Ministério Público investiga alegado esquema do BES para financiar reeleição de Cavaco

Revista Sábado revela que o financiamento da campanha de Aníbal Cavaco Silva nas presidenciais de 2011 está sob suspeita. Cheques de 253 mil euros assinados por gestores do antigo BES/GES estão na mira do DCIAP.

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Miguel Manso

A entrega de 253 mil euros em cheques assinados por vários administradores do antigo grupo BES, incluindo o ex-líder, Ricardo Salgado, à candidatura de Aníbal Cavaco Silva às eleições presidenciais de 2011 está a ser investigada pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP).

A revista Sábado revela esta quinta-feira que um conjunto de dez cheques – nove do antigo Banco Espírito Santo (BES) e um do Barclays –, no valor conjunto de 253.360 euros, podem estar no centro de um esquema de financiamento ilegal à campanha que permitiu reeleger o antigo Presidente da República para um segundo mandato.

Segundo a investigação da Sábado, os cheques foram assinados pelos ex-administradores executivos do BES Ricardo Salgado, José Manuel Espírito Santos Silva, Rui Silveira, Joaquim Goes, António Souto, Amílcar Morais Pires e Pedro Fernandes Homem.

Outros têm a assinatura do presidente da Rioforte, Manuel Fernando Espírito Santo Silva, e do comandante António Ricciardi, um dos donos do GES e pai do então administrador José Maria Ricciardi. Um décimo cheque veio de outro doador com ligações ao GES: Mário Mosqueira do Amaral (que morreu em 2014), um dos cincos accionistas de referência do grupo.

Todos foram passados à ordem da “candidatura de Aníbal António Cavaco Silva” e foram registados nas contas oficiais como donativos individuais.

Explica a Sábado que, no decurso da sua investigação a estes donativos, apercebeu-se que “o alegado financiamento a Cavaco Silva também está sob escrutínio no DCIAP”, o órgão do Ministério Público especializado em crimes complexos, que lidera há cincos anos as investigações ao universo do extinto GES.

Segundo a revista, o esquema terá sido montado por Ricardo Salgado, que assinou o primeiro cheque, a 25 de Novembro de 2010, no valor de 25.560 euros - o valor máximo permitido à época para doadores individuais. Estas doações, feitas a conta-gotas, terão permitido iludir a lei de financiamento dos partidos políticos e das campanhas eleitorais, que proíbe os donativos de empresas e outras entidades colectivas.

A Sábado escreve que, depois de “analisar inúmeros dados sobre transferências financeiras interbancárias de e para contas em nome de offshores alegadamente controlados por altos responsáveis do BES/GES” pôde concluir que, poucos meses depois de terem sido passado estes cheques à candidatura do ex-Presidente da República, “ocorreram transferências de valores idênticos para offshores de doadores de Cavaco”.

Esta acção terá sido suportada pela sociedade que entretanto ficou conhecida como o “saco azul” do BES, a ES Enterprises, que seria usada para fazer pagamentos sem os registar nas contas do grupo.

A Sábado contactou os antigos gestores do BES/GES. Não conseguiu obter um comentário de Ricardo Salgado, mas outros, como José Manuel Espírito Santo, Rui Silveira e Joaquim Goes, responderam através dos seus advogados, confirmando as doações, mas negando a participação em qualquer esquema de financiamento ilegal.

Também Amílcar Morais Pires disse à revista que, “enquanto cidadão”, fez donativos de forma voluntária para a campanha de Cavaco e rejeitou o envolvimento em “qualquer estratégia ou alinhamento com terceiros nos donativos”.