,Leda e o cisne

Pompeia: uma história reescrita entre o esgoto e Leda e o Cisne

Quando um grão de pimenta encontrado num cano de esgoto e uma inscrição a carvão na parede de uma casa podem mudar uma narrativa já consagrada nos livros de História… Regresso a Pompeia, agora também a cores, mais ou menos luxuriantes. Uma cidade de comerciantes e burgueses sepultada há quase 2000 anos.

Algumas imagens fantásticas correram mundo no último ano e voltaram a trazer Pompeia para a agenda mediática: a representação do mito grego Leda e o Cisne e a posterior revelação de outra cena mitológica, Narciso admirando-se no espelho das águas, nas paredes da Casa de Júpiter; os moldes (“ocos”, na linguagem da arqueologia) de três cavalos, a recordar que também os animais foram abatidos pela lava e pela chuva de fogo (piroclastos) expelida pelo vulcão Vesúvio; o instantâneo do esqueleto de um homem derrubado por um bloco de pedra, o mesmo a quem já chamam “o último fugitivo de Pompeia”...

A estes quadros que nos fizeram recordar a tragédia vivida pelos habitantes desta e de outras localidades a sul de Nápoles nesse fatídico ano 79 da era cristã, acrescentou-se a descoberta, no passado mês de Outubro, de uma inscrição a carvão na parede de outra casa que levou os arqueólogos e historiadores a alterarem a data até agora fixada para o início da erupção, 24 de Agosto, para, pelo menos, dois meses mais tarde, final de Outubro ou Novembro.

Pompeia está outra vez na ordem do dia, e passados anos de inércia e de aproveitamento apenas turístico do quadro pungente dos ocos/esculturas que, como não acontece em nenhum outro sítio no mundo, aproximam os visitantes do sofrimento vivido pelos habitantes apanhados pelo vulcão, a estação arqueológica italiana volta a ser também um campo privilegiado para a investigação e a reconstituição do modo de viver dos romanos no século I.

PÚBLICO -
Foto
Trabalho na parede onde foi descoberta uma representação do mito grego Leda e o Cisne CESARE ABBATE/EPA

“A poesia [de Pompeia] está nos detalhes”, disse a dada altura Massimo Osanna, director, até ao início de Janeiro último, do Parque Arqueológico de Pompeia (PAP), referindo-se à sucessão de descobertas e revelações que o programa finalmente lançado pelo Governo italiano, com ajuda da União Europeia, vinha propiciando. E o “detalhe” pode ser um novo fresco decorativo de cor ocre e azul, um mosaico ou uma ânfora a revelar o modo de vida ou a classe social dos habitantes de uma villa, ou uma inscrição de propaganda eleitoral; mas também pode ser o ADN que permitiu determinar que dois corpos encaixados um no outro afinal não pertenciam, como se acreditava, a duas meninas, mas a dois rapazes; ou a constatação de que as sementes e os frutos encontrados em canos de esgoto ou no lixo das cozinhas correspondiam a colheitas do Outono e não do Verão, o que coincide com a nova leitura cronológica da erupção.

Novas tecnologias entram em campo

“Pela primeira vez em muitos anos, retomámos a escavação em grande escala em Pompeia, mas o mais importante é que estamos a poder usar novas tecnologias colocadas à disposição da arqueologia (incluindo drones, geo-radares, endoscópios e scanners a laser), com o apoio de uma equipa multidisciplinar”, explica Massimo Osanna, respondendo ao P2 via email.

Cumpre esclarecer que Massimo Osanna, arqueólogo, historiador e professor, dirigiu a vasta equipa do PAP entre Março de 2014 e o início do corrente ano, quando chegou ao fim o seu mandato à frente de um ambicioso plano de intervenção lançado em 2012, orçado em 105 milhões de euros e com a comparticipação da União Europeia.

Em 2010, o aluimento da icónica Casa dos Gladiadores, derrubada pelas caudalosas chuvadas de Novembro, levara ao levantamento de um movimento internacional de indignação perante o esquecimento a que o terceiro Governo de Silvio Berlusconi estava a votar o património do país. “Pompeia é nossa!”, gritava-se de vários lados, de tal modo que a própria UNESCO, três anos mais tarde, ameaçou colocar o sítio classificado como Património da Humanidade em 1997 na na lista dos bens em risco.

