O extinto rinoceronte-branco-do-norte pode voltar?

Equipa internacional de cientistas produziu o primeiro embrião híbrido de rinoceronte-branco no laboratório. O objectivo é implantar um embrião numa “barriga de aluguer”, esperar pelo sucesso da gravidez de 16 meses, e ter uma primeira cria daqui a cerca de três anos.

Rinoceronte, rinoceronte-branco-do-norte, Ol Pejeta Conservancy, Sudão
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Najin, 27 anos, e Fatu, 17 anos, são as duas únicas sobreviventes da subespécie EPA/DAI KUROKAWA
Ol Pejeta Conservancy, rinoceronte, rinoceronte-branco do norte, Sudão
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Sudan, o último rinoceronte-branco-do-norte morreu com 45 anos REUTERS/Baz Ratner

Que se saiba, restam apenas duas fêmeas, mãe e filha, da subespécie de rinoceronte-branco-do-norte na Terra. Na tentativa de manter este precioso animal entre nós, uma equipa de cientistas está há vários anos a trabalhar no laboratório, recorrendo às mais recentes técnicas de procriação medicamente assistida e da investigação na área de células estaminais. Para já, segundo um artigo publicado na última edição da revista Nature Communications, conseguiram produzir o primeiro embrião híbrido, com ovócitos do rinoceronte-branco-do-sul e espermatozóides do rinoceronte-branco-do-norte. Mas os planos dos cientistas vão além disso e têm como objectivo conseguir fazer nascer um rinoceronte-branco-do-norte puro dentro de três anos. Seria o princípio do regresso de uma espécie que hoje está funcionalmente extinta.

Sudan, o último rinoceronte-branco-do-norte macho, morreu em Março deste ano na reserva natural queniana de Ol Pejeta, onde vivia desde 2009. Com a sua saúde a deteriorar-se dia após dia, impedido de se levantar e a sofrer com dores, a opção pela eutanásia tornou-se inevitável. Sudan tinha ido para o Quénia vindo do jardim zoológico de Dvur Králové, na República Checa. Foi levado para a reserva natural de Ol Pejeta, 250 quilómetros a norte de Nairobi, para viver com as duas últimas fêmeas da mesma subespécie, Najin, 27 anos, e Fatu, 17 anos – respectivamente filha e neta de Sudan. O fim de Sudan parecia ter ditado o fim de uma subespécie. Mas os cientistas estavam atentos.

O trabalho terá começado ainda antes disso, mas já em 2008 uma equipa de investigadores tinha conseguido reunir um stock de 300 mililitros de esperma de quatro rinocerontes-brancos-do-norte (Sudan foi um dos dadores), referiu Thomas Hildebrandt, responsável pelo departamento de gestão da reprodução no Instituto Leibniz para a Investigação da Vida Selvagem e Zoológica (em Berlim) e um dos principais autores do artigo agora publicado, durante uma conferência de imprensa organizada pela Nature. Infelizmente, apesar da preciosa reserva, o sémen criopreservado não é da melhor qualidade pertencendo a machos que já tinham uma idade avançada e alguns problemas de saúde. Ainda assim, terá sido possível optimizar este material, usando algumas técnicas de reprodução medicamente assistida, para conseguir bons resultados.

Mas, uma cria não se faz só com sémen. Era preciso também recolher os ovócitos de fêmeas e, para poupar as únicas duas sobreviventes da subespécie do rinoceronte-branco-do-norte, os cientistas decidiram testar o procedimento e fazer os ensaios com aquele que será o seu parente mais próximo, o rinoceronte-branco-do-sul (note-se que, em contraste com a praticamente extinta subespécie do Norte, há cerca de 21 mil rinocerontes-brancos-do-sul em África). E, mais uma vez, surgia um obstáculo já que a recolha de ovócitos nestes enormes animais de duas toneladas não é uma tarefa simples e, por isso, exigiu o desenvolvimento de um novo instrumento técnico para a extracção dos ovócitos, com dois metros de comprimento, que acabou por ser patenteado.

