Guinada de Rivera à direita motiva demissão de dois pesos pesados do Cidadãos

Porta-voz económico no Congresso bateu com a porta e eurodeputado abandonou a direcção. Dizem-se insatisfeitos com a aproximação do partido ao Vox e com a recusa de Rivera em negociar com Sánchez a sua investidura.

Albert Rivera, líder do Cidadãos
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Albert Rivera, líder do Cidadãos Reuters/JUAN MEDINA

A deriva do Cidadãos para a direita, conduzida nos últimos meses pelo seu líder Albert Rivera, provocou esta segunda-feira as primeiras deserções. O deputado e porta-voz económico dos liberais espanhóis no Congresso, Toni Roldán, abandonou o partido e renunciou ao cargo, por causa da aproximação à extrema-direita, e o eurodeputado Javier Nart abdicou do seu lugar da direcção, insatisfeito com a recusa da restante cúpula em negociar a investidura do Governo de Pedro Sánchez.

Os dois demissionários fazem parte da ala progressista e europeísta do partido e têm relações próximas com Luis Garicano, o cabeça-de-lista nas últimas eleições europeias e vice-presidente económico do Cidadãos. Roldán é mesmo descrito na imprensa espanhola como a “mão direita” do ex-académico, pelo que a sua saída é demonstrativa das divergências existentes entre Rivera e a facção mais liberal do partido.

“Todas as estratégias políticas têm custos, mas os custos da estratégia do Cidadãos são demasiado altos para Espanha”, justificou Roldán, em conferência de imprensa. “Não saio porque mudei, saio porque o Cidadãos mudou. A política não é um supermercado”, atirou.

Para o político liberal, que foi um dos responsáveis pelo programa eleitoral do Cidadãos nas legislativas de Abril, “é necessário confrontar” o Vox, em vez pactuar com o partido ultranacionalista, fazer esforços para um entendimento entre “aqueles que, como nós, acreditam na democracia liberal” e evitar comparações com o PP – o principal partido de direita, em Espanha.

“Como vamos superar a confrontação entre vermelhos [PSOE] e azuis [PP] se nos convertemos em azuis? Como vamos combater o nacionalismo se não conseguimos evitar que esteja representado nas instituições? Como vamos construir um projecto liberal se não somos capazes de confrontar a extrema-direita, que defende exactamente o contrário do que nós defendemos?”, questionou Roldán, que lançou uma crítica dura, mas velada, a Rivera: “Os bons políticos não são os que mais lutam, mas os que colocam os interesses do país à frente de tudo o resto”.

Albert Rivera guiou o Cidadãos ao seu melhor resultado de sempre nas últimas legislativas – 57 deputados –, numa altura em que já era muito criticado, dentro e fora do partido, por ter patrocinado o derrube da presidência socialista da Andaluzia, em Dezembro, através de um pacto com o PP e o Vox. 

A continuação dos contactos com o partido de Santiago Abascal, na sequência das eleições autonómicas e municipais, que se realizaram no mesmo dia das europeias, valeu-lhe um aviso sério de Emmanuel Macron e do grupo liberal europeu, e aumentou a pressão interna para viabilizar a investidura de Sánchez, desbloquear o impasse no Parlamento e impedir o Podemos de chegar ao Governo.

Mas Rivera não abre mão do “cordão sanitário” que impôs aos socialistas. Nem ele, nem o seu núcleo duro. Numa votação esta segunda-feira, na direcção do Cidadãos, 77% dos seus membros votou contra a hipótese de encetar negociações com o PSOE tendo em vista a investidura do próximo Governo. Garicano e Nart votaram favoravelmente e o segundo acabou por abandonar o comité executivo do partido.

No mesmo dia, Pedro Sánchez recebeu Pablo Casado, líder do PP, e insistiu para que este permita a aprovação de um executivo socialista no Congresso de Deputados. Casado não mudou de opinião e Espanha continua sem Governo.