Conan Osiris divide e reina. E agora, o que vai acontecer?

Sagrou-se vencedor da 53.ª do Festival da Canção com Telemóveis. Vai à Eurovisão em Maio defender Portugal mas ainda não está a aproveitar a sua própria festa.

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Conan Osiris no momento final do festival da canção em que todos os colegas dançaram e acabaram no chão Pedro Pina

“Não quero parecer que não estou contente”, começa por dizer Tiago Miranda, ou Conan Osiris, ao telefone com o PÚBLICO menos de 24 horas depois de se ter sagrado vencedor da 53.ª edição do Festival do Canção. O compositor e intérprete de Telemóveis acha que isso acontece porque o seu cérebro não "cresceu a ter [de lidar com] este tipo de coisas gloriosas" ou "celebrações" deste género. "O cérebro está a tentar achar que é uma coisa normal", continua.

Telemóveis é a primeira canção que gravou desde que Adoro Bolos, o seu terceiro álbum, foi lançado no penúltimo dia de 2017. A participação no festival fez com que Portugal lhe prestasse cada vez mais atenção, a ele, que mal tinha dado um concerto ou pegado num microfone. E é esta canção que o levará, a 14 de Maio, à primeira semifinal do Festival Eurovisão da Canção, que este ano decorre em Telavive, Israel.

"Toda a gente ao meu redor está a dizer que isto é bué bom e a dar parabéns. Sinto-me como numa festa de anos, em que estás a tentar fazer uma festa para os teus convidados e estás stressado a pensar que tens de fazer com que toda a gente se sinta bem e depois não aproveitas a tua própria festa", resume. Conan Osiris tem tendência a ficar contente passado algum tempo, quando percebe que tudo correu bem, diz.

Na noite de sábado, quando venceu, tinha, de um lado, "pessoas a dizer que tinha mais pontos do que o Salvador Sobral" teve quando se apurou em 2017, antes de vencer a Eurovisão. Do outro, "montes de pessoas a fazer boo" – apupos é algo a que não estava habituado e ainda não tinha acontecido nos seus concertos. Ele estava algures no meio dos que gostam e não gostam, "a não sentir nada", com um "OK" a surgir-lhe na cabeça: "OK, o que é que vai acontecer? Os meus colegas, nunca mais os vou ver, o que é que se passa?" Nem sequer tinha percebido, porque ninguém o tinha avisado disso e não é um seguidor do Festival, de que iria ter de interpretar a canção no final do espectáculo.

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Pedro Pina

Nem sequer esperava ganhar, afirma Conan Osiris, apesar do destaque. Começou a ouvir gritos, foi chamado por Inês Lopes Gonçalves, que estava a entrevistar os concorrentes no green room do festival, percebeu que era para atravessar até ao palco, subiu a escada, no corredor encontrou os outros concorrentes e chamou-os para irem com ele para o palco. "Nem que fosse para estarem parados", diz, mas surpreenderam-no ao começarem todos a dançar – e acabarem no chão, algo que não foi combinado.

No meio da confusão, Matay, o intérprete de Perfeito, abraçou Conan, e sem perceber bateu com o cotovelo na cara de Sreya, para quem o vencedor do Festival produziu e co-escreveu o álbum Emocional, em 2017, e estava lá para o acompanhar – está tudo bem com ela. "Quase a única coisa de que consegui desfrutar na noite, quando chegámos a casa, foi estar a ver esse vídeo em repeat." Aliás, depois de chegar ao hotel, esteve muito tempo a falar com Matay, com quem havia uma clara empatia. Tal empatia, explica, talvez se deva a serem oriundos de localidades perto uma da outra e porque já têm ambos "uma vida para além disto" e conseguem "ver além da máquina" do festival. "Se ele ganhasse eu sentia-me representado", conta – e acrescenta que também sentiu afinidade com todos os outros concorrentes.

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Matay e Conan Osiris no Green Room Pedro Pina

"É uma mistura de tudo, há as pessoas que gostam e as pessoas que não gostam, no mesmo peso. É muito polarizado e não queria que o fosse, mas acabou por ser. Já me tinham dito que estava muito à frente mas eu continuo a não ver os comentários nem nada disso", confessa. De vez quando alguém partilha com ele "alguma coisa mais engraçada", como um meme que acham divertido, mas no que toca a "sondagens e cenas", diz, "esquece".

"Olha, agora nem sei", afirma. Tinha compromissos anteriores, fora do festival. "É um bocado o problema, não posso fechar-me em casa até Maio. Se não tivesse ganho ontem, podia concentrar-me nas minhas coisas", prossegue. Confessa sentir alguma "ressaca de coisas novas", como um sucessor de Adoro Bolos. Ainda não veio porque é ele que faz a sua música toda. "As pessoas pensam que estou aqui e está alguém em casa, na cave que não tenho, a fazer um álbum para mim, mas isso não acontece. Se eu não estiver em casa fechado, não vai sair".

O apelo ao boicote

Este domingo, três organizações, o Comité de Solidariedade com a Palestina, o SOS Racismo e as Panteras Rosas, enviaram uma carta ao vencedor a apelar ao boicote e a pedir-lhe que não vá cantar a Telavive em representação de Portugal. Segundo a carta, "a escassos minutos de onde terá lugar o Festival, Israel mantém um cerco ilegal a 1,8 milhões de palestinianos em Gaza, negando-lhes os direitos mais básicos" e "também a escassos minutos de Telavive, 2,7 milhões de palestinianos da Cisjordânia vivem aprisionados por um muro de apartheid ilegal".

"Ainda não vi", responde ao PÚBLICO na tarde de domingo. "Não passaram sequer 24 horas, têm de se lembrar que sou uma pessoa. Ainda não abri o email ou o correio, ainda nem sequer almocei, não comi nada hoje. Não tive oportunidade de estudar a situação, estou aberto a ouvir as perspectivas de pessoas que sabem mais do que eu", conclui. Ainda está a aprender, aos poucos, a lidar com isto tudo que lhe aconteceu.