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Sudan, o último rinoceronte-branco-do-norte macho, morreu em Março de 2018 EPA/DAI KUROKAWA

Em 2012, a equipa tinha conseguido recolher “um pequeno mas consistente número de ovócitos para produzir embriões”, lembrou Cesare Galli, do Laboratório de Tecnologias Reprodutivas Avantea, em Itália, e um dos principais autores deste trabalho, durante a conferência de imprensa. Os testes começaram, foram recolhidos mais ovócitos de fêmeas de rinocerontes-brancos-do sul que vivem em vários jardins zoológicos da Europa e dos EUA, e os cientistas foram avançando através de tentativas e erros, por um terreno desconhecido – “não há informação sobre esta espécie e não sabíamos quanto tempo ia demorar até termos um blastocisto [uma das primeiras fases de desenvolvimento embrionário]”, lembrou Cesare Galli.

Trabalhava-se assim com o material reprodutivo no laboratório à espera de ver um embrião a desenvolver-se no “tubo de ensaio”. O que, obviamente, acabou por acontecer. Em 2015 já tinham conseguido um guião para o procedimento e no final de 2017 a equipa tinha conseguido produzir quatro embriões híbridos que foram criopreservados.

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Najin e Fatu, no Quénia REUTERS/Thomas Mukoya

E agora? Agora o plano é implantar estes embriões em “barrigas de aluguer”, ou seja, em fêmeas de rinoceronte-branco-do-sul, existindo já uma mão cheia de candidatas. Depois, se tudo correr às mil maravilhas, as crias nascidas destas barrigas de aluguer serão, por sua vez, excelentes candidatas para barrigas de aluguer de outras crias, acreditam os cientistas.

O plano para o “puro”

Mas os cientistas não querem apenas fazer pequeninos rinocerontes híbridos. Isso não chega. Querem puros rinocerontes-brancos-do-norte de volta. Para isso, é preciso ovócitos de fêmeas desta subespécie e, como sabemos, só há duas na Terra. Assim, segundo explicaram na conferência de imprensa, esperam pela obtenção de uma autorização do Governo queniano para tentar recolher ovócitos de Najin e Fatu. Juntando estes ovócitos à reserva de sémen, pode ser criado um embrião de rinoceronte-branco-do-norte puro por fertilização in vitro.

Porém, este ambicioso plano também não está isento de riscos e obstáculos. Por um lado, este procedimento implica que as fêmeas sejam colocadas sob o efeito de uma anestesia geral durante duas horas. “Há muito medo que algo de inesperado, qualquer coisa relacionada com o seu estado de saúde como, por exemplo, uma doença cardíaca, aconteça durante o procedimento. Isso seria um pesadelo. Mas estamos extremamente confiantes”, disse Thomas Hildebrandt. Por outro lado, as transferências de embriões para mães de aluguer têm taxas de sucesso muito baixas e, para já, ainda não tiveram sucesso em nenhuma espécie de rinoceronte. Ainda assim, questionados pelos jornalistas, os “confiantes” cientistas adiantaram que talvez dentro de três anos, já contando com os 16 meses de gravidez, seja possível ter a primeira cria de rinoceronte-branco-do-norte cá fora. “Temos mais ou menos um ano para conseguir uma gravidez de sucesso”, acrescentou.

“Os nossos resultados são sólidos, reproduzíveis e muito promissores. Agora estamos bem preparados para ir ao Quénia e recolher ovócitos das duas últimas fêmeas de rinoceronte-branco-do-norte, a fim de produzir blastocistos puros desta subespécie”, comenta Thomas Hildebrandt, no comunicado de imprensa sobre o estudo. Neste documento, acrescenta-se ainda que os cientistas já realizaram mais de 20 recolhas de ovócitos de fêmeas de rinoceronte-branco-do-sul na Europa, gerando mais embriões do que os reportados no artigo científico. “Estão actualmente a trabalhar no procedimento de transferência de embriões.”

