Lindsay Henwood/Unsplash
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Marcas de roupa desportiva são as mais transparentes com os clientes

Índice de transparência elaborado pelo Fashion Revolution hierarquizou 200 marcas de roupa de acordo com informações reveladas pelas próprias. Em termos sociais e ambientais, quais as marcas mais transparentes?

Quando falamos de transparência na indústria da moda, as marcas de material desportivo ocupam os primeiros lugares: a Adidas, a Reebok e a Patagonia estão no pódio de um índice, recentemente divulgado, que avalia o grau de transparência de 200 das principais lojas e agentes de retalho a operar no sector. O movimento Fashion Revolution promove a reforma da indústria da moda e elaborou o Fashion Transparency Index (FTI), organizado de acordo com informações disponibilizadas pelas próprias marcas e que visam áreas como políticas sociais e ambientais, processos de fabrico e o impacto originado com as operações.

Os primeiros lugares são, assim, ocupados por marcas como a Adidas, a Reebok e a Patagonia, todas classificadas em 64% — a média de 2019 foi 21%. No que diz respeito a marcas com um espectro de oferta mais abrangente, a H&M, multinacional sueca que opera em 69 mercados do mundo, obteve o melhor resultado com 61%.

O índice de 2019 revela algumas novidades comparativamente ao 2018, nomeadamente ao nível da predisposição destas entidades em colaborar com a iniciativa, já que existiu uma maior disponibilidade para a apresentação de dados. Ainda assim, é impossível não reparar nos tópicos seleccionados pelas marcas para a cedência dos referidos dados — políticas ambientais, compromissos ou lista de fornecedores —, que obedecem a uma agenda própria.

Para Salomé Areias, da representação da Fashion Revolution em Portugal, esta escolha pode representar um “comprometimento das marcas com políticas ecológicas e sustentáveis, ainda que não exista nenhuma prova em como estas entidades passaram efectivamente dos planos aos actos”. Tal dúvida surge devido aos poucos dados revelados sobre resultados efectivos e o consequente impacto das estratégias na área da sustentabilidade.

O FTI “não quer avaliar as marcas ao nível da sustentabilidade ou da sua postura ética, mas sim ao nível da transparência”, faz questão de reforçar a porta-voz do movimento, destacando a quantidade de dados e informações que estas mesmas marcas tornam públicas. O objectivo é que os consumidores disponham, na hora de fazer as suas escolhas, de uma maior quantidade de informação e, com base nisso mesmo, possam fazer escolhas mais conscientes.

Os “resultados são muito melhores, não em termos da sustentabilidade e das questões éticas, mas sim da transparência”. Para Salomé, isto é a prova de que “as marcas já se aperceberam do nível de importância que a transparência” pode ter junto dos consumidores. Esta alteração pode justificar-se com “uma nova forma de pensar, quer por parte dos clientes, quer por parte de quem lá trabalha”.

Ainda assim, há marcas que preferem não revelar qualquer informação relativa à sua actividade: Tom Ford, ​Eli Tahari, Jessica Simpson, Mexx e Youngor.

O papel e a importância que a agenda ambiental e ecológica pode ter ao nível do marketing das marcas não ficou esquecida pelo Fashion Revolution, embora o movimento reconheça algumas limitações no apuramento desta influência. “Não é possível saber, através do índice, se esta política de transparência obedece, ou não, a uma agenda de publicidade por parte da empresa.”

Direitos laborais, o calcanhar de Aquiles das marcas

A forma como a indústria da moda está organizada actualmente constitui uma dificuldade acrescida na realização de índices como o FTI, nomeadamente ao nível da obtenção de dados. A deslocação de unidades fabris para outros continentes e as sucessivas subcontratações de outras fábricas para assegurar o cumprimento temporal da demanda tornam complexo, até para as próprias marcas, rastear o processo de fabrico das peças mais tarde apresentadas nas lojas com o seu logótipo estampado.

Este elemento foi, naturalmente, considerado aquando da elaboração do índice, pelo que ficou claro que as questões sociais, com maior ênfase nos direitos laborais, ainda são o calcanhar de Aquiles de muitas marcas. Nesta área, as desigualdades de género ganham uma relevância ainda maior, já que o índice revela que entre 70 a 80% da mão-de-obra que trabalha na confecção das roupas é feminina.

Na opinião de Salomé Areias, é mais difícil para as marcas implementar, mostrar e publicitar estas questões do que as que dizem respeito às medidas ambientais, principalmente pelas “limitações que vão sentir na hora de apresentar resultados”.