Alice no país da chanson electrónica

Um dos nomes mais preciosos da nouvelle vague da pop francesa tem, depois do anterior (e excelente) Filme Moi, novo EP: porta de entrada para revalorizarmos todo um património (lin-guístico, lírico, cultural) demasiado esquecido nos últimos anos.

“Penso que algo não está a ir na direcção certa. Nas primeiras manifestações, eles [movimento dos gilets jaunes] estavam a falar de problemas reais, pessoas que trabalhavam imenso e que não conseguiam ter uma vida decente. Isto eu entendo totalmente. Mas depois trouxe tanta violência… Talvez eu esteja na minha bolha, mas não acredito em nenhuma forma de violência. Le Pen? Ela já foi uma ameaça a dado momento, mas o medo maior agora já não é ela, é o desespero das pessoas... As multidões assustam-me, tantas pessoas juntas, tanta raiva, não sei… Quando há raiva, as coisas correm sempre mal, ninguém ganha”. Nada do que conversámos com a parisiense Alice et Moi na hora anterior indiciava que terminaríamos assim, sombriamente. Mas por falar em sombras: com o estore cerrado para minimizar a contraluz no seu apartamento, Alice dir-nos-á que um dos seus filmes de sempre é Jules et Jim (1962), de François Truffaut. O ternurento, problemático, triângulo amoroso que aí se estabelece entre Jeanne Moreau e dois grandes amigos fará ligação para os dois amores com que Alice cresceu: o rock do pai, na infância, e a música electrónica, na juventude. “Muitas vezes, os diferentes tipos de música que ouvimos correspondem aos diferentes momentos por que estamos a passar na vida. Quando era miúda, era o rock’n’roll com o meu pai, os Beatles, Rolling Stones... Quando os meus pais eram mais novos, antes de me terem, a minha mãe organizava festivais de música e o meu pai tocava guitarra e cantava num grupo punk. Sempre tive muita música na minha vida! Quando se divorciaram e eu ia para casa do meu pai, havia guitarras por todo o lado, gente a cantar, tocar, a fazer percussão! Em adolescente, ouvia muita música electrónica, daí a dimensão electro da minha música. O que estou a tentar fazer é uma mistura destes dois lados de mim mesma: um mais melancólico, doce, talvez romântico, que gosta de falar francês… e um outro que é mais ‘on fire’!”.

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Um pé (ou uma mão) nas guitarras e nos baixos rockeiros, outro nos BPM do tecno e da música electrónica urbana contemporânea. Mas, acima de tudo, no princípio e no fim, a pop — na melhor tradição francesa

É este o encontro que lhe escutamos nos dois EP com que, fulgurante, passou a ser olhada na nova música francesa: um pé (ou uma mão) nas guitarras e nos baixos rockeiros, outro nos BPM do tecno e da música electrónica urbana contemporânea. Mas, acima de tudo, no princípio e no fim, a pop — na melhor tradição francesa, pois claro: voz doce, encantatória, sensualmente ingénua, uma miúda jeune & jolie (e haveremos de conversar sobre o filme de François Ozon, que Alice estudou nas aulas de cinema que cursou durante um ano) a cantar o romance, a melancolia, os dolorosos grand finales, o simples prazer em dançar. S’amuser: “Para mim, a duplicidade de ‘Alice et Moi’ está na existência da Alice que faz música e da Alice comum do dia-a-dia. Mas acho que esta duplicidade funciona para toda a gente, todos nós temos dois lados. Um lado de nós é mais lutador… porque temos que lutar neste mundo por vezes. E há outro lado, emocional, mais ligado à nossa infância… Mais tarde, quando crescemos, temos sempre estes lados dentro de nós. Para mim, isto é algo mesmo muito forte! Por vezes, sinto-me tão sensível, sabes? E, noutros, tão forte… Mas, quando estou em palco, sinto que abraço tudo! Sinto-me eu mesma, posso ser ao mesmo tempo muito sensível, uma grande drama queen, e posso ser rock ‘n’ roll, dançar, ‘don’t give a fuck’… Tenho o direito de mostrar todas as minhas emoções, daí gostar tanto do meu trabalho”.

