Teremos sempre 1965

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Teatro, cinema, vida real: Gob Squad"s Kitchen acontece no palco, nos bastidores (projectados nos ecrãs em directo) e na plateia, de onde saem os espectadores que aqui se podem tornar famosos, pelo menos por 15 minutos DAVID BALTZER

Houve um tempo, e não foi assim há tanto tempo, em que o futuro ia ser radioso (afinal não foi). Hoje e amanhã, na Culturgest, em Lisboa, Gob Squad"s Kitchen (You"ve Never Had It So Good) remonta um desses anos gloriosos - no que ele próprio foi e no que foi feito dele.

Na manhã em que ligamos para Simon Will, exactamente 11 horas depois de o termos visto a preto e branco num vídeo alojado nessa plataforma tão 1965 que é o Vimeo, sabemos infinitamente mais coisas sobre ele do que alguma vez ele saberá sobre nós - coisas como o facto de Simon nunca se conseguir deixar ir quando está na cama, e de em vez disso se concentrar no padrão da colcha ou na urgência de fazer um back-up ao computador, e que ele próprio nos garante serem informações muito úteis para perceber o que vai acontecer a seguir em Gob Squad"s Kitchen (You"ve Never Had It So Good), o espectáculo com que a Culturgest, em Lisboa, faz a sua rentrée hoje e amanhã, às 21h30. A questão - uma questão muito de confessionário de Big Brother mas também, porque não admiti-lo?, muito da vida real, pelo menos a partir do momento em que ela se tornou famosa pelo menos por 15 minutos - é que o Simon Will que tão simpaticamente nos dá as boas-vindas à cozinha dos Gob Squad (um remake da cozinha da Factory que Andy Warhol filmou em 1965, mas já lá iremos sentar-nos a tomar café) talvez não esteja realmente a ser ele próprio. Talvez, e isto é um grande golpe, saibamos infinitamente menos coisas sobre ele do que alguma vez ele saberá sobre nós - sobretudo se, como espectadores, acabarmos mesmo sentados a tomar café na cozinha dos Gob Squad hoje ou amanhã, pelo menos por 15 minutos.

Pode acontecer. Tudo pode acontecer num espectáculo dos Gob Squad. E tudo podia acontecer em 1965, o ano que os Gob Squad visitam nesta peça, parcialmente construída em cima de Kitchen e de uma série de outros filmes experimentais feitos por Andy Warhol na então hiperactiva Factory (Eat e Sleep, ambos de 1963, e os Screen Tests filmados entre o início de 1964 e Novembro do ano seguinte). Tudo mesmo, sublinha, do outro lado de um dos três ecrãs que ocupam o palco, o nosso Simon Will: revolução sexual, direitos homossexuais, feminismo, drogas, rock"n"roll, superestrelas, enfim, o mundo como o conhecemos, se a isso acrescentarmos o Starbucks, o YouTube e uma ou duas guerras daquelas chamadas preventivas. Estamos em 1965, portanto, mas com a vantagem de sabermos infinitamente mais sobre ele (tipo: se 1965 acabou bem ou acabou mal) do que alguma vez ele saberá sobre nós ("Ah!, as vantagens de fazer prognósticos no fim do jogo", suspira Simon, não exactamente nestes termos mas neste espírito, quando lhe falamos do assunto), e, melhor ainda, de as batatas fritas de pacote terem hoje menos 70% de gordura do que então.

É justamente nessa terra de ninguém entre o passado e o presente - no sentido em que o presente de 2013 é o futuro de 1965, não no sentido da reconstituição histórica impecável - que Gob Squad"s Kitchen se move. Olhando para trás, 48 anos depois, e percebendo "então foi por causa disto que a informação se transformou em entretenimento, e que toda a gente começou a falar em soundbytes, e que os presidentes começaram a citar filmes, e que os filmes começaram a citar presidentes a citarem filmes". Olhando para trás e percebendo que foi aqui, em 1965, que tudo começou.

