A Eurovisão arranca agora e Conan Osiris quer estar “o mais perfeito” possível

A primeira semifinal da edição 2019 do concurso está marcada para as 20h desta terça-feira, em Telavive. O concorrente português admite fazer um “comentário visual” ao conflito israelo-palestiniano. A Eurovisão, acrescenta o subdirector da RTP, Gonçalo Madaíl, sempre foi “território libertário”.

Após meses de polémicas e de apostas, de apelos a boicotes e contra-boicotes, o Festival Eurovisão da Canção 2019 arranca finalmente esta terça-feira. A partir das 20h, a RTP1 transmite em directo da Expo Tel Aviv, em Telavive, Israel, a primeira semifinal do Festival Eurovisão da Canção 2019 – aquela em que Conan Osiris, o representante português, vai defender Telemóveis, frente aos representantes de 16 outros países: Chipre, Montenegro, Finlândia, Polónia, Eslovénia, República Checa, Hungria, Bielorrússia, Sérvia, Bélgica, Geórgia, Austrália, Islândia, Estónia, Grécia e São Marino. Às 22h22 já se saberá se Portugal passa à final, que se disputa no sábado.

Na semana passada, Conan Osiris gerou algumas notícias pela honestidade com que confessou na conferência de imprensa após o segundo ensaio geral em Israel​, frustrado, que este tinha sido “uma merda”. Já esta segunda-feira, numa breve conversa entre dois ensaios, disse por telefone ao PÚBLICO que tudo se estava a compor: “Já estão a acertar com as câmaras e as luzes, não está perfeito, mas está muito melhor.” Quanto à actuação desta terça-feira, não faz grandes prognósticos: “Não sei, o mais perfeito que sair, tranquilo, melhor para mim, fico mais descansado. Há bué coisas que estão fora do meu controlo, aprendi a deixar ir. No segundo ensaio estava possuído.”


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A indumentária verde que irá usar na actuação foi alvo de algumas críticas nas redes sociais. “O pessoal não curtiu muito”, diz. “Fiquei muito a pensar ‘Deixa-me curtir na minha’, mas agora acho que já melhorei um bocadinho o look, abri um bocado e ganhei espaço. Percebi o que estavam a dizer de eu parecer que tinha tido um acidente de viação”, confessa. 

Também ao PÚBLICO, Gonçalo Madail, o subdirector da RTP1 que foi um dos arquitectos da renovação do Festival da Canção e que no ano passado assumiu a direcção criativa da Eurovisão em Lisboa, salientou que a comitiva portuguesa sempre deu ao músico liberdade para fazer o que queria. Também sublinha as tiradas do músico, que, quando mostrou a vestimenta do postal de apresentação, terá comentado: “Aqui está uma anémona no Mar Morto em cosplay de David Bowie”. Sobre o que realmente vai vestir esta terça-feira, o artista diz apenas: “Já dei tantas descrições que estou sem palheta.”

Ir ou não ir

Apesar dos repetidos apelos ao boicote a esta edição realizada no problemático território israelita, só dois países desistiram da participação, a Bulgária e a Ucrânia, e ambos por motivos não relacionados com o conflito israelo-palestiniano. Gonçalo Madaíl não se escusa ao tema: “Não vale a pena escamotear que toda a gente acaba por produzir opinião sobre aquilo que está a acontecer. É um conflito armado e histórico, depende do nível de informação que se tem. Ainda por cima é complexo e é difícil de apurar ali a ideia de inocentes e culpados, embora haja o atropelo evidente de direitos humanos”, comenta.

Sobre a posição da RTP, considera que “do ponto de vista institucional é muito mais inteligente fazer-se o que se está a fazer e tirar as devidas ilações”, até porque a Eurovisão tem “grande exposição mediática” e, ao longo dos anos, “foi terreno libertário e expansionista do ponto de vista das mentalidades, dos costumes e dos conflitos”. A RTP tem ainda “responsabilidade extra”, já que, após a final de 2019 em Lisboa, passa “a bola à televisão pública israelita” como estação anfitriã do concurso.

Na edição do ano passado, aliás, recorda o responsável, participaram “países que estavam em conflitos abertos e declarados, casos da Arménia e do Azerbaijão, da Rússia e da Ucrânia”: “Tomámos a perspectiva de que aqui cabe toda a gente, postura fundida com a que o país tem tido enquanto Estado.” Não ir a Israel, considera, seria “incoerente”, porque, “como todos os países”, Portugal esteve na Rússia em 2009 “e ninguém questionou”.

Um comentário “visual"

Dada a “mediatização do conflito” israelo-palestiniano, a edição deste ano terá “uma enorme carga mediática”, o que, na opinião de Gonçalo Madaíl, pode permitir alguns statements: “Os artistas estão expostos, provavelmente terão liberdade para dizer meia dúzia de coisas, para tomarem determinadas posições.” Mesmo que a organização peça – mas não imponha, “embora seja quase uma espécie de regra” – para os concorrentes não falarem “em nada para lá da música”. “Os artistas têm também de ter a sua inteligência de gestão, perceber que há uma ética interna da Eurovisão, mas as artes e o mundo social e o mundo em geral estão inevitavelmente ligados”, argumenta. No palco, há sanções para gestos políticos. Mesmo assim, “o polícia afina o ladrão, e ao longo dos anos tivemos uma série de letras encapotadas e demonstrações várias”, comenta o responsável da RTP.

No caso de Conan Osiris, que explicou ao PÚBLICO que o seu comentário a estas questões será “visual”, Gonçalo Madail acha que a letra de Telemóveis não deixa de ser um reflexo dos tempos que vivemos”. “Não vou dizer que é uma crítica, ele é que sabe, mas pelo menos é uma análise. Não quero falar por ele, mas posso dizer que é um rapaz muito atento”, resume. “Concordo com essa conclusão, sempre foi tudo bastante explícito”, remata Conan Osiris.

Pode ouvir o podcast P24 sobre a participação de Conan Osíris no Festival Eurovisão da Canção aqui: