Adriana Neves tem 24 anos e vive em Madrid Nelson Garrido

Adriana quis ser vegan durante um mês. Já passou quase um ano

Tornam todas as estações do ano um pouco mais verdes através das suas escolhas. No Verão, não abandonam a causa: fazer do mundo um lugar mais sustentável. Das mais diversas formas. Adriana começou a seguir uma dieta que pensava ser temporária, mas que se estendeu no calendário (e para outro país).

Em Madrid, não há tapas que venham parar à mesa de Adriana Neves. “Têm sempre carne, ovos ou as duas coisas.” A produtora de conteúdos, que vive na capital espanhola desde o início do ano, escolhe sempre as azeitonas. E não é apenas uma questão de palato: a jovem de 24 anos é vegan desde Setembro passado. “Decidi fazer o desafio mensal de ser vegan. Comecei a ver documentários, a descobrir lojas e a seguir alguns youtubers”, recorda. Com o passar dos dias, chegou a uma conclusão: “Percebi que não ia ser só um mês.”

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Para Adriana, “o facto de não comer carne” ajudou-a a perceber que podia ajudar a “diminuir o impacto ambiental”. Nelson Garrido

No início, era só um desafio com um único motivo. Depois, com o passar do tempo, muitos mais: “Ao ver documentários e a ler notícias fui percebendo que aquilo que tinha começado pelos animais ia muito além disso.” Para Adriana, “o facto de não comer carne” ajudou-a a perceber que podia ajudar a “diminuir o impacto ambiental”. Mais informação e mais conhecimentos viriam: “Só quando vemos dados concretos é que percebemos a dimensão do problema. E então percebi que ia além da alimentação: que ajudava o planeta, mas não era suficiente.”

Por isso, o modo de vida adoptado há quase um ano não se encerra no que lhe preenche o prato: “Tenho um champô vegan, mas é em embalagem. Já comprei o sólido, mas não vou desperdiçar o primeiro. E também tenho cuidados com a maquilhagem e outros produtos.” É um caminho de aprendizagem: “Não tinha tanta noção das coisas ao início. Nem olhava para as etiquetas da roupa.” Assim, não apoia “marcas de roupa que, além de não darem condições mínimas aos trabalhadores, também representam a indústria que mais polui o planeta”. E ela, que diz nunca ter tido “grande paciência para compras”, presta agora atenção a todos os detalhes, ainda que, de vez em quando, lhe escape alguma coisa. “É uma jornada de tentativa e erro.”

A jovem natural de Paredes não deixou de comer produtos de origem animal da noite para o dia. “Mudei-me para Braga em Março de 2017. Aí, comecei a pensar mais nisso porque vivia com pessoas vegetarianas e cozinhávamos juntos. Não fazia sentido comprar carne.” Ainda assim, comia carne em casa dos pais. “Entretanto, deixei esse hábito por completo e, depois, fui viver sozinha.” Faltava tirar, de vez, os derivados de leite de casa: “Dizia sempre: ‘Ah, vegan nunca!’”. Até 1 Setembro de 2018, data do seu vegaversary (aniversário vegan).

Os pais ficaram “muito intrigados” e os avós estão “sempre preocupados”. A resposta tem sido dada através de alguns estudos e de especialistas na matéria. Em 2017, uma meta-análise do National Center for Biotechnology Information (Centro Nacional para a Informação Biotecnológica, nos Estados Unidos) concluiu que, segundo os resultados de estudos de anos anteriores, existe “um efeito protector significativo de uma dieta vegetariana” em relação a doenças vasculares, por exemplo. A dieta confere também “um risco reduzido” da incidência de cancro.

Também Heather Russel, nutricionista da Vegan Society, tirou dúvidas ao The Guardian: “Na realidade, [os vegetais] podem fornecer todas as proteínas essenciais a que chamamos aminoácidos.” Feijões, manteiga de amendoim, sementes de abóbora, lentilhas ou grão-de-bico são “boas fontes” para uma alimentação vegan saudável.

Recentemente ao PÚBLICO, Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas explicava que se tivesse de sugerir um estilo de alimentação à população, em termos gerais, seria a dieta mediterrânica. Porque é aquela em que a balança pesa mais para o lado das frutas, dos vegetais e das leguminosas, mas onde não se excluem totalmente os produtos de origem animal. A quem quer transitar para uma alimentação exclusivamente vegetal a nutricionista aconselhava planeamento, para acautelar alguns riscos como a deficiência de B12. Algo que se resolve com a toma de suplementos ou alimentos fortificados com esta vitamina. Outra questão tem a ver com a qualidade das proteínas vegetais, que é inferior, nomeadamente em relação ao conteúdo de aminoácidos, às de origem animal. Uma estratégia será o consumo de leguminosas com arroz, por exemplo. 

Para ficar descansada, Adriana fez análises antes de partir para Madrid: “Estava tudo igual.” Os familiares lá puderam suspirar de alívio — e, quem sabe, provar uma coisa ou outra.

Tanto que, no Natal, Adriana cozinhou tofu e fez sobremesas vegan. “Não foram muito receptivos, mas os que provaram, gostaram”, conta, orgulhosa. Em Madrid, a dieta mantém-se sem percalços: cozinha sempre o seu almoço. Para quem está a começar — ou que pensa nessa possibilidade —, aconselha um processo “gradual”. “Começar por tirar a carne, depois o peixe e só depois os lacticínios.” Contudo, não espera “que toda a gente vire vegan”; gostava, antes, “que todos se informassem através de documentários, por exemplo.” Dica para começar: para entradas, pedir azeitonas em vez de uma tábua de enchidos (ou tapas).