Como escolher um curso superior? Os conselhos dos especialistas

Na semana em que têm início as candidaturas ao ensino superior, falámos com especialistas em gestão de recursos humanos, que ajudam empresas a recrutar os seus quadros e seleccionam talentos. Para além da vocação, o que deve ser ponderado?

Prazo para apresentar candidaturas ao concurso nacional vai até 10 de Agosto
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Prazo para apresentar candidaturas ao concurso nacional vai até 10 de Agosto ENRIC VIVES-RUBIO

Primeiro conselho a quem vai escolher um curso superior nos próximos dias: que seja sensato. Não escolha por impulso, diz Amândio Fonseca, administrador executivo do Grupo Egor. Não escolha só porque é uma área de que gosta — “pode dar muito prazer e nenhum emprego”. Ideal, ideal é juntar um pouco de razão e um pouco de coração.

Pelo sim, pelo não, evite áreas como ensino, engenharia civil ou psicologia, sugere Bruno Leonardo, manager da Wyser. “Áreas a investir: gestão, finanças, engenharia informática, mecânica, física, informática de gestão, matemática aplicada”, acrescenta.

“Investigue as tendências do mercado”, recomenda também Ana Teresa Penim, coach de talentos. “O mundo vai precisar cada vez mais de profissionais que proporcionem respostas não só nas áreas das tecnologias, robótica, telecomunicações, engenharia, ambiente, mar, mas também de tudo o que responde ao irreversível envelhecimento e longevidade da população.”

Lembre-se que “muitas profissões que existem hoje não existiam há dez anos”, afirma Miguel Pereira Lopes, coordenador da licenciatura em Gestão de Recursos Humanos do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), da Universidade de Lisboa, e que muitas das profissões que existirão daqui a poucos anos, também não existem ainda. Por isso, olhar para as taxas de desemprego dos actuais cursos, disponibilizadas pela Direcção-Geral do Ensino Superior (DGES), tem a sua utilidade, mas não tanta assim: fala-nos do passado, sublinha o professor, pouco diz sobre o futuro.

Bruno Leonardo defende, ainda assim, que, “apesar da volatilidade do mercado de trabalho, as tendências” que essas taxas revelam “não podem ser descuradas” (ver infografia com alguns dados retirados do site http://infocursos.mec.pt/, onde encontra muito mais informação).

Falámos com especialistas em gestão de recursos humanos, selecção de talentos, motivação de equipas, pessoas que gerem carreiras, que ajudam grandes empresas a recrutar quadros, que dão formação. Cada um deixa um conjunto de conselhos a quem agora tem de escolher —  no ano passado foram mais de 54 mil os candidatos, com uma média de idades de 19 anos.

1. Sabe mesmo o que é ser psicólogo?

Conselho n.º 1: “É importante conhecer bem o mercado de trabalho, saber o que são as profissões”, diz Nuno Troni, director de recrutamento especializado da Randstad Portugal. Há muitas pessoas que escolhem marketing, mas não fazem ideia o que se faz em marketing, tal como há quem escolha um curso de Psicologia sem nunca ter falado com um psicólogo. “Fale com profissionais, visite empresas, porque existem muito estereótipos e escolher com base em estereótipos é arriscado”, diz Miguel Lopes.

Este professor, que é também co-autor de um livro chamado Paixão e Talento no Trabalho (Edições Sílabo), recomenda ainda aos candidatos que estudem o plano de estudos dos cursos e que, idealmente, visitem as instituições de ensino que ponderam frequentar — não é a mesma coisa fazer um mesmo curso na instituição A ou na B, sublinha, até porque a cultura e a vivência das instituições são distintas.

2. O nome da universidade conta?

Nuno Troni, da Randstad Portugal, garante ainda que o nome da instituição de ensino que frequentar pode ser importante no rumo de uma carreira. “O nome tem um peso enorme para os empregadores.” Exemplifica: “Um curso de Gestão na Universidade Católica Portuguesa ou na Nova de Lisboa é muitíssimo apetecível para o mercado de trabalho.”

Já no que diz respeito às áreas que representam maiores e menores riscos, Paula Baptista, managing director da Hays em Portugal, analisa assim a situação: “Medicina continua, sem dúvida, destacada com forte empregabilidade em todas as suas áreas de formação; as novas tecnologias continuam a ser das áreas mais procuradas pelo mercado e uma das melhores apostas para conseguir emprego rapidamente; cursos como Engenharia Informática e Tecnologias de Informação são algumas das escolhas mais seguras e [os cursos de] gestão, sobretudo em universidades de maior prestígio, como a Universidade Nova, Universidade Católica, ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa e a Porto Business School, são tendencialmente bem recebidos pelo mercado.”

Amândio Fonseca acrescenta mais uma área que considera “uma boa porta de entrada no mercado de trabalho”: as matemáticas.

