Tragédia em El Paso reacende críticas à normalização do discurso de ódio nos EUA

Democratas denunciam mau exemplo dado pela retórica anti-imigratória e “racista” da Administração Trump e atribuem responsabilidades ao Presidente, depois de a polícia texana ter encontrado um manifesto online que sugere que se trata de um crime de ódio.

Manifestação de solidariedade às vítimas do tiroteio de El Paso
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Manifestação de solidariedade às vítimas do tiroteio de El Paso Reuters/STRINGER

Na ressaca de um dos mais mortíferos tiroteios de que há memória em solo norte-americano, El Paso viu-se, este domingo, no centro de um debate, cada vez mais comum nos Estados Unidos, sobre a influência e o impacto daquilo que a oposição a Donald Trump entende ser uma postura de normalização do discurso de ódio, consentida pelo Presidente e pela sua Administração.

Várias figuras do universo do Partido Democrata admitiram que ataques como aquele que ocorreu no sábado na cidade texana, perto da fronteira com o México, e que resultou na morte de 20 pessoas, alimentam-se da retórica xenófoba e anti-imigração promovida por quem manda na Casa Branca.

“Houve um aumento dos crimes de ódio em cada um dos últimos três anos, durante os quais tivemos uma administração cujo presidente chamou ‘violadores’ e ‘criminosos’ aos mexicanos, apesar de a taxa de criminalidade entre os imigrantes ser bastante mais reduzida do que entre aqueles que nasceram neste país”, lamentou Beto O’Rourke, candidato à nomeação presidencial pelo Partido Democrata e ex-congressista, natural de El Paso.

Questionado sobre se havia uma relação entre o massacre e os “tweets alegadamente racistas” e a retórica” de Trump, O’Rourke não se conteve e assumiu: “Sim.” “Ele [Trump] é um racista e alimenta o racismo neste país. Não ofende apenas a nossa sensibilidade, mas altera fundamentalmente o carácter do nosso país. E isso leva à violência.”

A alimentar a polémica e o debate está a publicação, na Internet, minutos antes do tiroteio de sábado, de um manifesto supremacista e crítico da “invasão hispânica do Texas”, que está a ser investigado pela polícia de El Paso. 

O conteúdo do texto e o timing da sua publicação levaram as autoridades texanas a suspeitar que o mesmo possa ter sido escrito pelo autor do crime, o jovem Patrick Crusius (21 anos) – que fez mais de 1000 quilómetros de carro só para disparar indiscriminadamente contra as pessoas num centro comercial, junto à fronteira, antes de se entregar à polícia.

Se se confirmar que foi o autor do texto, Crusius poderá vir a ser julgado por crimes de ódio e até terrorismo doméstico. Somados a outros delitos, relacionados com posse ilegal de armas, podem abrir caminho à aplicação da pena de morte, admitiu aos media locais o procurador de El Paso, Jaime Esparza.

Intitulado de “A Verdade Inconveniente” e assumidamente inspirado no manifesto que o australiano Brenton Tarrant publicou nas redes sociais antes de matar 51 muçulmanos, em Christchurch, na Nova Zelândia, o texto dá conta da aceitação, por parte do seu autor, de que poderia morrer naquele dia e de que os media lhe iriam chamar “supremacista branco”.

Depois, num texto de 2300 palavras, o autor discorre sobre os perigos do aumento da população hispânica no seu “amado Texas” e do desejo dessas pessoas de “controlarem os governos locais e estaduais”. 

Defende, por isso, a necessidade de os EUA se “livrarem desta gente” para que o “modo de vida” americano seja “mais sustentável” e denuncia uma conspiração promovida pelo Partido Democrata para instrumentalizar a “enorme população hispânica para transformar o Texas num bastião democrata”.

Nação envenenada

O texto faz ainda um apelo às pessoas e à comunicação social, para que não culpabilizem Trump pelo sucedido – uma referência directa que deu aos críticos do Presidente ainda mais razões para denunciar a sua posição. 

“O massacre de El Paso foi a consequência inevitável da violenta era anti-imigração e antilatinos de Trump que, com o seu racismo generalizado e odioso, envenenou a nossa nação”, acusou o jornalista e analista político texano Richard Parker, num artigo de opinião publicado no New York Times

“Se quiserem saber o que é ter um tiroteio em massa na vossa cidade natal (…), é assim: uma facada no coração da vossa gente, latinos, no meu caso. O sr. Crusius veio especificamente à minha cidade para matar a minha gente”, escreveu Parker.

O Presidente dos EUA, por seu lado, recorreu às redes sociais para rotular o ataque em El Paso de “acto cobarde” e defender que “não há motivos ou desculpas que possam justificar a morte de pessoas inocentes”. Lamentou ainda o tiroteio em Dayton, no Ohio, ocorrido horas depois.

Mas para muitos dos candidatos às primárias do Partido Democrata, como O’Rourke, Pete Buttigieg ou Amy Klobuchar, as responsabilidades de Trump são muitas. Cory Booker, senador de Nova Jérsia e igualmente candidato na corrida interna da oposição até às presidenciais de 2020, utiliza mesmo a palavra “responsável”, sem rodeios.

“Donald Trump semeia este tipo de ódio no nosso país, quando fala de invasões, de infestações e de shithole countries’ [países merdosos]. Acredito que este Presidente é responsável. As suas palavras alimentam e legitimam os supremacistas brancos e estamos agora a assistir aos resultados terríveis desse ódio”, afirmou Booker. E exigiu a Trump que “assuma essa responsabilidade”: “Se não o fizer, devemos afastá-lo.”