"Geringonça" foi muito exigente, mas Jerónimo admite repeti-la depois das contas eleitorais

Líder do PCP explica que a contestação actual é de reivindicação e a contra Passos Coelho era de "resistência". E acusa a "direita económica" de orquestrar campanha contra o partido por a ter tirado do poder.

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Jerónimo de Spusa, secretário-geral do PCP LUSA/TIAGO PETINGA

Não usou um único ditado durante mais de meia hora - o que é raro em Jerónimo de Sousa - mas preferiu a máxima "cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém" para não escancarar a porta sobre o que o PCP tenciona fazer depois de dia 6 de Outubro. Questionado sobre se esta solução da "geringonça" é possível na próxima legislatura, o secretário-geral comunista diz que as contas "têm que ser feitas depois das eleições" para eleger os deputados".

Só nessa altura se poderão ter "desenvolvimentos institucionais que procurem soluções", afirmou Jerónimo de Sousa nesta segunda-feira de manhã em entrevista à Antena 1, aproveitando para vincar que "dar mais deputados ao PCP criará melhores condições" para que o partido possa obrigar o PS a "avanços" nos rendimentos e direitos que os socialistas não farão se tiverem maioria absoluta. Respostas que indicam alguma evolução desde há cerca de dois anos, quando o líder do PCP chegou a afirmar que seria impossível uma "repetição" desta solução.

Jerónimo de Sousa considera que estes quatro anos "foram exigentes, foram muito exigentes" para o PCP e admite que houve "dois ou três momentos difíceis". Logo nas negociações da posição política conjunta que assinaram em Novembro de 2015, "o PS fez tudo para que o PCP aceitasse o princípio de garantir a aprovação dos orçamentos. A nossa diferença era que nós estávamos dispostos ao exame comum da proposta e em resultado do exame e desenvolvimentos agiríamos em conformidade."

Nos textos dos acordos assinados entre o PS e os partidos à sua esquerda ficou definido que iniciativas fundamentais como as moções de censura e os orçamentos do Estado seriam alvo de discussão.

O líder comunista auto-elogia a capacidade de compromisso do partido para manter o equilíbrio na relação com o PS nestes três anos e meio. Escusando-se a usar o termo "lealdade" do PCP para com o Governo como a chave para o sucesso da "geringonça", Jerónimo prefere demarcar-se: "A nossa posição de princípio é que o nosso compromisso principal é com os trabalhadores e o povo e não com o PS."

"Apesar das muitas resistências [do PS e do Governo], a forma como fundamentávamos as nossas propostas, a nossa persistência e a nossa determinação, levou o PS a muitas medidas que não estavam no seu programa. A nossa persistência, a nossa determinação, mas também a nossa franqueza e seriedade." Recusa que o PCP tenha tido linhas vermelhas na sua relação com o PS e o Governo, e diz que a batalha mais difícil foi a dos aumentos extraordinários das pensões e reformas.

Questionado acerca do grande aumento das greves e protestos nesta recta final do Governo de António Costa e sobre se isso significa que é menos desculpável que um executivo socialista tenha políticas menos favoráveis aos trabalhadores, Jerónimo de Sousa afirmou que os "movimentos de luta dos trabalhadores e populações" contra Passos Coelho eram de "resistência", ao passo que agora são de "reivindicação". Porque o actual Governo, depois de três anos e meio, continua por resolver problemas na administração pública, por exemplo, com os professores, enfermeiros, forças de segurança ou justiça.

O dirigente comunista rejeita a ideia de não haver dinheiro e vinca que, por exemplo, os professores "não querem tudo de uma vez" e têm abertura para que a contabilização do tempo de serviço congelado seja recuperado num período de vários anos. "Agora... ninguém acredita que os professores vejam um terço da sua carreira profissional esfumar-se por decreto e não façam nada..."

Sobre a polémica greve dos enfermeiros, Jerónimo prefere fugir ao assunto. Concorda que o protesto se tornou pouco simpático para a opinião pública por causa do seu "prolongamento" e quando questionado sobre se se identifica com a greve daquele sector, olha para a sua experiência para colocar em cima da mesa a questão do financiamento. "Eu fiz muitas vezes greve e havia um momento importante nessa decisão: eu sabia que não teria salário, fazia essa opção para lutar por direitos."

Não é que garantir o rendimento a quem faz greve seja condenável. Até porque, lembra, "antes do 25 de Abril, muitos grevistas tinham a solidariedade dos outros trabalhadores, mas de forma clara, inequívoca, de solidariedade de classe, aqui verificou-se um financiamento..." Que Jerónimo de Sousa não quer classificar como "suspeito" por não pretender "fazer juízos de valor e quem acusa tem que provar", justifica-se. Para logo a seguir disparar um pouco mais para o lado: "O que para mim é claro é que quem estava a ganhar com esse processo eram os grupos económicos da saúde. Porque se houve reduções de cirurgias e elas tinham que ser feitas, eram feitas no privado".

Acerca da situação na Venezuela, em que o PCP tem ficado sozinho na Assembleia da República a defender o Presidente Nicolás Maduro, Jerónimo de Sousa não desarma nas críticas à ingerência do "sr. Trump", e critica quem "faz o cerco e os bloqueios que impediram que chegassem medicamentos e ajuda alimentar e depois vem com cara de anjo bater no peito a dizer que quer ajudar o povo venezuelano". A explicação de fundo para o que se passa na Venezuela é o controlo pelo que está no seu subsolo - "petróleo para 500 anos e o maior filão de ouro do mundo".

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