Jane Birkin devolve Gainsbourg à sua condição de clássico

A cantora e actriz Jane Birkin apresenta na Gulbenkian (e com a sua orquestra) canções de Gainsbourg em formato sinfónico. Esta sexta-feira, às 21h.

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Jane Birkin numa imagem recente NICO BUSTOS
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Jane Birkin com Serge Gainsbourg nos anos 1960-70 DR

É o mais recente projecto de Jane Birkin e é, simultaneamente, o seu renascimento para a música, depois de uma paragem forçada e dolorosa (esteve hospitalizada ano e meio, em luta contra uma leucemia, que conseguiu estancar). Gainsbourg Symphonique, que é esta sexta-feira apresentado no Anfiteatro ao Ar Livre do Jardim Gulbenkian, às 21h, surgiu-lhe como uma bênção em Montreal, no Canadá, por puro acaso. Foi em 2015, já depois da convalescença. Em conversa com a animadora de rádio Monique Giroux, disse-lhe que Serge Gainsbourg (1928-1991), cantor e seu companheiro durante 12 anos, se inspirava frequentemente na música clássica para compor. “E ela perguntou-me porque é que eu não tentava retomar as suas canções com uma orquestra clássica”, disse Jane Birkin à Agência France Presse.

Dito e feito: Monique pô-la em contacto com a Sinfónica de Montreal e o projecto tomou forma de um concerto. Com tanto êxito que foi depois gravado em disco, em Varsónia, com a Orquestra da Rádio Nacional Polaca. Os arranjos foram do pianista japonês Nobuyuki Nakajima, que aliás a acompanha nesta sua apresentação em Portugal, agora com a Orquestra Gulbenkian, sob a direcção do maestro Jan Wierzba. A direcção artística do espectáculo é de Philippe Lerichomme.

Uma relação forte

Nascida Jane Mallory Birkin a 14 de Dezembro de 1946 em Marylebone, Londres, Inglaterra, foi em França que Jane Birkin cimentou a sua carreira. Actriz em Blow-Up (Antonioni, 1966) e Wonderwall (Joe Massot, 1968), foi durante a rodagem de outro filme, Slogan, de Pierre Grimblat, que conheceu Gainsbourg e os dois se apaixonaram. Foi uma relação forte, tão forte que por várias vezes Jane regressa às canções de Serge, seja em disco seja nos palcos. Em 2004 apresentou-se em Lisboa, na Culturgest, com Arabesque (disco de 1999) em que Gainsbourg surgia envolto em sonoridades arabizantes. Esgotou a lotação, por duas noites. Regressaria mais tarde, desta vez ao Centro Cultural de Belém, em 2009, para apresentar o seu disco Enfants d’Hiver, do ano anterior. E em 2013 voltou a Serge, com o disco Jane Birkin Sings Serge Gainsbourg Via Japan.

Mas esse foi o ano terrível em que se suicidou a sua filha mais velha, a fotógrafa Kate Barry (fruto do seu primeiro casamento, com o compositor John Barry, que durou de 1965 a 1968). Já na sua vinda à Culturgest ela trazia a dor de outra morte, a do sobrinho Anno Birkin, poeta e músico, num acidente de automóvel em 2001 (ela lembrou-o, lendo ali um dos seus poemas). E depois veio a descoberta da leucemia, que enfrentou com tenacidade. Ao tratamento hospitalar seguiu-se um outro, pessoal: via três filmes por dia, passava as noites em teatros. "A ver histórias dos outros, para não me reduzir à minha história”, disse ela à revista Paris-Match em Março deste ano. “As coisas belas podem ajudar a viver."

Serge e os clássicos

Gainsbourg Symphonique está em digressão mundial. Nascido no Canadá, imortalizado em disco na Polónia, andou por Paris, Varsóvia, Mónaco, Recklinghausen (Alemanha), Lisboa, Tóquio e Londres. O espectáculo, tal como o disco, inclui temas de Gainsbourg tão emblemáticos como La javanaise, La chanson de Prévert, Lost song, Jane B, Baby alone in babylone, Requiem pour un con, L’anamour ou Exercice en forme de z. “A educação de Serge foi clássica. Era a [música] que ele mais amava, junto com a pintura e a poesia”, disse Jane à AFP. Esta, por curiosidade, citava algumas influências de compositores clássicos em criações de Gainsbourg: Beethoven em Poupée de cire, poupée de son; Dvörak em Initials BB; Brahms em Baby alone in babylone; Chopin em Jane B; ou Grieg em Lost song.

Em 2004, no final do espectáculo Arabesque, Jane Birkin agradeceu ao público deste modo: “Merci pour votre curiosité. Merci pour vos visages." Nada mudou. Treze anos passados, continuamos curiosos e atentos: à sua voz e ao que ela ternamente nos traz. 

Rectificação: o acidente que vitimou Anno Birkin, poeta e músico, ocorreu em 2001 e não em 2011, como por lapso inicialmente se escreveu.