O Bloco e a sua circunstância

Todas as grandes bandeiras que o BE fez emergir não são de molde a edificar um país mais próspero, mas a consagrar uma visão do mundo que não existe para além da contestação universitária dos filhos da burguesia.

Se o secretário-geral do PS e primeiro-ministro, depois das eleições de outubro, tendo ou não maioria absoluta, entender convidar o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português para integrarem o governo, não teremos reservas na nossa concordância.

Será diferente da posição que assumimos em 2015, quando PS, depois de ter perdido as eleições, conseguiu construir uma solução parlamentar que sempre considerámos improvável, perigosa e destinada ao fracasso. Por isso não nos dispomos a errar duas vezes, a não ter a suficiente confiança no líder socialista para conseguir encontrar a melhor situação, a melhor solução.

O problema não está, portanto, num governo com o BE e o PCP lá dentro, o problema está no sabermos o que queremos desse governo, se é possível e vantajoso, neste tempo, essa tal solução ampla à esquerda.

António Costa correu um grande risco ao dar uma entrevista inteligentíssima ao Expresso, em que fazia um roteiro do que tem na sua cabeça para o Portugal de 2030. Esse risco veio a revelar-se na posição dos partidos, em especial o PSD e o BE, que perante os caminhos apresentados se quedaram em coisas menores, até em pormenores engraçados mas descontextualizados.

O PSD reagiu como sempre – sem tino. Se há partido que não sabe para que quer os votos dos portugueses é mesmo o PSD e isso é um problema para a nossa democracia e para o espaço político conservador. O BE reagiu esquecendo quase tudo o que Costa disse, para escolher entre a consideração de partido de massas e a de partido mass media onde o encaixava.

Claro que Catarina Martins tem as competências profissionais para dramatizar. Mas não deveria tê-lo feito usando a palavra – arrogância. Se há movimento político em Portugal que sempre se afirmou pela arrogância (mais do que pela superioridade moral) esse partido é o Bloco. É assim até na forma de vida parlamentar, na (in)capacidade de manter uma relação humana cordial, de assumir o confronto político de forma diferente de uma zanga.

Francisco Louçã, o cérebro que admiro, veio a terreiro para atacar Costa. O primeiro-ministro é um mal-agradecido, alguém que viveu da situação, com os apoios do BE e do PCP, e que agora se quer libertar deles. Não satisfeito com isso, demonstrando os velhos livros que o fizeram na luta pela sobrevivência de Trotsky, avança em análise de psiquiatra para uma defesa baixa do PCP. Costa daria um “abraço de urso” ao PCP quando elogiava o seu sentido institucional. Na nossa qualidade de mínimo denominador comum dos deputados socialistas da Comissão e Defesa Nacional podemos afirmar que o PCP sabe sempre o que quer, até onde pode ir, que resultado quer atingir. Pelo contrário, o BE sabe sempre que proclamações fazer, esteja em que debate esteja, sem garantir que as posições assumidas se agregam à realidade das partes e à ponderação do todo.

O BE tem um grave problema enquanto partido que quer ser solução de governo. Esse problema chama-se programa político. Somar proclamações a desejos inconcebíveis nos nossos tempos de uma presença avassaladora do Estado na sociedade não é um programa político, é uma desgraça impossível de resolver numa solução que amplie a integração da esquerda parlamentar.

O grupo parlamentar do BE, na última legislatura, vivia numa dissensão permanente. Essa dissensão não era ideológica ou programática como acontece nos partidos que muitos consideram burgueses. As divergências conhecidas eram entre a prática da vida e a juventude da primeira experiência de trabalho, a feitura de uma personagem através de um desempenho retórico, aqui ou ali relevante e inteligente, e a obrigação diária, vivida, longa, com os dissabores que a fazem vida. O que aconteceu foi que o BE fez tábua rasa deste segundo grupo de parlamentares e optou por aparelhistas que nunca se questionarão a cada debate.

A governação não pode ser uma passagem administrativa dos bancos da faculdade para os carros pretos do poder; a governação é, antes de tudo, previsibilidade e compromisso, coisa que o BE, pela sua permanente instabilidade emotiva, não parece garantir para uma solução de esquerda mais ampla que o PS. Depois de terem deixado de existir as condições externas (como a austeridade totalitária dos partidos conservadores) que sacrificaram povo português e suspenderam a nossa soberania, todas as grandes bandeiras que o BE fez emergir não são de molde a edificar um país mais próspero, mas a consagrar uma visão do mundo que não existe para além da contestação universitária dos filhos da burguesia de Paris e Madrid com ramificações em Portugal.

Fernando Rosas, num excelente texto que o PÚBLICO nos deu há uns dias, vem dizer ao país o que move o BE. Para ele e para o seu partido o que interessa é impedir uma maioria absoluta do PS. Rosas sabe que uma maioria absoluta não se pede, merece-se, e se os portugueses quiserem conceder ao PS e a António Costa essa maioria não será Rosas nem o BE a impedi-lo.

Para desaconselhar essa maioria, Fernando Rosas vai ao cavaquismo (seja lá o que isso for) e ao PS de Sócrates (onde nós também estivemos) para desaconselhar tal opção. O ilustre professor de História Moderna sabe que comete aqui um erro científico grave – o de trazer para o hoje a realidade do ontem sem os filtros e uma análise criteriosa das circunstâncias que uma boa investigação impõe.

O país político de presente é muito diferente do que se vivia em 1985, em 1995 ou em 2005. Tudo mudou, tudo se pulverizou, tudo depende de novos poderes, de novas visões da sociedade, de novas e imaginativas respostas. A insatisfação que se coloca perante a política pode conceder uma maioria absoluta para, em poucos meses, a vilipendiar. Rosas sabe isso, Costa sabe isso e, mais do que ninguém, Marcelo sabe isso.

Governar no século XXI não é utilizar os votos no parlamento para impor. Governar é abrir a porta a muitos e novos protagonistas, de diferentes origens e com distintos objetivos. É por isso que uma maioria absoluta do PS, merecida e nunca pedida, não terá nunca os condimentos de outros tempos.

O PS, tenha os parlamentares que tiver, deve afirmar-se como sempre – o partido moderado da esquerda democrática. Esse partido é aquele onde a liberdade está acima de qualquer outra consideração, que a equidade é sempre o caminho para um país mais justo. Está aqui o caminho que Portugal deve fazer, com ou sem o Bloco de Esquerda.