O poder do espectador

Estranhamente, não foi em 1965 que este espectáculo dos Gob Squad começou. O colectivo anglo-germânico fundado em 1994 - e que esteve pela primeira vez em Portugal em 2006, a convite do Festival Trama, para apresentar Super Nigh Shot, onde Simon Will era o herói que o público podia beijar - estava a trabalhar na "ideia de um filme que comia os seus próprios espectadores, um filme que não podia continuar a não ser que eles fossem lá para dentro" quando, a meio de um dos ensaios na cozinha de Sarah Thom, alguém se lembrou "acidentalmente" de Warhol. Nenhum dos sete membros dos Gob Squad tinha visto Kitchen, mas todos tinham uma noção desse filme que subitamente lhes pareceu tão real como os pratos em cima da mesa. "Isso pôs-nos no trilho de Andy Warhol e desta obsessão da procura da autenticidade. Ao mesmo tempo, e à medida que fomos progredindo na ideia de fazer um remake de Kitchen, deparámo-nos com um momento da História americana em que estava muito viva essa epopeia de o futuro só poder ser extraordinário. É mais difícil imaginar o futuro agora, a não ser o futuro do colapso ecológico, do armagedão, dos ricos mais ricos e dos pobres mais pobres. Mas na década de 60 houve espaço para imaginar - talvez utópica, talvez ingenuamente - que o futuro podia ser diferente do presente, diferente do status quo. A diferença entre a confiança no agora que havia então e a nossa própria confiança no agora também se tornou um atractivo", explica Simon. Isso e a possibilidade de continuar a trabalhar dentro da linguagem cinematográfica, mas agora nos termos do cinema mais experimental em que a Factory se aventurou, e não nos termos canónicos de Hollywood, como em Super Night Shot (2003), que retomava o formato do herói que se apaixona mesmo a tempo do happy end, ou em King Kong Club (2006). Gob Squad"s Kitchen é teatro, sim, mas também é cinema em directo: os actores que vemos projectados nos três ecrãs estão ali atrás, a fazer o que têm a fazer em tempo real.

Claro que, tratando-se dos Gob Squad - que se dizem entre o teatro, o cinema e a vida real -, cada câmara de filmar posta em cima do palco é mais uma promessa de realidade do que de ficção. "O vídeo é uma óptima ferramenta para introduzir o mundo real da vida quotidiana no mundo artificial do teatro", argumenta Simon. E portanto sim, também eles estão nessa "obsessão da procura da autenticidade" que é tão 2013. Mas não desvairadamente, como um qualquer reality-show daqueles em que "as personagens têm crises nervosas em todos os programas" ("Onde está a realidade disso? É publicidade enganosa..."), acrescenta: "Embora trabalhemos a partir da realidade, adoramos usar perucas e contar histórias e dizer mentiras. Adoramos pôr as coisas em termos em que elas nunca estariam se nós não interviéssemos." Posto isto, cada membro do grupo terá a sua opinião sobre o paradigma "olhem para mim a ser eu próprio" que parece ter atingido o seu máximo esplendor com o YouTube e o Facebook - tal como acerca do papel de Warhol nisso. Simon vê-o a meio entre o lado bom e o lado mau da força - não o ouviremos dizer que Warhol criou o monstro. "Como estudante de arte que levava tudo muito a sério, acho-o refrescante. E divertido, coisa que não é suposto que a arte seja. Nisso os Gob Squad são herdeiros de Andy Warhol."

Na cozinha que instalarão na Culturgest, os Gob Squad são herdeiros de Andy Warhol não só nos filmes dos anos 60 que para todos os efeitos estavam mortos e se tornam vivos - vivos ao ponto de o protagonista do Screen Test projectado no ecrã da direita se fartar do seu papel e vir ser sexualmente explícito, como era de rigueur em 1965, para a recriação de Kitchen que passa no ecrã central - como na convicção de que ser famoso é uma forma de poder, e de que no teatro esse poder deve ser repartido entre os actores e o público. É por isso que, todas as noites, alguns espectadores são convidados a estar em palco: para mostrar que são tão bons como os profissionais (eventualmente até melhores) a serem eles próprios.

Como é que se consegue essa "autenticidade" no ambiente de viveiro que é o palco, ainda por cima com perfeitos estranhos, é uma coisa que, pelo menos no Vimeo, parece da ordem do fenómeno paranormal, mas Simon tem uma explicação: "Trabalhámos muito para que as pessoas se sintam seguras dentro da peça e saibam que não vamos enganá-las ou humilhá-las. E, claro, quando vamos à plateia buscar pessoas usamos o nosso radar: não queres alguém que esteja desesperado para entrar nem alguém que pareça aterrorizado com essa perspectiva. É como quando estás a flirtar: essas coisas sabem-se." O que acontece depois está parcialmente programado, o que nos obriga a perguntar a Simon se essa conversa de dar o poder ao público não é um bocado fiada. Resposta: "Sim, algumas deixas estão escritas. Mas não é como se os espectadores fossem uma marioneta telecomandada por nós: o modo como eles lidam com a situação e com o que lhes dizemos para fazer é real."

Real agora, real daqui a 48 anos. Se ainda houver Vimeo, talvez em 2051 alguém veja esta peça e descubra coisas sobre 2013 que nós, por ainda estarmos a meio do filme, nunca conseguiremos antecipar.

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