PÚBLICO -
Foto
Pompeia recebe cerca de 2,5 milhões de visitantes por ano Alessandro Bianchi/Reuters

“Pompeia é um símbolo para o nosso país. A reprimenda da UNESCO é um alarme que levo muito a sério, e já estamos a trabalhar nos problemas urgentes do sítio”, disse, em Julho de 2013, Massimo Bray, ministro italiano da Cultura do breve Governo de Enrico Letta.

No ano seguinte, avançava finalmente um programa inicialmente delineado para cinco anos com o objectivo de atalhar, primeiro que tudo, “à recuperação da estação arqueológica, com a estabilização e o restauro dos seus edifícios, e que foi seguido de novas operações de escavação”, recorda Osanna.

Nasceu, assim, o Grande Plano de Pompeia (GPP), que o então director classificou, em declarações à comunicação social, como “uma grande revolução, que veio dar uma nova vida à cidade”.

“O GPP foi uma intervenção ‘extraordinária’, e essencial para deter a degradação que ameaçava o local há muito tempo”, acrescenta agora Osanna ao P2, acreditando que a área arqueológica ficará “totalmente estabilizada” até ao final do corrente ano com o fim da intervenção nas zonas (regiones, na designação oficial local) 1, 2 e 3, das nove em que a cidade foi subdividida.

PÚBLICO -
Foto
O antigo director do parque de Pompeia, Massimo Osanna (à esquerda), mostra a Casa com Jardim (recentemente descoberta na Região V) ao ministro da Cultura italiano, Alberto Bonisoli (ao centro), e ao presidente do Pompeii Great Project, Mauro Cipolletta Carlo Hermann/KONTROLAB/KONTROLAB /LightRocket via Getty Images

Simultaneamente foram iniciadas escavações e investigações numa área de mil metros quadrados na zona 5 (conhecida como a “Cunha”), onde ocorreram as fantásticas descobertas dos últimos meses. No total, a intervenção actualmente em curso desenvolve-se numa extensão de três quilómetros e faz com que se atinjam dois terços dos 66 hectares que formam a estação arqueológica de Pompeia — o que significa que restam ainda 22 hectares para escavar e… descobrir.

O Parque Arqueológico de Pompeia é actualmente dirigido, em regime interino, por Alfonsina Russo, arqueóloga também responsável pelo Coliseu de Roma, enquanto decorre o concurso internacional para a escolha do novo responsável pelo campo — cargo ao qual Osanna voltou a concorrer. Por altura da tomada de posse, Russo garantiu a “absoluta continuidade” da empresa em curso e realçou o sucesso e o reconhecimento internacional do trabalho orientado pelo seu antecessor.

PÚBLICO -
Foto
Fresco descoberto na Casa do Jardim na zona 5, conhecida como a “Cunha”, onde decorrem actualmente as novas escavações Marco Cantile/LightRocket via Getty Images

Meter o microscópio no esgoto

Paralelamente às obras de consolidação e de modernização das condições de acesso ao campo de Pompeia — que em 2018 recebeu perto de 3,5 milhões de visitantes, rivalizando com os Museus do Vaticano como segundo sítio mais visitado em Itália, logo a seguir ao Coliseu de Roma —, o PAP está transformado num sofisticado laboratório de escavação e investigação científica.

Testemunha deste novo modo de escavar e ler o passado é António Carvalho, director do Museu Nacional de Arqueologia (MNA), que no Verão do ano passado integrou uma delegação da Direcção-Geral do Património Cultural que foi a Pompeia e a Nápoles tratar de estabelecer relações de intercâmbio, que vão permitir a realização de uma ambiciosa exposição em Lisboa sobre aquela estação arqueológica, na Primavera de 2020. “O que é novo em Pompeia é a entrada das arqueociências nas escavações, é meter o microscópio no esgoto”, diz o director do MNA, referindo-se àquele que é um novo paradigma de investigação que aí está, de algum modo, a ser testado a nível mundial.

Trata-se, agora, não tanto de procurar novas casas, altares, esculturas, pinturas ou mesmo “ocos” de outros habitantes engolidos pela lava e preservados da erosão do tempo durante séculos, mas de analisar, através do cruzamento de vários utensílios, tecnologias e disciplinas, a relevância de elementos que até ao momento pareciam insignificantes, como restos moleculares, pólenes ou grãos de sementes. E isto sem esquecer os lixos que vão sendo encontrados por baixo não apenas de camadas de lava, mas também nos interstícios daquilo que foi sendo escavado — e muitas vezes depois reocultado — desde as primeiras descobertas e campanhas de escavações em meados do século XVIII.