Falamos-lhe em Hardy, Mireille Mathieu, Dalida, Birkin, se esse património lhe diz alguma coisa ou se é apenas vício de percepção para um ouvinte não-francês. “Quando eu era mais nova, era mais rock ‘n’ roll, em inglês. Mas sim, também a música francesa, claro… A Édith Piaf, a France Gall… Eu amo a Édith Piaf”. A sua grande referência é, no entanto, geracionalmente mais recente: “Quando eu era miúda, estava sempre a cantar as músicas da Vanessa Paradis para a minha família. Na verdade, é graças a ela que hoje estou a fazer música! Porque como a minha voz não é de rockstar, é mais doce, eu pensava que não podia fazer música... Mas, quando a ouvi, disse para mim: ‘Oh meu deus!, ela consegue cantar de forma lenta mas bonita… sabe contar uma história!’. E pensei que talvez um dia pudesse fazer o mesmo”. Embora quando lhe falemos de Les Rita Mitsouko — uma das mais interessantes figuras da música francesa moderna e que, à boleia do air du temps (o pós-punk e a new wave) e do próprio prestígio mundial (Gainsbourg, Aznavour, Barbara, etc.) da música francesa à data (hoje incomparavelmente menor), se constituiu num fenómeno além-fronteiras —, um sorriso se lhe acenda imediatamente no rosto: “Ah, sim! Adoro-os! Há um contraste entre o ritmo, os sons, e as letras, que são negras, gloomy… Gosto do facto de, na música francesa, podermos fazer canções que fazem as pessoas dançar e, ao mesmo tempo, pensar em emoções”. “E sim”, prossegue, “é verdade que os cantores franceses têm uma preocupação acrescida com as palavras. Mas, para mim, tudo é importante. Eu gosto de música electro e, por isso, gosto que as minhas canções sejam potentes. Não quero fazer música que seja ‘apologize’, sabes? Quero criar música que possa fazer coisas às pessoas! Gosto muito de escrever e, em miúda, já escrevia antes de pensar em música, ouvia as canções na minha cabeça. Hoje, a ideia do que quero dizer vem sempre primeiro… o texto é muito importante porque é ele que faz a canção”.

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Randolph Lungela

Tudo isto para chegarmos a uma ideia central, a saber, a actual revalorização da música cantada em francês pelos próprios franceses — isto depois de, talvez nos últimos 20/30 anos, em França como em Portugal, o inglês ter gozado da hegemonia que se sabe. Além de Alice, nomes como L’Impératrice, Claire Laffut, Corine, Vendredi sur Mer, Paradis, La Femme, Saintard, Jaune ou DeSaintex têm posto a música francesa também “a gostar dela própria” (quando nos pede sugestões cá de casa, pomo-la a fumar com B Fachada). “Sim, há uma nova onda muito boa na pop francesa. Alguns de nós conhecem-se, sim, mas gostava de conhecer mais gente! Gosto do facto de muita gente estar, hoje, a voltar a ouvir música cantada em francês, porque antes isso não era muito ‘in’. Eu gosto tanto de cantar em francês! Sinto que estou mesmo a contar uma história a alguém, como se fosse um amigo ou o meu namorado… sem filtros, sabes? Penso que foi nos últimos 5 anos que esta nova vaga apareceu. Já existia antes, mas agora… Normalmente, nos grandes prémios da música francesa, são músicos estrangeiros que vêm tocar, mas, no último ano, foram só músicos a cantar em francês”.

À bout de souffle

Em 2017, Alice surgia, sem pudor, a chamar toda a atenção para si (para a sua voz, sim, mas também para o seu rosto, o seu corpo, uma pose): Filme Moi era o nome do single (e respectivo videoclip) e do EP homónimo (2017) com que, sedutora, determinada, Alice se inscrevia numa tradição cine-romanesca muito francesa. Título declaradamente cinemático, (auto-)voyeurístico: desejo em ser observada, apreciada, sorvida — por homens, nomeadamente. A este propósito, falamos-lhe do MeToo (e sua derivação francesa do BalanceTonPorc) e do contra-movimento encabeçado por mulheres como Catherine Deneuve ou Catherine Millet, que têm alertado para os seus alegados exageros puritanos, “policiais” (as signatárias defendiam mesmo a existência de uma “liberté d’importuner”). Alice: “Na vida, há sempre pessoas que não fazem as coisas certas. Não estou muito habituada a falar disto em entrevistas, mas… O que nós, mulheres, temos de ser é a melhor versão possível de nós mesmas. Como mulher, por vezes, senti coisas menos boas, alguns homens na indústria não acreditavam no que eu fazia, achavam sempre que havia um homem por trás. Mas há homens maravilhosos! Trabalho com muitos na minha equipa! Eu quero que as mulheres se unam, que não sejam invejosas entre si, e quero que os homens se unam a nós. E, bom, acho que ninguém tem o direito de importunar ninguém. Mas flirtar é diferente! Os parisienses adoram flirtar, flirtar é maravilhoso! Mas ninguém pode importunar ninguém, isso é claro”.

Voltamos às imagens — agora, na capa de Frénésie, a vertigem cinemática continua patente: Alice deitada de pernas cruzadas ao alto (shorts muito shorts, casaco retro, umas Nike rosa nos pés, meias de rede), uma câmara de filmar na mão, olhos nos nossos olhos, o seu rosto projectado num enorme televisor a seu lado. “Gosto muito de cinema e vi muitos filmes dos realizadores de que falas. É como na música: gosto dos clássicos franceses mas também do que é feito actualmente. Gosto muito de curtas-metragens, também… E adoro fazer filmes na minha cabeça! (risos) Acho que esses são os meus filmes preferidos, posso ser o que eu quiser! Quando era miúda, andava sempre com uma câmara na mão a filmar tudo… Passava muito tempo no quarto sozinha, mas estava bem com isso porque imaginava coisas e filmava tudo!”. Esse interesse pelo cinema, se não se concretizou na sua formação e carreira (embora não nos espantasse nada se um Ozon ou um Kechiche lhe pegassem, tal e qual Paradis se iniciou no cinema pela mesma altura em que se estreava, com apenas 16 anos, nos discos com M&J, 1988), tem agora reflexo no modo como assume a realização e se encena nos videoclips (veja-se como também Paradis insistentemente o faz nos videoclips dos seus primeiros discos). “Quando comecei a cantar, primeiro eu filmava e só depois é que fazia música para o que tinha filmado. Agora faço o contrário, faço os vídeos para as músicas! Alguns dos meus videoclips fui eu que os realizei, noutros colaboro com pessoas muitas talentosas”.