Já entre os cursos “tendencialmente com maior risco”, prossegue Paula Baptista, estão os de humanidades — “Seguindo a forte tendência dos últimos anos continuam a ter muitos alunos inscritos, mas cada vez menos oportunidades de emprego.”

3. Vale a pena escolher cursos “fora da caixa”?

Outra ideia para ponderar: “Não vamos escolher o que toda a gente escolhe”, diz Miguel Lopes, do ISCSP. “Quanto mais raro é o capital humano, mais valioso será. Escolher entre opções de formação menos convencionais, pode ser uma boa aposta. O estranho é melhor.”

Claro que convencer os pais disto pode não ser sempre fácil, admite, porque nesta fase “muitos pais são um pouco avessos a riscos”.

Há ainda outra dúvida que se pode colocar: cursos mais especializados ou menos? Os cursos de banda larga (mais generalistas), prossegue Miguel Lopes, permitem adquirir uma formação mais abrangente, com uma eventual maior capacidade de mudança. Mas “o mercado quer, cada vez mais, especialistas” e “no mercado global os especialistas estão em todo o lado”. Um generalista tem dificuldade em competir com eles.

Parece confuso? É. Se escolher um curso mais especializado arrisca mais, mas pode ter mais sucesso, resume Miguel Lopes. Se escolher um de banda larga, pode sempre especializar-se mais tarde, se for preciso, mas vai precisar de mais tempo.

Seja qual for o curso, “frequente-o desde o primeiro dia com uma atitude prospectiva de identificação de áreas inovadoras ou menos exploradas dentro desse âmbito científico, ou das derivações possíveis para outras áreas”, diz Ana Teresa Penim, autora de livros como A Arte da Guerra na Educação e Formação (Edição Top Books).

4. Gostar é mesmo importante?

“Conheça-se a si próprio! O que faz os seus olhos brilharem? Quais são os seus territórios de excelência? Aposte nos seus talentos e nas suas forças humanas. Quem faz o que gosta tem mais facilidade de ser excelente.” O conselho é ainda de Ana Teresa Penim.

No fim, tudo ponderado, “não escolha o curso apenas por achar que se trata de uma profissão que dá muito dinheiro”, sublinha. É que, como já aqui foi dito, o mundo está sempre a mudar e “que o que hoje é verdade, amanhã é mentira”. Mais vale apostar naquilo que acredita que é “o seu talento”.

“A vocação, o gosto, a paixão são relevantes, até por esta razão: para se formar um talento, para que sejamos superiores à média são precisos, em regra, cerca de 10 anos de trabalho”, diz Miguel Lopes. “Se não se trabalha em algo de que se gosta nunca se chega lá, ao ponto em que já se é muito bom, porque já se tem muita experiência, muita capacidade de inovar e de arriscar.”

O administrador do Grupo Egor, defensor da ideia de que, muitas vezes, a escolha de cursos baseia-se em “decisões afectivas, que não são decisões de futuro”, diz que o ideal mesmo é conciliar aquilo que se gosta com aquilo que resulta de um trabalho de natureza racional (o tal estudo do mercado, das necessidades e das profissões). É que já tem lidado com pessoas que aos 30, 40 anos percebem que não gostam nada da escolha profissional que fizeram “e, nessa altura, já pode ser difícil mudar” — desde logo, vão “ter de voltar atrás e competir com jovens que ganham um salário” que já não é o que estão habituadas a ganhar...

Deixa uma sugestão: investir num bom orientador vocacional, fazer testes e entrevistas até saber ao certo qual a vocação que se tem. Depois, há que conjugar tudo, incluindo os “interesses pessoais” e as “atitudes”.

5. E escolher o curso supostamente certo chega?

E não, não chega só tirar o curso supostamente certo. “Procure trabalhar ao mesmo tempo que estuda. É o que os estudantes fazem no estrangeiro, e todos podem fazê-lo também em Portugal. Arranje um part-time, seja no que for, ou um estágio, ainda que não remunerado. Trabalhar permitir-lhe-á conhecer a realidade e desenvolver competências fundamentais”, diz Ana Teresa Penim.

Bruno Leonardo, da Wyser, também sublinha a importância de “garantir experiência profissional ou outro tipo de experiências práticas (Erasmus, voluntariado) antes do término da licenciatura”. E enumera as razões: “Ter um conhecimento do mercado de trabalho, da sua exigência e da responsabilidade inerente; pôr em prática os conhecimentos teóricos garantidos na universidade; entender na prática do que se gosta de fazer e o que mais se adequa ao seu perfil, bem como, colocar de parte funções ou áreas que não sejam motivantes.”