PÚBLICO -
Foto
Sementes de trigo descobertas em Pompeia DR

Nova data para a erupção do Vesúvio

Foi, de resto, a contribuição das novas ciências e das tecnologias de ponta que veio fazer alterar a data em que se acreditava que tinha acontecido a erupção do Vesúvio, seguida de um tsunami, nesse ano de 79. Numa casa, onde foram também encontrados os “ocos” de seis corpos, foi identificada uma inscrição com referência ao “16.º dia antes das calendas de Novembro”, data que, no actual calendário gregoriano, corresponde a 17 de Outubro. Esta constatação fez naturalmente deslocar para depois deste dia o fenómeno da erupção, deixando de ser aceite a anterior data de 24 de Agosto que decorria da leitura de uma carta de Plínio, o Jovem (61-113), a Tácito, historiador romano seu contemporâneo.

A análise microscópica e molecular de sementes e restos de comida nos lixos e esgotos da cidade veio ao mesmo tempo dar consistência às dúvidas já anteriormente sugeridas por alguns arqueólogos e investigadores quanto ao desajustamento destas colheitas, e também do vestuário encontrado e de vestígios de braseiros. Por que vestiriam os habitantes roupas quentes e teriam braseiros a uso se foi no Verão que se deu a erupção?

“Havia algumas vozes que apontavam nesta direcção, mas nunca encontrámos uma prova assim forte. Tínhamos dúvidas por causa de alguns dos objectos encontrados e pelas frutas que eles traziam. Mas também podiam ter sido recolhidos noutras épocas, para outros usos”, comentou Massimo Osanna aos jornalistas, quando esta descoberta foi tornada pública em Outubro passado.

PÚBLICO -
Foto
A inscrição que obriga a repensar na data avançada até agora para a erupção do Vesúvio Marco Cantile/LightRocket via Getty Images

“Hoje, os arqueólogos podem ficar mais encantados por encontrarem uma espinha de peixe, e com a história que ela lhes pode contar, do que perante um fresco maravilhoso ou uma nova estátua de mármore”, comenta Ricardo Estevam Pereira, comissário da exposição que o MNA está a preparar, e que integrou a delegação portuguesa que visitou Pompeia. O também arquitecto e quadro da Câmara de Sines dá como exemplo o facto de a descoberta de grãos de pimenta nos canos de esgoto ter também permitido aos investigadores perceber o que é que os pompeianos comiam, e reconstituir rotas comerciais da região com a Índia. “Está agora toda a gente a virar as costas aos frescos e às estátuas — que continuam a ser maravilhosos, mas já se esperava que assim fossem —, e está tudo fascinado com os esgotos”, acrescenta.

António Carvalho realça igualmente a teoria agora aceite de que Pompeia “era uma cidade de comerciantes e burgueses” — diferentemente da vizinha Herculano, na borda do Vesúvio, que sofreu também as consequências da erupção, e que “era uma localidade mais nobre” —, que estava na altura “a olhar para o Oriente e para o Egipto”.

Na visita realizada à estação arqueológica, o director do MNA disse-se também impressionado com o aparato das escavações na zona 5, aquela que até agora não tinha sido ainda intervencionada. “Parece um ‘hospital de campanha’ na linha da frente de uma ‘guerra’”, nota, referindo-se ao fluxo de trabalho entre o campo da escavação propriamente dita, a passagem dos objectos encontrados para um hangar e a posterior trasladação para o laboratório.

Uma cápsula do tempo

“Pompeia é uma autêntica cápsula do tempo”, diz António Carvalho, e a possibilidade de hoje se abrir essa cápsula com o recurso às tecnologias de ponta e a intervenção de diferentes ciências aproxima-nos da história, do tempo e do quotidiano dos romanos do início da era cristã como nunca até agora tinha acontecido.

Massimo Osanna confirma: “Pompeia, com a sua área de 66 hectares — dos quais só 44 foram escavados —, é o único sítio arqueológico do mundo capaz de nos mostrar, na sua totalidade, como era um centro urbano na antiga Roma.” O facto de a chuva de cinzas e piroclastos “ter engolido tudo — casas, habitantes, estradas, edifícios públicos e mobiliário” — fez com que a cidade tivesse ficado como que “trancada num terrível instantâneo, que nos deixou evidências históricas e arqueológicas excepcionais da vida quotidiana da época”, acrescenta ao P2 o ex-director do PAP.