Mas, o futuro da subespécie do rinoceronte-branco-do-norte não depende apenas desta linha de investigação. Aliás, nem poderia depender, já que este esforço não seria suficiente para repor uma população de rinocerontes. Assim, paralelamente, a mesma equipa de investigadores está a investir numa outra abordagem que explora os avanços conseguidos na área da investigação em células estaminais para a medicina regenerativa. Basicamente, o que querem fazer é usar as células somáticas (da pele) de rinocerontes-brancos-do-norte e transformá-las em células estaminais pluripotentes, que têm as mesmas características das células estaminais embrionárias exibindo a extraordinária capacidade de se tornarem qualquer tecido do corpo.

Em resumo, o plano é fazer de células somáticas células estaminais pluripotentes, que, por sua vez, se tornariam gâmetas (ovócitos e espermatozóides) e que, por sua vez, se tornariam embriões. Um projecto (igualmente ambicioso) que também se vai apoiar nos passos que têm sido dados no campo da saúde reprodutiva humana e que assenta, para já, em 12 linhas celulares que os cientistas têm de células somáticas de rinocerontes-brancos-do-norte com uma significativa diversidade genética. Porém, neste plano, o horizonte é mais alargado esperando-se resultados só daqui a cinco ou dez anos. “O principal problema não será fazer as células estaminais pluripotentes induzidas, isso já foi feito. O desafio é transformar essas células em ovócitos e espermatozóides viáveis. Isso é que vai dar mais trabalho”, disse Thomas Hildebrandt.

“O objectivo final é ter um puro rinoceronte-branco-do-norte. De uma maneira ou de outra. Através das células estaminais ou dos ovócitos das sobreviventes”, resumiu Jan Stejskal, director dos projectos internacionais no jardim zoológico de Dvur Králové, na República Checa.

Esta operação de salvamento do rinoceronte-branco-do-norte parte de uma abordagem inteiramente nova que combina as mais recentes tecnologias no campo das células estaminais com os avanços nas técnicas de procriação medicamente assistida, incluindo uma inovadora forma de extracção de ovócitos. Ou seja, não teria sido possível fazê-la antes, quando Sudan ou outros rinocerontes machos ainda estavam entre nós.

Durante a conferência de imprensa, os cientistas foram questionados se estas tentativas e manipulações no laboratório iriam, de facto, conseguir “fabricar” o rinoceronte que existia na natureza ou se o resultado seria um “artefacto artificial que conseguimos criar das ruínas desta subespécie”. Foi Cesare Galli que respondeu primeiro: “O facto de o embrião ser feito no laboratório não significa que é um embrião falso ou mais fraco. Se conseguirmos garantir os ovócitos das fêmeas no Quénia e seguir o procedimento que estudámos, posso garantir que teremos 100% um rinoceronte-branco-do-norte, tal como nascia na natureza.” Thomas Hildebrandt ainda acrescentou: “Temos actualmente milhões pessoas que nasceram após programas de fertilização in vitro e não dizemos que são diferentes de nós.”

Finalmente sobre as razões do desaparecimento desta subespécie, Jan Stejskal lembrou: “O rinoceronte-branco do-norte foi chacinado por causa do corno, que valia mais do que ouro. Não falhou por questões evolutivas mas apenas porque não é à prova de bala. Se há alguma hipótese de o tentar recuperar, não podemos deixar de tentar.”

Os cientistas reconhecem que esta é uma verdadeira corrida contra o tempo e que as tradicionais medidas de conservação natureza já nada conseguem fazer para salvar esta subespécie. Os rinocerontes-brancos-do-norte são os mamíferos mais ameaçados da Terra. “Todos os esforços de conservação para salvar esta espécie foram frustrados por actividades humanas, como a caça ilegal, a guerra civil e a perda de habitat. Isso resultou na redução da população de dois mil indivíduos na década de 1960 para apenas duas fêmeas remanescentes hoje.”