Editorial

O país normal que nasceu há 45 anos

Se há algo que devemos ao 25 de Abril é um rumo e um modelo para uma ideia de país. Corrijamos o rumo e sejamos mais exigentes com o modelo.

Quarenta e cinco anos depois desse “dia inicial inteiro e limpo” de Abril, onde está hoje Portugal? No meio da crescente radicalização verbal que contaminou o debate público, não faltarão visões catastróficas de um país que sucumbiu aos horrores da corrupção, do nepotismo e do vazio ético.

Não faltarão também optimistas a sublinhar a têmpera de um povo que resistiu com coragem à crueldade de um resgate financeiro e foi capaz de recuperar o seu destino sem tormentas sociais incomportáveis nem rupturas indeléveis no seu sistema político. Quarenta e cinco anos depois, há verdades a notar nos dois extremos da percepção que os portugueses têm de si e do país.

O que quer dizer que somos hoje um país com grandes problemas, com enormes desafios, com um caminho que não nos envergonha e também com um extraordinário potencial. Somos, portanto, um país normal e essa é a primeira grande dádiva a reconhecer à democracia nascida nesse luminoso dia de Abril.

Como ponto de partida dessa constatação convém desmistificar essas ideias idílicas da História que convocam passados apolíneos, sem crises, nem dramas, que nunca existiram em lado nenhum. O passado é sempre tormentoso e Portugal tem o seu pecúlio a apresentar – o radicalismo do Verão Quente, as nacionalizações, a instabilidade política, três ameaças de bancarrota, um governo eticamente desastroso, a destruição vergonhosa de riqueza nacional por gente que se julgava acima de todos, o rentismo ocioso, o desordenamento, a desigualdade social, o abandono do nosso mundo rural, para citar algumas dessas tormentas. Mas no meio das sombras fez-se muitas vezes luz.

A nossa democracia é sólida e evoluiu para oferecer novas soluções de estabilidade política. Até ver, continuamos imunes aos fenómenos do populismo ou autoritarismo. As empresas mostraram uma enorme capacidade de resistência nos anos duros. Temos a sociedade mais qualificada de sempre. E, aos olhos de muitos, somos um modelo de paz e tranquilidade.

Hoje, 45 anos depois, muitos sonhos foram desfeitos, mas outros foram sendo construídos. Não vivemos no paraíso, mas comemorar Abril sob a égide do ressentimento e do pessimismo trágico é uma forma subtil de o esvaziar e negar. Acabado o ciclo da troika (é o que sinaliza o Programa de Estabilidade debatido no Parlamento), Abril instiga a descoberta de novos horizontes.

Que deverão ser procurados no realismo do país imperfeito que temos e não nos delírios populistas baseados na falsa percepção de uma catástrofe que não existe. Se há algo que devemos ao 25 de Abril é um rumo e um modelo para uma ideia de país. Corrijamos o rumo e sejamos mais exigentes com o modelo. Só assim conservaremos o sentido da ideia.