Editorial

A universidade do antigo regime

A universidade é um ente demasiado importante para que seja pasto do amiguismo e couto do nepotismo movido pelos favores.

É oficial: as universidades portuguesas são com muita probabilidade as que têm os melhores quadros docentes do mundo. Como o PÚBLICO revelou este domingo, mais de metade dos professores de 28 instituições do ensino superior (exactamente 53.8%) foram avaliados com a nota de excelente, enquanto menos de 5% foram merecedores de uma nota “insuficiente”.

Se em casos como o do Politécnico de Santarém o quadro geral parece ser desolador (“só” 5% de excelentes), no paradisíaco ISCTE 80.6% dos docentes mostraram-se irrepreensíveis nas metodologias de ensino, na assiduidade, na proximidade dos alunos, na excelência da investigação e em todos os atributos capazes de elevar a condição da docência aos níveis da perfeição celestial.

Um retrato destes à avaliação dos professores universitários poderia limitar-se a suscitar o lamento do ridículo se em causa não houvesse suspeitas sobre um perigoso alheamento do mundo e do papel que o ensino superior desempenha na qualificação dos jovens e no futuro do país. Porque o que esta distribuição generosa de excelentes nos revela é mais uma prova do regime de privilégio que parece pairar sobre as universidades.

Juntemos a estes dados as conclusões de um estudo que nos mostra que 70% dos docentes das universidades públicas portuguesas se doutoraram na mesma instituição onde leccionam e ficamos com um retrato assustador. Em vez de apostarem numa cultura de exigência, de mérito e de uma procura permanente de melhoria do serviço que prestam, uma grande parte das universidades parece dedicada a afagar o seu ego e a privilegiar a sua corte.

Mesmo que tenhamos em consideração que a qualidade do ensino superior público melhorou, ainda que seja verdade que nos últimos anos houve uma preocupação de abertura, de ligação às necessidades da economia ou das pessoas é impossível não olhar para a realidade retratada com estes estudos e exigir mudanças. A validade do princípio da autonomia universitária está a ser desbaratada em favor da endogamia.

Haver instituições, como os politécnicos de Leiria e de Castelo Branco, que se recusaram revelar os dados da sua avaliação é a prova acabada de que há na academia quem julgue viver sob a égide de um feudo inamovível e inviolável.

É preciso mudar esta cultura para que, de facto, os “excelentes” sejam devidamente premiados e os “insuficientes” sejam estimulados a evoluir ou a mudar de vida. A universidade é um ente demasiado importante para que seja pasto do amiguismo e couto do nepotismo movido pelos favores. Tem a palavra o Governo, já que a própria academia foi incapaz de a usar.