Nuno Carinhas: "A crise não foram momentos, foram cinco anos"

Na hora de passar o testemunho, o futuro ex-director do Teatro Nacional São João revisita dez anos de mandato. Destaca a sua encenação de Casas Pardas, de Maria Velho da Costa, e avança que a sua vida profissional vai continuar centrada no Porto.

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Nuno Carinhas Paulo Pimenta

Nuno Carinhas tem actualmente em cena no Teatro Nacional São João (TNSJ) Uma Noite no Futuro, espectáculo em que evidencia a insuspeita contemporaneidade de Gil Vicente e de Samuel Beckett. A 5 de Janeiro, vai ver reposto no mesmo palco o seu Otelo de Shakespeare; e em Março, no Dia Mundial do Teatro, estreará O resto já devem conhecer do cinema, a sua primeira incursão no teatro de Martin Crimp, em parceria com Fernando Mora Ramos. É uma forma de dizer que, terminados no final de Dezembro os seus três mandatos como director artístico do TNSJ, vai continuar por aí, pelo Porto, ele que se considera já, desde há bastante tempo, “um portuense por adopção” – facto que a autarquia de algum modo reconheceu atribuindo-lhe, esta quinta-feira, a Medalha Municipal de Mérito – Grau Ouro.

Que projectos profissionais tem para o seu futuro pós-TNSJ?

Além dos que estão anunciados para 2019, vou certamente voltar em 2020 e fazer alguma coisa para o programa do centenário. Ainda estamos a conversar sobre o que vai ser. E tenho também um projecto na Casa da Música. A minha vida está organizada para continuar por aqui – por exemplo, vou dirigir o exercício final de alunos em Julho –, certamente não terei nenhum sobressalto geográfico.

Desde que, em 1996, se estreou no TNSJ encenando O Grande Teatro do Mundo, de Calderón de la Barca, qual foi a criação que considera mais marcante?

É difícil responder. Faço as coisas com tanto empenho que, depois, escolher entre filhos e enteados é complicado. Todas elas foram importantes.

E qual foi o momento mais feliz nesse percurso?

Como gesto de devolução e de ligação à língua como património, o facto de ter encenado Casas Pardas [em Dezembro de 2012] foi importantíssimo. Foi uma maneira de devolver a minha imensa admiração pela Maria Velho da Costa, com a cumplicidade da Luísa Costa Gomes. Essas operações de ligação das pessoas e dos criadores foram sempre importantes para mim. E este foi um momento particular.

E o momento mais difícil?

Esses tiveram a ver com a crise – e não foram momentos, foram cinco anos! Mas tive sempre a cumplicidade da administração. Cuidar da permanência de todos os trabalhadores da casa, isso foi sempre a nossa luta mais acertada. Fico muito contente que nós tenhamos acabado por ter a percepção da tutela de que assim deveria ser, porque estávamos a viver tempos políticos terríveis.