Morreu Murray Gell-Mann, o físico que deu o nome ao quark

Cientista norte-americano que recebeu um Prémio Nobel em 1969 pelo seu trabalho na teoria das partículas elementares morreu aos 89 anos, na sua casa.

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Minesh Bacrania/Instituto de Santa Fé

Murray Gell-Mann foi desencantar o nome quark, segundo dizem, a uma frase do último (e talvez o mais complexo) livro de James Joyce Finnegans Wake. Mas o importante nesta história é o facto de o físico norte-americano ter escolhido a palavra “quark” para nomear as minúsculas partículas elementares que integram toda a matéria. Pela teoria que o levou até ao quark e que marcou o campo da física, Murray Gell-Mann recebeu o Prémio Nobel da Física de 1969. Na sexta-feira, morreu com 89 anos na sua casa, em Santa Fé, Novo México, nos EUA.

A notícia da sua morte foi confirmada este domingo pelo Instituto Santa Fé e todos os obituários já publicados lembram que Murray Gell-Mann “trouxe ordem ao Universo”. De uma forma muito genérica, dedicava-se a estudar a simplicidade, complexidade, regularidade e aleatoriedade. Foi assim que ajudou a descobrir e classificar partículas elementares que hoje conhecemos por quarks.

Toda a matéria é feita de quarks e são eles que formam os protões, neutrões e outras partículas. As experiências realizadas após a proposta do cientista confirmaram a existência destes componentes indivisíveis da matéria e, hoje, os quarks são uma base importante para compreender a física do Universo. Muitas das mais conhecidas e mediáticas confirmações dos pressupostos de Murray Gell-Mann aconteceram nos grandes aceleradores de partículas do CERN, em Genebra, na Suíça.

Actualmente, estão identificados seis tipos de quarks. Os quarks up e down, os mais leves, que se encontram no núcleo dos átomos da matéria vulgar, sendo assim os constituintes dos neutrões e protões. Há ainda os quarks charmstrange, bottom e top, que existiram no início do Universo e hoje são criados nos aceleradores de partículas e nas colisões dos raios cósmicos com os átomos presentes na atmosfera terrestre. 

O físico norte-americano inventou também um método para organizar as partículas elementares em oito grupos simples. Tal como a tabela periódica apresenta um quadro organizado dos elementos químicos. Na base da sua teoria e para distinguir as partículas que compõem toda a matéria, Murray Gell-Mann serviu-se da carga eléctrica, spin e outras características diferenciadoras. Porque eram oito os grupos, o sistema foi chamado “caminho óctuplo” ou “de oito caminhos”.

Murray Gell-Mann é considerado um dos físicos mais importantes do século XX. “Seria difícil sobrevalorizar a medida em que Murray dominou a física teórica de partículas durante o seu auge nos anos 50 e 60. Contribuiu com tantas ideias profundas que impulsionaram o campo, muitas das quais são tão relevantes hoje como eram na altura”, disse John Preskill, professor de física teórica no Instituto de Tecnologia da Califórnia, citado pela agência Associated Press.

Palavra de cientista

O físico norte-americano nasceu em Nova Iorque em 1929 e licenciou-se em física em 1948, na Universidade de Yale, completando o doutoramento no Instituto de Tecnologia do Massachusetts, em 1951. Mas a física não foi o seu único foco de interesse na vida. Os vários relatos sublinham que a formação académica de Murray Gell-Mann terá sido muito influenciada pelo pai e que desde cedo revelou um especial interesse por linguística. Filho de uma família judaica de imigrantes, é muitas vezes referido como uma criança prodígio por ter aprendido a ler com apenas três anos de idade. Gostava de arqueologia, arte e línguas, desde o latim ao francês e castelhano. Em 1994, já com uma longa e vitoriosa carreira no campo da física, não terá resistido à tentação das letras e escreveu o livro O Quark e o Jaguar para apresentar a sua teoria a leigos, com palavras e conceitos simples.

Já dissemos que foi inspirado num romance de James Joyce que Murray Gell-Mann deu o nome ao (hoje célebre) quark. O texto referia a dada altura “três quarks para Muster Mark!” continuando para uma rima com a palavra “bark” (latido), reforçando-se o mesmo som. O físico norte-americano agarrou-se à palavra que pode ter vários significados, entre os quais um tipo de queijo, e ao facto de a afirmação incluir o número “três" que, justificou, encaixava perfeitamente na forma como os quarks estão na natureza. A palavra escolhida – por causa do som, não do seu significado – foi mais importante do que parece. Isto porque houve outros investigadores que reclamaram ter chegado à mesma proposta da existência de partículas elementares.

O físico George Zweig apresentou o mesmo conceito na mesma altura (em 1964) e de forma independente de Murray Gell-Mann, mas chamou-lhes “ases”. O nome não vingou, está claro. O investigador israelita Yuval Ne’eman também garantiu que fez a descoberta antes de Murray Gell-Mann, mas sem dar qualquer nome às elementares partículas, apresentando artigos publicados em datas anteriores ao enunciado do cientista norte-americano. Foi Murray Gell-Mann quem nomeou os quarks. O segredo do sucesso do físico norte-americano que tanto gostava de linguística terá passado também por ter encontrado a palavra certa?