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Randolph Lungela

Entre Filme Moi e, agora, Frénésie, existe um fio coerente e seguro que nos chega a fazer pensar se a repartição das 10 canções pelos dois EP terá sido opção deliberada. Alice explica que não: “Quando tentei fazer música, não sabia por onde começar, mas sabia que não podia começar com um álbum. Já tinha algumas canções e tive que escolher 5 delas! Sou eu que lanço a minha música, não tenho editora. Por isso, e também por razões financeiras, não podia fazer uma coisa muito grande. Fiz o primeiro EP e, de repente, tive uma óptima recepção pela crítica e pelo público, fiquei muito orgulhosa… E mal podia esperar por mostrar mais! Para o novo EP, tinha canções antigas mas também criei novas. Aconteceu tudo ao mesmo tempo… talvez por isso sintas essa ligação entre os dois EP. Sei que, agora, se fizer um álbum — e quero fazê-lo —, terá o mesmo espírito, mas quero tentar sons e temáticas diferentes. Quero explorar mais”. Electro-pop estranhamente negra e hedonista em simultâneo, barroca, gótica mesmo em certos momentos, eis a lufada com que aqui somos brindados — acompanhada da carta estranhamente nada fora do baralho que é “T’es fait pour me plaire”, bass music, dub e reggae num hipnótico balanço. Uma proposta em que guitarras e baixos pós-punk, synths e vibrações do (french) house e do techno (mais predominantes no EP anterior, que em vários momentos evocava o som dos Justice; aqui latentes em “J’en ai rien à faire”, o vocoder indisfarçavelmente datfpunkiano) convivem com a tendresse da entonação e o romantismo das teclas, a ingenuidade da parole, uma folie muito adolescente. Enfim, L’Amour en fuite, como diria o outro (i.é, o cineasta do amor à trois que Alice tanto aprecia). Mas o humor, também — o de J’veux sortir avec un rappeur, por exemplo: “Os meus irmãos mais novos ouvem muito hip-hop e, por causa deles, também comecei a ouvir. Estava a ver esses videoclips todos e a pensar como é fixe, hoje, os rappers poderem ser só homens a contar como se sentem… Um dia, estava entediada e comecei a pensar como seria a minha vida se eu estivesse com alguém que estivesse na indústria musical e fosse uma pessoa muito sensível e que se torna muito famoso. Esses estereótipos todos… Pensei tanto que fiz uma canção sobre isso! (risos)”.

A proposta sonora e visual de Alice et Moi é de tal forma coesa, sofisticada, forte, que ficamos surpresos com a sua gargalhada no momento em que lhe perguntarmos por datas para tocar na Europa e nos EUA: sem grandes bandeiras ou declarações passivo-agressivas, Alice continua, neste como no EP anterior, sem “máquina” por trás, absolutamente indie. “Eu adorava ir aos EUA, mas não tenho nada planeado! (risos) Este fim-de-semana vou tocar a Montreal, no Canadá, e no Verão vou tocar num grande festival em Bruxelas. Tenho muitos concertos marcados mas são todos em França... Mas gostava de ir a todo o lado! Não é fácil ter atenção dos media internacionais, definitivamente! Mas tenho tentado tanto… Espero poder crescer mais! Também tenho recebido muitas mensagens do Brasil…! Não sei como é possível, mas é um sentimento muito bom, espero que não pare”. No hiper-saturado mercado de festivais de Verão, feiras de speed dating dominadas pela produção e língua anglo-saxónicas (“Agora que sei que as pessoas podem fazer um esforço para ouvir música em francês, quero tentar ouvir música cantada noutra língua que não o inglês e o francês! Conheces a Rosalía? Eu nunca tinha ouvido música espanhola antes!”) do rock, hip-hop e derivados (Je suis all about you, Alice a brincar aos idiomas numa operática toada future bass), eis algo que poderia, finalmente, trazer alguma frescura (que, felizmente, não tem de se confinar às propostas-a-cantar-desde-1919 de Daddy Yankees e J Balvins): termos por cá uma das mais prometedoras vozes da nova pop francesa. E, com ela, quiçá relançar a nossa proximidade com uma série de outros jovens nomes inscritos num património francês outrora escutado com a maior das admirações pelas gerações pré-anos 90.