Dava Newman: “Cresci na natureza, o que me ensinou a olhar para as estrelas e sonhar”

A antiga vice-administradora da NASA e actual co-directora do Programa MIT-Portugal esteve no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, para falar sobre o papel da mulher na ciência. O evento juntou o lançamento de uma nova edição do livro Mulheres na Ciência e a apresentação de uma Barbie inspirada em Newman.

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Dava Newman foi vice-administradora da NASA Daniel Rocha

No Dia Internacional da Mulher, o Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, recebeu Dava Newman, antiga vice-administradora da NASA, para falar sobre o papel da mulher na ciência. O evento organizado pela Ciência Viva cruzou o lançamento de uma nova edição do livro Mulheres na Ciência — que conta com os testemunhos de 109 figuras portuguesas de áreas como engenharia, biologia e química —, com a apresentação de uma boneca da Barbie criada à imagem de Newman.

Trata-se de uma edição especial, que não será comercializada — sendo que a Mattel tem já desde 1965 uma versão da Barbie astronauta. O dia 8 de Março marcou também o 60.º aniversário da Barbie, que ao longo dos anos acumulou dezenas de profissões, com o propósito de “inspirar raparigas a serem o que quiserem”. A nova boneca, “Dava Astronaut powered by MIT Portugal”, reflecte essa missão. A especialista em engenharia biomédica aeroespacial — que é também professora do Programa Apollo no Instituto de Tecnologia do Massachusetts e co-directora do Programa MIT-Portugal —, é representada com o seu BioSuit, uma alternativa que permite maior mobilidade do que o actual fato espacial e que tem vindo a desenvolver nos últimos anos. 

Manuel Heitor, Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, abriu a conferência, destacando a importância de criar “estereótipos para o futuro”. “Sabemos que os estereótipos começam a instalar-se desde muito cedo — a ideia dos homens médicos, astronautas ou bombeiros...”, apontou, referindo a associação de uma Barbie a uma astronauta como algo positivo. O governante lembrou ainda o impacto que esses mesmos estereótipos têm mais tarde no acesso às carreiras, apontando para o impacto que as audições cegas tiveram no aumento de músicas mulheres nas principais orquestras dos Estados Unidos. Assim, defende a importância de “desenhar processos” que levem a “uma sociedade mais equilibrada, mais madura e mais aberta a diferentes atitudes”.

Durante a conferência subiram também ao palco a cientista portuguesa Zita Martins, Chiara Manfletti, da Agência Espacial Europeia, Conceição Calhau, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Lisboa, e Maria Irene Ramalho, que estuda o cruzamento da ciência e da poesia.

O auditório reuniu algumas das mulheres retratadas no novo livro, bem como alunos de duas escolas da área de Lisboa. Para Newman, estes são a “geração de Marte”, aquela que terá as “botas em Marte nos anos 2030”. A cientista não tem dúvidas que “a humanidade vai ser interplanetária”. E quer que que o esforço de exploração para lá chegar inclua todos e todas. Em vez do mais conhecido termo STEM (acrónimo para ciência, tecnologia, engenharia e matemática), refere-se às STEAMD — acrescentando assim as artes e o design. “Na educação temos a tendência a filtrar as pessoas no sentido de as excluir. Precisamos de filtrar as pessoas para dentro”, atira.

Está a desenvolver o BioSuit para uma futura missão em Marte. Será uma mulher a usá-lo?
Absolutamente! Vê-se no design, o design é para uma mulher. É de um scan 3D de um corpo, por isso é um fato justo à pele. Podemos fazer um para um homem. Mas quero ter a certeza que fazemos um para uma mulher. A 29 de Março vai ser a primeira vez que duas mulheres fazem uma caminhada espacial a partir da Estação Espacial Internacional. Nunca aconteceu, o que é surpreendente, mas pelo menos vamos atingir essa meta no final do mês.

