Opinião

E a sogra? Ninguém nomeia a sogra?

Ainda está por aferir quais as consequências de toda esta endogamia e aparente nepotismo no Governo.

Como era previsível, o Conselho de Ministros com mulher e marido e filha e pai era apenas a ponta do icebergue das relações intrincadas da família socialista. E, se muitos reagiram com indiferença, perguntando qual é o mal, neste momento já só os que padecem de partidarite aguda não consideram tudo isto uma pouca-vergonha. Sabemos que entre comissões disto ou daquilo, gabinetes de ministros ou secretários de Estado, as nomeações preferenciais vão para maridos, mulheres, filhos, irmãos, genros e ex-mulheres. Apenas as sogras ficam de fora, essas ninguém nomeia.

Mea culpa, quando há umas semanas escrevi sobre os laços familiares no Governo, não imaginava que a endogamia, os conflitos de interesses e o nepotismo fossem tão graves. Esse foi um efeito positivo da nomeação de Mariana Vieira da Silva para ministra da Modernização Administrativa. Aumentou o escrutínio. Só por isso, já valeu a pena tê-la com o pai no Conselho de Ministros.

Ainda assim, não sei se este nível de endogamia é uma característica distintiva deste Governo ou se já vem de governos anteriores. Por um lado, tenho a tentação de achar que sempre foi assim e que não havia denúncias porque se considera isto normal. Por outro lado, lembro-me que no governo de Passos Coelho houve um escândalo semelhante. Foi com a nomeação da mulher do ministro Nuno Crato para o Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Perante o que vemos hoje, até parece absurdo que tenha levantado celeuma. A nomeação da mulher de Crato para um dos conselhos científicos da FCT deveria ter sido evitada, sublinhe-se. Mas não tem a gravidade de, por exemplo, ter a mulher do ministro do Ambiente como chefe de gabinete de um secretário de Estado do Ambiente. O nível de conflito de interesses e a aparência de nepotismo simplesmente não são comparáveis.

Mas voltemos às minhas dúvidas. O facto de a nomeação da mulher de Nuno Crato ter dado polémica sugere que havia algum escrutínio. E, se assim foi, somos levados a concluir que o actual nível de endogamia e nepotismo não tem antecedentes. Será o resultado de o Partido Socialista ter sido Governo durante 16 dos últimos 23 anos? Tornaram-se no partido do regime e sentem-se inimputáveis?

Insisto, não tenho dados suficientes que me permitam descartar liminarmente a hipótese de outros governos serem tão permeáveis a laços familiares como este. É provável que a equipa socialista comece a fazer um levantamento de relações familiares nos outros partidos. Por exemplo, já ficámos a saber por Carlos César — que, salvo erro, tem a mulher, o filho, a nora e o irmão em cargos políticos ou de nomeação política — que a irmã de Luís Marques Mendes é deputada e que Joana Mortágua é irmã de Mariana Mortágua. Informação surpreendente! Olhando para a cara delas, ninguém diria. É provável, e desejável, que no futuro fiquemos a conhecer mais casos. Nada melhor do que a transparência.

O que fazer com toda esta informação? Vamos detalhar numa lei todas as possíveis incompatibilidades familiares para cargos de nomeação política? Espero que não. Um político tem o direito de nomear quem quer para um cargo de confiança política. Não devemos confundir o imoral com o ilegal. Esta falha ética deve ser julgada pelos portugueses e não pelos tribunais. Apenas devemos exigir transparência. Em democracia os eleitores têm de ser responsabilizados.

No domingo passado, na Rádio Renascença, discuti este assunto com Nuno Botelho e Nuno Garoupa. Nuno Garoupa argumentou que, se o Governo se sentia à vontade para fazer todas estas nomeações em catadupa, era porque sabia que não seria eleitoralmente penalizado, como se podia ver pelas sondagens. Contrapus que era impossível aos eleitores penalizarem o que era do desconhecimento geral.

Já depois deste debate, foi tornado público uma sondagem da Aximage, que dá uma forte subida do PSD nas intenções de voto. Um aumento de 20 para 29% dificilmente se deve à natural aleatoriedade da amostra, pelo que deverá ter algum significado. No entanto, o trabalho de campo da sondagem foi feito entre 9 e 13 de Março e a carta de amor de Pedro Nuno Santos à sua mulher foi publicada a 17. Nessa carta, Pedro Nuno Santos descreve o extraordinário percurso profissional da mulher. Depois de acabar o curso, antes de se iniciar em cargos de nomeação política, trabalhou para a empresa de consultoria Augusto Mateus & Associados. Imagino que a empresa ser de um ex-ministro de um governo do PS seja uma mera coincidência e que não houve qualquer favoritismo partidário. Adiante, como a carta é posterior ao trabalho de campo da sondagem, é improvável que a aproximação do PSD ao PS se deva a qualquer penalização ao PS por causa deste assunto.

Muito possivelmente, dever-se-á às listas para o Parlamento Europeu, com o PS a fazer escolhas incompreensíveis. Por um lado, tem como cabeça-de-lista o rosto do principal falhanço da governação socialista. Pedro Marques, enquanto ministro do Planeamento e das Infra-estruturas, é o responsável político pelos recordes negativos do investimento público dos últimos anos. Por outro, relegou para segundo lugar uma excelente ministra, Maria Manuel Leitão Marques, que, ela sim, seria um excelente nome para a Comissão Europeia. Para compor o ramalhete, apresenta como número três da lista Pedro Silva Pereira.

Eu tinha decidido votar no PS para o Parlamento Europeu. Era um prémio justo pelo facto de terem mantido todos os compromissos europeus, empenho esse personificado na eleição de Mário Centeno para presidente do Eurogrupo. O PS tinha voltado a ser a principal voz europeísta em Portugal, mesmo com o singular apoio na Assembleia da República. Perderam o meu voto no exacto dia em que decidiram manter Pedro Silva Pereira, um clone político de José Sócrates, como deputado europeu.

Mas tergiverso. Em Portugal, a endogamia é bem aceite. Vemos isso, por exemplo, na sucessão das empresas, com lideranças a passarem naturalmente de pais para filhos (ou filhas, um saudável progresso recente, dado que duplica a probabilidade de encontrarem a liderança certa), na academia e em diversas outras profissões, com filhos a sucederem-se aos pais como se fosse normal. Por isso, ainda está por aferir quais as consequências de toda esta endogamia e aparente nepotismo no Governo. Neste momento, tudo é transparente e ninguém pode alegar desconhecimento. Se, ainda assim, não houver penalização eleitoral, é porque não nos sentimos incomodados com o assunto, caso em que temos o que merecemos.