Terceiro caso de ébola em cidade de fronteira da RD do Congo assusta o vizinho Ruanda

Registaram-se duas mortes por ébola na cidade congolesa de Goma e um caso por transmissão e Kigali encerrou a fronteira sob protestos congoleses. Num ano, ébola já matou 1803 pessoas, em 2.687 infectados na RD Congo.

Goma
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A fronteira fechada pelo Ruanda Djaffer Sabiti/REUTERS

A mulher e a filha, uma bebé de 12 meses, do mineiro artesanal que foi a segunda vítima de ébola na cidade de Goma, na República Democrática do Congo, também estão contaminadas com o vírus que causa a febre hemorrágica que mata 50% das pessoas infectadas. A notícia correu pela cidade perto da fronteira com o Ruanda e levou o país vizinho a fechar a fronteira, durante algumas horas. Kigali acabou por dar ordem de reabrir a fronteira, face aos protestos da RD Congo. Mas os receios de que o surto da doença se alastre são grandes.

 Goma é uma cidade densamente habitada, com cerca de dois milhões de pessoas, e do outro lado da fronteira está Gisenyi, com cerca de 85 mil habitantes. Muitos dos residentes na cidade ruandesa atravessam a fronteira diariamente para trabalhar na RD Congo para trabalhar - mas também usam rotas ilegais, diz a BBC. Por isso Kigali receia que o surto de ébola se propague da cidade congolesa de Goma, capital da província do Kivu do Norte, para o seu território. 

As autoridades congolesas indignaram-se com o encerramento da fronteira. “Na base de uma decisão unilateral das autoridades ruandesas, os cidadãos do Ruanda não podem ir para Goma e os congoleses não podem sair de Gisenyi, são impedidos de ir para casa”, lê-se nu comunicado emitido pela Presidência congolesa, garantindo que “equipas de resposta médica continuam a garantir que Goma está fora de perigo”. 

Os primeiros casos do décimo surto de ébola na RD Congo foram detectados há precisamente um ano, em Agosto de 2018, e desde essa altura o vírus matou 1803 pessoas (em 2687 infectadas), sobretudo nas províncias de Ituri e Kivu do Norte, segundo a Organização Mundial de Saúde. O vírus, que se propaga exclusivamente por fluidos corporais das pessoas infectadas provoca uma febre hemorrágica, tem uma mortalidade de 50%, embora em alguns surtos tenha atingido até 90%. 

A agência internacional declarou a epidemia “emergência global de saúde pública” – é a quinta vez que o faz desde que a classificação foi inventada, em 2005 – depois de ter registado o primeiro caso na cidade com a morte de um missionário evangélico. Também já se tinha oposto a restrições de viagem e comércio na zona, sublinhando no entanto o risco “muito elevado” de propagação regional do vírus.

O segundo paciente, um mineiro artesanal, chegou à cidade vindo da província de Ituri e teve os primeiros sintomas a 22 de Julho, segundo a Associated Press. “Foi um caso perdido, pois a doença já estava numa fase avançada e morreu na noite de terça-feira”, explicou Aruna Abedi, responsável pela coordenação na resposta ao ébola na província de Norte de Kivo, citado pelo Guardian. Morreu esta semana.

Soube-se quinta-feira a sua filha de 12 meses tem a doença e que as análises da sua mulher deram positivo para o vírus. Se a febre hemorrágica se desenvolver, serão os primeiros caso de transmissão directa do vírus em Goma (de pessoa para pessoa). O que faz suspeitar que mais casos se possam seguir.

“Este caso num centro populacional tão denso realça o risco muito real da transmissão da doença, talvez até para lá das fronteiras do país, e a muito urgente necessidade de se fortalecer a resposta global e aumentar as doações”, lê-se num comunicado da Organização Mundial de Saúde citado pela Al-Jazira.

As duas mortes em Goma são sinais dos piores temores dos profissionais de saúde e de gestão de crises: o contágio em grandes cidades da região, onde a densidade populacional, o anonimato e a mobilidade elevada são as principais características. Dificultam o isolamento dos pacientes e a localização das pessoas com quem entraram em contacto para rastrear a propagação do vírus, para os isolar e vacinar.

O Uganda também já foi palco de três casos no distrito de Kasese, na parte ocidental do país. Uma família de três - rapaz de cinco anos, mãe congolesa e pai ugandês - que vivia no Uganda atravessou a fronteira para o lado congolês à procura de cuidados médicos para o pai e acabou por contrair o vírus. Ao regressar, os sintomas da criança pioraram e acabou por morrer. Os pais e os restantes familiares foram colocados em isolamento por 21 dias, contendo o surto, segundo o Ministério da Saúde ugandês. 

No último surto na África Ocidental (Guiné, Serra Leoa e Libéria), os laboratórios farmacêuticos Merck testaram uma vacina considerada 99% eficaz. Basta que seja administrada uma única vez, reduzindo os esforços logísticos das autoridades – há outra, da Johnson & Johnson, que requer duas vacinações. E, apesar de o stock na RD Congo ser reduzido, daí os apelos a doadores da OMS, cerca de 161 mil pessoas já foram vacinadas – infectadas ou que estiveram em contacto com pacientes.

Porém, os profissionais de saúde têm tido dificuldades no combate à epidemia por desconfiança das populações, que vê o surto como simples narrativa das autoridades, e conflitos armados entre milícias e as Forças Armadas congolesas. As populações não denunciam infecções e os profissionais não conseguem chegar a todas elas por oposição dos milicianos. 

O actual surto é o 10.º até hoje e o segundo mais mortífero - em primeiro lugar está o último na África Ocidental, em 2013 e 2016, com pelo menos 11.300 mortes. O vírus foi detectado pela primeira vez em 1976, numa região perto do rio Ébola, no então Zaire, actual República Democrática do Congo.