O que falta para o fato poder ser usado no espaço?
Ainda estamos a fazer investigação. Temos maquetes e estamos a receber protótipos de engenharia para aplicar a pressão que precisamos na pele. Precisamos de mais uns anos. Mas vamos chegar a Marte nos 2030, por isso só estou preocupada que a nossa tecnologia fique pronta na próxima década. Precisamos de um novo fato quando chegarmos a Marte, porque aí seremos bípedes, precisamos da mobilidade.

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"Enquanto rapariga, eu não sabia que podia ser uma engenheira aeroespacial" Daniel Rocha

À medida que as mulheres vão conquistando espaço na ciência, que impacto têm tido na área?
Só sei que as melhores equipas que consigo juntar [incluem] pessoas que não são iguais a mim, que não pensam como eu e que não foram treinadas como eu. É a melhor coisa que podemos fazer. Precisamos mesmo compreender [a importância de] reunir pessoas de diferentes experiências, mentalidades. É aí que a diversidade tem impacto: chegar de forma colectiva a diferentes opções criativas.

Consegue exemplificar com casos reais?
O progresso na igualdade salarial. É muito importante que tenhamos essa conversa. 50% da população são mulheres, por isso se não estamos a dar uma hipótese às mulheres, não é uma boa estratégia. Não é boa liderança, porque estamos a deixar todos esses recursos para trás. Se pensarmos em inovação, competição, excelência... Quero todas as mentes brilhantes. E sabem que mais? Uma grande parte dessas mentes brilhantes são jovens raparigas, que estão hoje na escola.

No discurso referiu as STEAMD em vez de STEM. Por que é que é relevante para este debate?
Porque abre as coisas. Sabemos das ciências sociais que as raparigas precisam de se imaginar num cargo. Enquanto rapariga, eu não sabia que podia ser uma engenheira aeroespacial. Nunca tinha conhecido ou visto uma. Até hoje, nunca fui ensinada por uma. É isso que precisamos de mudar. As pessoas precisam de se ver a si próprias no papel. Os jornalistas contam a história, os artistas pintam a imagem — é por isso que temos imagens de homens e mulheres em Marte. Precisamos mesmo de ter os contadores de histórias, os visionários. Para mim, esses são os artistas. Os designers são os que criam. Precisamos de lançar a rede para mais longe e dizer que são todos bem-vindos. No campo das STEM, por vezes, excluímos pessoas. Na educação temos tendência a perder pessoas. Não quero perder ninguém.

O ministro Manuel Heitor falou sobre a necessidade de desenhar novos processos. A seu ver, que mudanças são necessárias?
Quando estamos a fazer entrevistas de emprego e quando no meio académico escrevemos e publicamos artigos. Temos propostas para financiamento governamental. Precisamos de provas cegas. E isso significa tirar os nomes das pessoas e os identificadores. Se fores um avaliador, julgas apenas o mérito técnico das propostas. Estamos a começar a fazer isso no nosso National Institutes of Health, para o financiamento governamental. É importante, porque temos dados que [mostram que] quando os nomes estão lá há preconceitos. Qualquer coisa tão simples quanto numa aula de matemática os nomes de rapazes e raparigas estarem no trabalho de casa. Queremos livrar-nos dos preconceitos. Simplesmente avaliem o trabalho. Isso tem mesmo um impacto, promove mais equidade.

Está a ser adoptado noutras áreas?
Fazemos isso nas entrevistas no​ MIT. Recebemos os currículos e dizemos "leiam simplesmente o CV, tirem o nome e façam a avaliação”. É a forma mais justa, mais equitativa de olhar para o percurso das pessoas.

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Daniel Rocha

Trabalha de perto com Portugal. Em que ponto está o país nestas questões?
Portugal está numa excelente posição em relação às ciências. Está a ultrapassar as médias no que toca a mulheres na ciência e medicina. E isso é fantástico. Adoro estar em reuniões onde há 50% de mulheres portuguesas e são jovens. Especialmente agora que estão a tornar-se líderes. Mas ainda temos espaço para progresso no que toca às matemáticas e às engenharias. