Cinco rinocerontes-negros-orientais chegaram ao Ruanda para salvar a espécie da extinção

Cinco rinocerontes-negros-orientais chegaram esta quarta-feira ao Ruanda oriundos de vários países europeus. O objectivo é que os rinocerontes dêem continuidade à espécie e reforcem o número de animais que vivem no Parque Nacional de Akagera.

Rinoceronte
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Um dos exemplares de rinoceronte-negro-oriental depois de chegar ao Ruanda REUTERS
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A viagem de seis mil quilómetros só se concretizou esta semana, mas já vinha a ser preparada há vários anos. A 23 de Junho, Jasiri, Jasmína, Manny, Olmoti e Mandela, cinco rinocerontes-negros-orientais (Diceros bicornis michaeli​) rumaram ao Ruanda com uma missão: preservar esta subespécie de rinoceronte-negro, num país onde o animal está classificado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) como “criticamente em perigo”.

O projecto, que resulta de uma colaboração entre a Associação Europeia de Zoos e Aquários (EAZA) — da qual o Jardim Zoológico de Lisboa faz parte —, o Governo do Ruanda e a African Parks, uma organização não-governamental centrada na conservação de várias espécies, levou cinco rinocerontes-negros-orientais a serem transportados de Dvur Králové, na República Checa, para o Parque Nacional de Akagera, no Ruanda, onde serão reintroduzidos e darão continuidade à subespécie.

Os animais seleccionados para reprodução, que deverão ser introduzidos esta quarta-feira no seu novo habitat, são três fêmeas e dois machos com idades entre os dois e os nove anos e nasceram em zoos da Europa no âmbito do projecto, entre eles no Safari Park de Dvur Králové, na República Checa, no Flamingo Land, no Reino Unido, e no Ree Park Safari, na Dinamarca.

Segundo um comunicado do Jardim Zoológico de Lisboa, durante o transporte os animais foram acompanhados e monitorizados por um tratador experiente e também por um veterinário especialista em transporte de rinocerontes. Os especialistas deverão também acompanhar a libertação dos animais no Parque Nacional de Akagera.

Um habitat preparado

A reintrodução de animais em habitat natural é um processo moroso, que implica a constituição prévia de uma população geneticamente saudável e a garantia de que o habitat está preparado para receber os animais. “Após avaliação, conclui-se que o Parque Nacional de Akagera apresenta as condições ideais para a reintrodução destes animais, uma vez que desde 2010 o parque tem sido submetido a alterações nesse sentido”, lê-se no comunicado. 

Actualmente e ainda de acordo com aquela entidade, com a caça praticamente eliminada, tem sido possível a reintrodução de espécies-chave como leões, que triplicaram o número de indivíduos, e rinocerontes. Os esforços de conservação e o turismo permitiram que o parque seja quase auto-suficiente, gerando dois milhões de dólares por ano (cerca de um milhão e 760 mil euros)​, utilizados para desenvolver o parque e as comunidades vizinhas.

Os cinco rinocerontes seleccionados residiam no mesmo espaço no parque de Dvur Králové desde 2018 para que se adaptem a uma vida em comum e para que a transição para o Ruanda corra de acordo com o planeado. Numa primeira fase, os animais serão mantidos em áreas cercadas para a sua adaptação e mais tarde vão desfrutar de instalações maiores numa área protegida, sendo que o passo final será a libertação na parte norte do parque nacional. 

PÚBLICO - Os contentores que transportaram os animais
Os contentores que transportaram os animais REUTERS
PÚBLICO - Um dos rinocerontes-negros-orientais depois da chegada ao parque nacional onde será introduzido
Um dos rinocerontes-negros-orientais depois da chegada ao parque nacional onde será introduzido REUTERS
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As boas condições registadas vão também permitir o estudo não apenas dos cinco animais reintroduzidos, mas também da população existente naquela região. A integração dos animais na comunidade irá contribuir para uma população estável de rinocerontes-negros na África Oriental. 

Com tendência confirmada para o decréscimo da população no habitat natural, o projecto é um “grande passo” para a conservação da espécie, diz Mark Pilgrim, coordenador do programa e presidente do Zoo de Chester, no Reino Unido. Já o parque em si é um componente-chave da estratégia do Governo do Ruanda para promover o crescimento económico, “proporcionando um futuro seguro para a vida selvagem no país”, lê-se no documento.

Em África, existem actualmente menos de cinco mil rinocerontes-negros (Diceros bicornis) e apenas mil rinocerontes-negros-orientais. O futuro da espécie está criticamente ameaçado pela caça ilegal para a obtenção dos chifres que são extremamente valiosos em várias partes do mundo

Esta é a maior transferência de sempre de rinocerontes europeus para África. Com a chegada dos cinco animais, o número destes mamíferos sobe para 25 no parque de Akagera, local onde existiam mais de 50 rinocerontes nos anos 1970, que desapareceram em 2007 devido a caça furtiva indiscriminada. Para Jes Gruner, gerente do parque, “o transporte dos cinco rinocerontes é histórico e simbólico e demonstra o que é possível fazer quando os parceiros colaboram na protecção e recuperação de uma espécie verdadeiramente ameaçada”.

Também uma fêmea de rinoceronte-negro do Jardim Zoológico de Lisboa tinha sido reintroduzida em habitat natural na África do Sul. De acordo com este jardim, desde então esta fêmea já contribuiu com pelo menos cinco crias para a população local, fundamentais para a sobrevivência da espécie.

Quão ameaçadas estão as espécies de rinocerontes do mundo?

Segundo o World Wide Fund for Nature (WWF), as populações de rinoceronte-negro diminuíram drasticamente no século XX, essencialmente devido à caça e colonização europeia. De acordo com os últimos números daquela organização, das cinco grandes espécies de rinocerontes, apenas duas não estão classificadas como “criticamente em perigo”.

Os rinocerontes-brancos, classificados como “quase ameaçados”, são o segundo maior mamífero terrestre e existem apenas na África do Sul, Namíbia, Zimbábue e Quénia. A maior das suas populações é composta por rinocerontes-brancos-do-sul (uma das duas subespécies) e acredita-se que actualmente existiam só entre 19 mil e 21 mil animais daquela subespécie, e apenas dois rinocerontes-negros-do-norte depois do último espécime macho, de nome Sudan, ter sido abatido no Quénia devido a graves complicações de saúde.

Os números dos rinocerontes-negros, espécie composta por quatro subespécies (uma delas extinta em 2011), variam entre os 5042 e os 5455 espécimes nos dias de hoje. Já a população de rinocerontes-indianos, espécie classificada como “vulnerável”, ultrapassa os 3500 exemplares que vivem principalmente na Índia e no Nepal. 

O rinoceronte-de-samatra está “criticamente em perigo”, sendo que há apenas 80 exemplares da espécie espalhados pela Índia, Nepal, Tailândia, Birmânia e Vietname. O rinoceronte-de-java está classificado com o mesmo estatuto, uma vez que os cerca de 60 exemplares existentes vivem apenas no Parque Nacional de Ujung Kulon, em Java, na Indonésia.