Crónica

Não contem a ninguém que ainda há praias como a de São Pedro de Maceda

Há 30 anos, à excepção da roulotte do Nicolau, não havia nada nesta praia do concelho de Ovar. Era o mar, a areia e a mancha verde de pinhal que engolia tudo. Hoje há um bar e nadador-salvador, mas de resto está quase tudo igual. Chiu!

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Praia de São Pedro, Maceda Adriano Miranda
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Praia de São Pedro, Maceda Adriano Miranda
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Parque Ambiental do Buçaquinho Adriano Miranda
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Parque Ambiental do Buçaquinho Adriano Miranda
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O nome diz tudo: na Iberbonsai há bonsais para ver e comprar Adriano Miranda

Aquele era o tempo dos longos, longos Verões azuis. Há 30 anos ainda havia estações, o Verão era o Verão e as férias de Verão duravam três meses.

À praia de São Pedro, Maceda, Ovar, ia-se de segunda a segunda, de manhã à noite.

Aos dias de semana, a canalha juntava-se e cumpria de bicicleta os mais de três quilómetros que separam a aldeia (agora vila) da praia. Algumas eram pasteleiras, outras de corrida – a minha, que custei a aprender a equilibrar-me em duas rodas, era uma Órbita amarela e vermelha com amortecedor, que me levava a balançar o caminho todo. Ainda hoje tenho uma marca de guerra na perna direita que resultou dessas viagens: caí ao chegar a casa da minha tia Lucinda e abri um lanho enorme na coxa que deveria ter sido suturado mas não foi. Fiquei a chorar em casa a ver o resto da canalha a pedalar por ali fora.

Ao fim-de-semana, íamos com os pais para a praia e levávamos a casa às costas. Bolinhos de bacalhau em tupperwares, frango frito e às vezes um tacho de arroz de tomate embrulhado em jornais para se manter quente. Barraca (a nossa era cor de laranja, o meu pai fazia questão de a levar sempre mas, invariavelmente, exasperava-se ao montá-la, aquilo eram tantos ferros e ferrinhos que às tantas já sobravam...), mesas e cadeiras, pratos e talheres, baldes e pás, arca refrigeradora, um vaivém para nos entretermos, mantas para, depois de almoço, nos espolinharmos na areia e dormirmos a sesta dentro da barraca a arder com o sol.

– Mãe, já são quatro horas?

Comia-se à uma, às quatro podíamos ir à água. A água era gelada, mas para nós, canalha, estava sempre, sempre boa. Depois lanchávamos a secar um pouco ao sol, pão com Tulicreme e um Capri Sonne, e, se nos tivéssemos portado bem, comíamos um gelado, que esse era o tempo da roulotte do Nicolau estacionada no topo da praia. Chez Nicolai, lembram-se?

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Adriano Miranda

Entretanto, subíamos as dunas e entregávamo-nos a um dos nossos passatempos favoritos: enrolávamos a toalha à volta do pescoço, a fingir uma capa de Super Homem, e saltávamos para o abismo. O voo durava um segundo, mas nós achávamos que éramos os maiores. Às vezes, e para usar um regionalismo, estrumingávamos (torcíamos) um pé ou os dois, mas a brincadeira continuava. Os fatos de banho ainda molhados ficavam, claro, cheios de areia, que saía aos quilos já em casa, durante o duche. 

Este agora é o tempo dos Verões menos longos, da Internet, das reviews no Trip Advisor, dos surfistas que chegam à procura da boa fama das ondas, dos estrangeiros que vêm de autocaravana e vivem em frente ao mar. Mas passaram 30 anos e a praia de São Pedro não está assim tão diferente.

A água continua gelada e as dunas ainda lá estão, embora o avanço do mar as coma de ano para ano. A bomba de água doce onde íamos tirar o sal do corpo desapareceu e o campo de futebol também, mas de resto ainda há toda aquela mancha de pinhal que no Verão se enche de cestos de piquenique e de famílias inteiras que chegam vindas de toda a parte. À tarde, ainda se vai apanhar camarinhas, como antigamente, ou pinhas ou paus para acender o lume.

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A praia é agora vigiada de 15 de Junho a 15 de Setembro e há um passadiço para descer. Quando se pisa a areia, se se andarem uns 50 metros para sul, na direcção do Furadouro, continua a ser um deserto. Se quiser uma praia só para si, mesmo em pleno Agosto, está no lugar certo. O mar continua a ser para gente rija, picado muitas vezes e frio até aos ossos. E as ondas, dizem os que nos últimos anos a têm procurado mais e mais, são das melhores que há na região Norte.

Não há guarda-sóis para alugar, ou barracas, ou toldos – e o pára-vento é equipamento indispensável, quem avisa amigo é. Uma vez por outra, passam as bolas-de-berlim, mas não é certo, mais vale ir prevenido com lanche, embora haja um bar que se chama Spot 3. Mas tem um defeito: a maior parte das vezes a música está muito alta. Quando se está num lugar assim, dispensam-se aquelas batidas. Para banda sonora perfeita, bastam-nos o rugir do mar e as memórias, qual Verão Azul, das campainhas das bicicletas da canalha.