Crónica

Brincando (a sério) aos clássicos

“E se fossem miúdos normais que se transformam em deuses?”, perguntam os filhos mais velhos. Sim! Deuses da Grécia Antiga. Não há dúvidas. A cultura clássica faz parte da génese de quem somos.

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Patrícia Furtado

Sempre gostámos de almoçar debaixo daquelas duas figueiras, de Verão, de preferência com amigos, fazendo o almoço prolongar-se para o lanche com conversas sem fim.

Foi num desses almoços que surgiu a ideia de escrever a quatro mãos, qual Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Embora não quiséssemos escrever Uma Aventura, queríamos chegar àquele público e ensinar-lhe alguma coisa, não fosse a minha amiga Ana Soares professora e eu jornalista com um sentido de serviço público apurado. O jornalismo pode ser pedagógico, acredito.

E ali estivemos, à mesa, várias horas. Os miúdos mais pequenos, já um bocado fartos, pediam licença para se levantar e brincar na relva ou nos balouços, regressando à mesa. Os mais velhos foram permanecendo, curiosos e dando ideias.

Miúdos normais a ter aventuras? Não! Isso foi o que a dupla com mais sucesso da literatura infanto-juvenil portuguesa fez, no encalce de Enid Blyton, e depois delas também Maria Teresa Maia Gonzalez e Maria do Rosário Pedreira, com O Clube das Chaves, tentaram — claramente com menos vendas, embora com uma escrita mais desafiante. Com heróis? Não, não chegaríamos aos pés da Marvel...

“E se fossem miúdos normais que se transformam em deuses?”, perguntam os filhos mais velhos. Sim! Deuses da Grécia Antiga. Não há dúvidas. A cultura clássica faz parte da génese de quem somos e nada como mostrar isso mesmo aos leitores, de uma maneira divertida.

Assim começou a ideia de escrever a série a que daríamos o nome de Olimpvs.net — uma referência ao monte onde viviam os deuses e um piscar de olho às novas tecnologias e redes sociais em que vivem os miúdos nos dias de hoje. Além dos livros, há sempre um capítulo extra que pode ser lido online, ao qual se acede através de uma password que está no livro.

O número de heróis, o género, as características físicas e psicológicas, as suas histórias foram nascendo noutros almoços, lanches, lanches ajantarados e jantares que fomos fazendo, ao longo de alguns meses, anos até. As suas histórias foram escritas a quatro mãos, mas foram pensadas e desenhadas por oito cabeças que tinham ideias e davam sugestões. “E se, em vez de correr, voasse?...”

Não foi fácil publicar o Olimpvs.net, mas lá conseguimos um editor amante da cultura clássica e um visionário que conseguia ver os nossos heróis na televisão. Não aconteceu. Não foi fácil vender, embora o primeiro volume tenha esgotado e tenha tido uma segunda edição. E está no Plano Nacional de Leitura.

Anos passados desde o último volume publicado, continuamos a ser convidadas para ir a escolas falar sobre mitos e heróis da Grécia Antiga. E ir a escolas é quase tão bom como sentar-me em frente de um ecrã e imaginar diálogos entre um miúdo de 16 anos, que não sabe quem é, e a monstruosa e bela Medusa.

Ir às escolas, de norte a sul, é perceber o futuro do país. Numas temos os jovens curiosos, que fazem perguntas, seguros de si. Noutras temos os miúdos apáticos, que nunca viram um jornal, juram a pés juntos. Numas temos filas com jovens que carregam a colecção inteira, oito volumes, para assinarmos. Noutras há meninos que chegam com uma folha de post-it amarela para autografarmos e nos dizem ao segredo que os pais não podem comprar os livros porque estão desempregados. Em todas, temos professores que querem, como nós, que os seus alunos saibam e sejam mais.

O Olimpvs.net e as suas autoras ajudaram a criar um concurso nacional que teve este ano a sua segunda edição e que põe os alunos, de todos os ciclos do básico e do secundário, a trabalhar os mitos e os heróis da Grécia Antiga. A Rede de Bibliotecas Escolares e o Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa criaram o projecto Clássicos em Rede e uma parceria que possibilita a realização das Olimpíadas da Cultura Clássica.

Há um ano, éramos poucos, neste já éramos mais os envolvidos e entusiasmados com o projecto. Um dos entusiastas, desde o primeiro minuto, é João Costa, o secretário de Estado da Educação, o homem que não tem vergonha de contar que conheceu a futura namorada e depois mulher por causa do latim; e o governante que confessa ter-se inspirado nesta parceria para propor isso mesmo: que os professores do ensino superior saiam das suas torres de marfim e tenham uma relação mais próxima com os alunos do básico e do secundário.

O dia da entrega dos prémios das Olimpíadas foi escolhido por João Costa para anunciar o programa Cientificamente Provável, o qual tem já mais de 300 projectos a decorrer, fruto dessas parcerias — levando mais ciência, mais cultura e mais arte às escolas —, e para lembrar que, graças à flexibilidade, um aluno de Ciências e Tecnologia pode ter uma disciplina de Latim ou um de Línguas e Humanidades pode frequentar Biologia, em vez de ficarem presos a disciplinas obrigatórias.

E tudo começou à sombra de duas figueiras, num dia quente, no início do Verão, quando os miúdos, hoje jovens adultos, propuseram: “E se fossem miúdos normais que se transformam em deuses?”