Mais: para quem está a recrutar e tem 10 currículos em cima da mesa, logo numa primeira análise dos mesmos há factores que podem distinguir um candidato entre os restantes, sublinha ainda Bruno Leonardo, como ter a tal experiência profissional, ou de outro tipo, adquirida enquanto se frequentou a universidade. Ou até o facto de o candidato mencionar que “costumava ter trabalhos de Verão durante as férias”, nem que fosse a apanhar cerejas, acrescenta Amândio Fonseca.

Este tipo de vivências podem indiciar competências de relacionamento interpessoal, dinamismo, proactividade, sentido de responsabilidade, capacidade de organização, de trabalhar em equipa. São “as chamadas soft skills, que são cada vez mais valorizadas pelas empresas”, diz Amândio Fonseca.

As actividades de voluntariado, por exemplo, também “são óptimas para adquirir experiência e competências, permitem demonstrar capacidade de trabalhar em projectos e com pessoas, bem como generosidade, disponibilidade e disciplina”, sublinha, por seu lado, Paula Baptista, da Hays.

“Quanto mais tecnológico estiver o mundo mais importantes são as relações humanas”, afirma Ana Teresa Penim. “Desenvolva soft skills ou competências comportamentais seja qual for o curso escolhido. Comunicar, trabalhar em equipa, tomar decisões, ter iniciativa, ter capacidade de criar e de fazer acontecer é fundamental!”

6. Quanto vale viajar e fazer desporto?

Experiências como o envolvimento em organizações académicos ou estudantis bem como a prática de desporto quer seja individual ou colectiva são outros exemplos que promovem o desenvolvimento pessoal e profissional, diz Bruno Leonardo da Wyser.

Os desportos de equipa são nalguns meios particularmente valorizados pelos empregadores, afirma Nuno Troni, da Randstad — porque são verdadeiras escolas de trabalho em equipa.

Viajar também é bastante valorizado  — “Viajar e ter mundo é tão importante como estudar na universidade”, sublinha Ana Teresa Penim. Que acrescenta outra dica: “Lembre-se que um curso politécnico proporcionar-lhe-á competências práticas diferenciadoras de um curso na universidade. Não hesite em escolhê-lo! O mundo profissional valoriza essas competências.”

Enriqueça o leque de línguas estrangeiras que domina — é outra sugestão recorrente. O inglês, claro, o francês, o castelhano são fundamentais. Amândio Fonseca acrescenta mais uma: o alemão. Lembra que há muitas empresas alemãs em Portugal com dificuldade em encontrar pessoas que falem a língua.

7. E as notas com que se acaba, são importantes?

“As consultoras de topo, como a McKinsey, por exemplo, só recrutam pessoas que tenham mais do que uma determinada classificação final”, diz Nuno Troni. Mas tirando esses casos, há muitas outras coisas, como já se viu, que são valorizadas pelos empregadores.

O tempo que se leva a fazer o curso também não é indiferente. “Uma coisa é parar um ano, antes do 1.º ano da licenciatura, por exemplo, que se usa para fazer voluntariado. Isso é valorizado”, prossegue o director de recrutamento especializado da Randstad Portugal.

“Outra coisa é levar oito anos a fazer a licenciatura. Aí, a não ser que seja muitíssimo bem justificado, será um problema enorme”, mesmo se foi numa boa instituição de ensino.

8. E se no fim percebe que foi engano?

No fim da sua longa lista de conselhos e sugestões, Miguel Lopes acrescenta este: “Acho que também devíamos desdramatizar a escolha do curso.” Garante que “não é o fim do mundo quando se descobre que afinal não era bem aquilo”.

Desde logo, “as pessoas são capazes de moldar o trabalho que fazem em função dos seus gostos e interesses”. Ele próprio, quando se candidatou ao ensino superior escolheu o curso de Psicologia, mas também gostava de Economia. Decidiu a certa altura seguir Psicologia das Organizações e hoje coordena uma licenciatura de Gestão de Recursos Humanos. Como se a área da economia o chamasse.

“Há momentos e escolhas que fazemos que podem modelar de forma significativa o resto das nossas vidas. Escolher um curso superior pode ser um deles! No entanto, a vida profissional dos jovens que agora entram no ensino superior vai ser marcada por uma dinâmica de mudança permanente”, diz Ana Penim. “Mudança de emprego, de funções, de país e até de área de actividade profissional. Isso é, e deve ser encarado como positivo e natural. Por esse motivo, a escolha do curso é importante, mas já não determina uma mesma área de actividade ao longo de toda a vida.”

O prazo para a apresentação das candidaturas ao concurso nacional de acesso às universidades e politécnicos públicos começa na quinta-feira e vai até 10 de Agosto — pelo menos são essas as datas “provisórias”, definidas pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (ao longo da semana passado quem consultou o calendário no site da DGES viu a data de arranque mudar de 20 de Julho para 25 e, numa última versão, para 21). Até ao fecho desta edição, o Executivo não confirmou se de facto se mantém 21, mas garante que será durante esta semana.

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