PÚBLICO -
Foto
Alfonsina Russo e Massimo Osanna, respectivamente actual e anterior directores do Parque Arqueológico de Pompeia EPA/POMPEII PRESS OFFICE

O arqueólogo e professor italiano refere também que “a metodologia inovadora das escavações em curso, baseadas em avançadas tecnologias e numa estreita colaboração multidisciplinar entre os profissionais, está, pela primeira vez, a permitir observar e documentar de forma detalhada as escavações realizadas no passado, graças ao levantamento de numerosos vestígios dos túneis da era dos Bourbon [dinastia europeia que governava aquela região da Península Itálica no século XVIII], quando se deu oficialmente início às escavações em Pompeia, bem como de intervenções anteriores, e conta-nos a história de métodos de escavação que eram completamente diferentes dos que actualmente usamos, tanto em termos de intervenção como de objectivos”.

Pompeia está assim transformada num caso singular de prática da arqueologia. “Aí assistimos não apenas à vanguarda do que a Itália pode fazer no domínio da arqueologia, mas à vanguarda da própria arqueologia mundial”, diz Ricardo Estevam Pereira. “O Grande Projecto de Pompeia é toda a comunidade científica mundial a avançar e a pressionar o próprio Governo italiano; é o mundo inteiro a dizer: ‘Isto é nosso!’”

Mas este património colectivo continuará também a ser — e certamente cada vez mais —​ um dos sítios mais procurados pelos visitantes e turistas. Massimo Osanna avança, de resto, que no final da campanha actualmente em curso está prevista a abertura ao público da zona escavada e tratada, “com os seus frescos e mosaicos”.

PÚBLICO -
Foto
Pintura descoberta em Fevereiro representando o mito de Narciso a decorar uma casa em Pompeia EPA/Pompeii press office

E esta vertente permanecerá certamente como a imagem mais apelativa de Pompeia, a cidade que, apesar e por causa da tragédia, resistiu à corrupção dos dias e dos anos. E que o visitante gostará de atravessar como quem viaja no tempo.

Então voltamos ao início, à expressividade dos “ocos” transformados em esculturas que simultaneamente representam a vida e o encontro com a morte (até ao momento, foram descobertos esqueletos relativos a cerca de mil e cem pessoas, não sendo no entanto possível determinar o número total de vítimas, numa população que ultrapassaria os 30 mil habitantes); mas também a arquitectura e a decoração das casas, as representações mitológicas, a urbanização…

Pedimos a Massimo Osanna que identificasse para o P2, entre as descobertas dos últimos meses, cinco das que considera mais relevantes para um olhar renovado sobre os mistérios de Pompeia. O ex-responsável pelo PAP citou duas peças encontradas na Casa de Júpiter, no centro da cidade: o já muito celebrado fresco de Leda e o Cisne e o mosaico representando o catasterismo de Orion. São dois mitos da antiguidade, o primeiro, encenando a união de Júpiter, disfarçado de cisne, com Leda, a mulher do rei Tíndaro de Esparta (um episódio que continuou a ser profusamente pintado ao logo da história da arte ocidental, de Leonardo a Rubens, de Veronese a Cézanne, de Tintoretto a Dalí), e que, por debaixo de camadas de lava, manteve “um forte impacto sensual”, diz Osanna; o segundo, que representa a transformação do gigante Orion numa constelação, também tem um carácter único em Pompeia.

PÚBLICO -
Foto
Fresco de Narciso REUTERS/Ciro De Luca

A descoberta de uma “sumptuosa sala de culto (lararium) e os seus frescos com paisagens idílicas e uma natureza exuberante, recheada de plantas e pássaros, bem como cenas de caça”, é outro destaque, ao lado das grandes pinturas da Casa com Jardim (ou Jardim Encantado) “representando Vénus com uma figura masculina (talvez Adónis ou Paris) e também Vénus à pesca com Eros”.

Mas — e este é certamente o olhar do arqueólogo, que associa a vertente do historiador com a do cientista —​ Osanna coloca acima de todas as descobertas mais recentes em Pompeia a da inscrição a carvão com a data de 17 de Outubro, que representa “um passo decisivo” para identificar o dia da erupção do Vesúvio.

Foi também essa descoberta que levou o actual ministro da Cultura italiano, Alberto Bonisoli, a deslocar-se em Outubro a Pompeia e a dizer: “Hoje, com muita humildade, talvez tenhamos de reescrever os livros de História, já que actualizámos a data da erupção para a segunda metade do mês de Outubro [do ano 79].”