhal (a estreia em Lisboa está agendada para 10 de Outubro, a chegada ao TeCA para 20 de Fevereiro).