A escolha do curso superior: existe transparência na informação às famílias?

Espera-se, a bem das famílias e dos estudantes portugueses, que o nível de informação que o Estado presta sobre a empregabilidade e retornos dos diplomados de cada par estabelecimento/curso seja cada vez maior.

O mês de julho é o mês da primeira fase de candidaturas ao ensino superior, a que se segue em agosto e setembro, as segundas e terceiras fases, respectivamente.

Esta é talvez uma das decisões mais importantes da vida de um jovem de 17 ou 18 anos e da sua família. A escolha não é uma escolha livre. As restrições orçamentais, o percurso anterior e os exames efetuados com sucesso e as suas classificações limitam-na. Mas, dentro dessas limitações, cada jovem é confrontado a escolher se opta por continuar os seus estudos ou entra no mercado de trabalho. É ainda confrontado com a escolha entre cursos similares de um número elevado de escolas diferentes, potencialmente em localizações diferentes, ou seja, da escolha do par estabelecimento/curso. Se a escolha do curso é muitas vezes ditada pelos gostos individuais (ou vocações) e pelas escolhas anteriores do percurso do ensino secundário, a escolha da escola e da sua localização tem um impacto não negligenciável no orçamento familiar. Por exemplo um estudante de Chaves que decida ir estudar para Lisboa pode acrescer um custo adicional de cerca de 1000€ mensais ao orçamento familiar, contando com alojamento, transportes, alimentação e propinas. Já um estudante de Elvas que decida estudar em Coimbra poderá contar com mais cerca de 600€ e um estudante do Barreiro que decida estudar em Santarém com mais cerca de 470€ mensais (estimativas proporcionais ao poder de compra per capita por concelho em 2015, INE e PORDATA). Como deve então a família e o estudante equacionar este investimento que envolve um curso superior?

O primeiro aspecto que deve ser relembrado é que o investimento num curso superior compensa, quando comparado com a decisão alternativa de tentar o mercado de trabalho apenas com o ensino secundário! Todos os estudos para a realidade portuguesa concluem que, em média, por cada ano de estudo no ensino superior e em particular pela conclusão de uma licenciatura ou de um mestrado, a taxa de retorno anual média por ano de escolaridade superior ultrapassa em muito a de qualquer investimento alternativo.

Porque têm então muitas famílias e os seus estudantes a ideia de que muitos diplomados não conseguem um bom emprego ou às vezes nem conseguem emprego no fim dos seus cursos? Porque a conclusão de que um curso superior compensa é uma conclusão válida para a média dos indivíduos e não para todos e cada um em particular! Certo que os estudos controlam para um grande conjunto de características individuais dos estudantes e das famílias, mas muitas vezes não incorporam, normalmente por escassez de dados, elementos relativos ao investimento individual que cada família fez durante o curso nem para a área científica de formação, nem para a escola em que se graduou.

Todos sabemos que é hoje muito diferente tirar o curso na área de engenharias ou de letras, de medicina ou de sociologia. Encontramos muito mais postos de trabalho preenchidos com educação a mais nas áreas das ciências sociais do que na medicina ou na engenharia. E não vale a pena esconder que, mesmo considerando todas as outras variáveis constantes, não é indiferente tirar um curso de Medicina ou Psicologia numa escola ou noutra. Seja pela localização geográfica, seja pelo prestígio ou pela qualidade e relações grangeadas junto dos empregadores, há escolas que garantem mais retorno aos futuros graduados que outras! Um estudo recente (Blag e Blom, 2018[1]), citando também outros estudos científicos, refere “a universidade e o curso que um estudante selecciona pode ser determinante para a trajectória dos seus rendimentos futuros. Quando os estudantes estudam numa instituição menos selectiva do que o nível para o qual seriam elegíveis, podem perder os benefícios salariais que ganhariam se estudassem numa instituição mais selectiva” (tradução livre).

Mas como podem ter as famílias acesso a estas informações de forma a poderem tomar uma decisão tão acertada quanto possível? A verdade é que existe falta de informação pertinente (ou pouca transparência), não obstante o esforço crescente dos vários governos em fornecer alguma informação adicional. Por lei, as instituições estão obrigadas a fazer estudos de monitorização do percurso profissional dos seus graduados mas muitas não cumprem esse requisito legal. Mesmo quando o fazem, uma vez que os estudos são feitos pelas próprias instituições, eles estão a priori potencialmente enviesados. É obvio o conflito de interesses de uma instituição que faz um estudo sobre o percurso profissional dos seus próprios diplomados uma vez que as instituições competem entre si pela captação de estudantes. Assim sendo, só uma entidade independente (por exemplo, do Estado) poderia providenciar um estudo anual credível e comparável sobre o percurso profissional dos graduados de cada instituição. Só assim se forneceria às famílias uma informação transparente sobre os potenciais retornos desta importante decisão para que os pudesse comparar com os custos da mesma.

A única variável disponibilizada que pode ser uma aproximação (ainda que bastante imperfeita) dos potenciais retornos do ensino superior é o número de diplomados de cada par curso/instituição inscrito no IEFP – Instituto de Emprego e Formação Profissional, tipicamente associado à taxa de desemprego. No entanto, esse número esconde informação muito pertinente. Primeiro, esconde o tempo médio para a obtenção do primeiro emprego e os tempos decorridos no mesmo emprego e entre empregos diferentes. Segundo, esconde a distribuição de salários dos diplomados e portanto esconde também a proporção de diplomados que está empregado num lugar com qualificações a mais (por exemplo um economista a exercer a profissão de caixa num supermercado). Terceiro, esconde também a progressão dessa mesma distribuição ao longo do tempo, ou seja qual o aumento potencial de salário obtido por um graduado ao longo da sua vida profissional.

Por exemplo, uma mesma taxa de 3% de inscritos no IEFP em escolas diferentes pode comparar situações em que os 97% de diplomados que não se encontram inscritos no IEFP estão empregados com um salário bruto médio de 2000€ se forem diplomados pela escola A ou de 700€ se forem diplomados pela escola B.

Na ausência de informação mais fidedigna cabe às famílias não só olhar para a taxa de “‘desemprego” disponibilizada pela DGES/IEFP mas também olhar a características como o prestígio e a dimensão (ou massa crítica) da escola, a opinião de ex-estudantes ou diplomados e a relação da mesma com o tecido empresarial.

Espera-se, a bem das famílias e dos estudantes portugueses, que o nível de informação que o Estado presta sobre a empregabilidade e retornos dos diplomados de cada par estabelecimento/curso seja cada vez maior e daqui a um ano possa estar a descrever aqui as informações adicionais a que as famílias podem ter acesso para a tomada desta tão importante decisão.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico