Crónica da Vanessa

O melhor Verão foi o de 2004

A Vanessa acha que Santana Lopes já não é o mesmo e devia voltar ao PSD, desfazendo-se daquela coisa que inventou, o partido Aliança. Ah, e tem saudades do Verão de 2004, um dos melhores das nossas vidas

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O melhor verão foi o de 2004

- Isto agora não tem tanta piada, pois não?

A Vanessa estava com um ataque de nostalgia que é uma coisa que começa a acontecer aos 25 anos (quando damos por nós nostálgicos dos 16) e nunca mais pára.

- Antigamente parece que era tudo mais divertido. Ríamo-nos mais. Fazíamos coisas giras. Tínhamos tempo.

Ah, a maldita idealização do passado. Esse fenómeno profundamente humano dá-nos a nós, portugueses, para idealizar um tempo em que se vivia em ditadura. Já me deve ter acontecido qualquer coisa tipo: no Verão passávamos o dia a correr livremente no campo da minha avó, no meio do milho, com os cães e depois à noite havia as “Conversas em Família” do Marcelo Caetano. Fui tão feliz com a Lassie e o Bobby, os banhos no rio e o Marcelo Caetano na televisão. É lixado.

Claro que a Vanessa tinha saudades do Verão de 2004. Tinha sido muito melhor do que o Verão de 1973, até porque já não havia Marcelo Caetano.

- Lembras-te daquela maravilha? Foi há 15 anos e eu lembro-me de tudo, tudinho. O Euro 2004, ir ver os jogos com os amigos, as bandeiras do Scolari nas janelas, Lisboa estava cheia de gajos giros, o Santana Lopes era primeiro-ministro… Divertimo-nos tanto, não foi? O Santana tinha montes de piada, aquele governo foi giríssimo. Acho que passei todo o verão muito bem disposta. Por que é que agora isto é tão chato? Até o Santana Lopes agora não tem tanta piada, lá naquela coisa do partido “Aliança” que ele inventou. Porque é que ele saiu do PSD?

A Vanessa tinha razão: Santana Lopes teria muito mais piada se tivesse continuado no PSD. Com as sondagens a atingirem números irreais – vá, para consolo de Rui Rio, o velho Partido Popular, outrora a grande organização da direita espanhola, ainda está mais instalado nas ruas da amargura – qualquer coisa que Pedro Santana Lopes dissesse (ou não dissesse, mas sugerisse, como era o seu hábito de sedutor político com largos anos de experiência) teria valor acrescentado. Agora não: a criação da Aliança matou o enfant-terrible do PSD. Se já não está no PSD, Santana Lopes é hoje outro – e não foi só pelo tempo que passou.

- Eu acho que Santana Lopes devia voltar ao PSD e desfazer-se lá dessa coisa da Aliança, defendeu a Vanessa.

- Oh pá, sei lá. Se calhar. No PSD e no PS muita gente saiu e reentrou.

- Achas que lhe escreva a dizer isso? O tal Herzog de que tu falaste também escrevia a homens públicos. Vou escrever ao Santana Lopes.