Trabalhadores da CP apelam ao Governo: “Não podemos esperar por um acidente”

Numa carta dirigida ao ministro Pedro Nuno Santos, a comissão de trabalhadores da CP reforça a necessidade de mais trabalhadores para evitar “um acidente de consequências trágicas”. E pede a reintegração da EMEF na CP.

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CP não tem recursos para evitar uma nova crise ferroviária no Verão Nelson Garrido

O alerta é feito com um algum dramatismo, numa carta endereçada ao ministro das Infraestruturas e Habitação, Pedro Nuno Santos, datada de 15 de Maio mas divulgada esta quarta-feira, 22 de Maio, dia em que o PÚBLICO noticiou um outro alerta, da Infraestruturas de Portugal, num relatório acerca de um acidente ferroviário de 2017. Ambos coincidem no diagnóstico - há falta de recursos - e na preocupação sobre a segurança da rede ferroviária.

“Não podemos esperar, sr. ministro, por um acidente com consequências trágicas. Nem o senhor, nem nós, nem os ferroviários”. Esta frase é enquadrada, na carta aberta, pelo “apelo público” da comissão de trabalhadores, “atendendo à crescente degradação do serviço ferroviário que prestamos”. E continua: “o diagnóstico está há muito feito: são necessários mais trabalhadores, são necessárias mais peças e equipamentos nos armazéns da EMEF [Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário]”. 

Feito o apelo e o diagnóstico, a comissão de trabalhadores da CP avança com uma solução: “é necessária a reintegração imediata da EMEF na CP e, na sequência desta última, é igualmente urgente a reconstrução da direcção de engenharia da CP. As pessoas e o conhecimento ainda estão cá, como está a vontade de fazer bem, de estar à altura das justas expectativas dos nossos passageiros”. 

“Só a reintregração da EMEF na CP (...) poderá garantir à CP a disponibilidade, fiabilidade e segurança do seu material circulante e com isto assegurar o cumprimentos do serviço público ferroviário”, reforçam os trabalhadores da empresa ferroviária, acrescentando que “esta solução representaria ainda um enorme ganho económico, mesmo atendendo aos ajustamentos salariais decorrentes desta integração”. Isto porque, denunciam, “o crescente lucro da EMEF não se faz só à conta do prejuízo da CP. Muito mais grave do que isso, faz-se à conta da crescente indisponibilidade do material circulante da CP, da degradação das condições de segurança e da qualidade do serviço”. 

Em termos consolidados, o grupo CP registou prejuízos de 106,3 milhões de euros, no ano passado, uma melhoria de 4% em relação a 2017. O grupo, que inclui sociedades como a EMEF e Fernave, registou vendas e prestações de serviços de 298 milhões de euros, mais 4% do que em 2017. A EMEF, por sua vez, conseguiu obter resultados líquidos positivos de 6,4 milhões de euros, um aumento de 7,5% em relação a 2017, enquanto o volume de negócios caiu 4%, para 69,2 milhões de euros.

No último fim-de-semana, o Governo interveio para suspender uma greve convocada pelo Sindicato Ferroviário da Revisão e Comercial Itinerante (SFRCI) tendo assumido o compromisso de reforçar os recursos humanos da CP. Nessa ocasião, os ministérios das Finanças e das Infraestruturas e da Habitação afirmaram que o Governo reconhece “a importância da ferrovia enquanto instrumento imprescindível de mobilidade” e está “a analisar e desenvolver um conjunto de medidas com vista a corresponder às necessidades – operacionais e de recursos humanos – do transporte ferroviário da CP”.

No final de Abril, Pedro Nuno Santos havia sublinhado, durante uma audição parlamentar na Comissão de Economia, Inovação e Obras Públicas, que a CP precisa de “fazer escolhas” para atingir o objectivo de ser “uma empresa honesta, que não prometa aos portugueses que usam a ferrovia o que não consegue cumprir”. Diariamente, “temos supressões que não conseguimos evitar. A CP tem que garantir [que é] uma empresa honesta, pontual, que cumpra os seus horários”, acrescentou. com Lusa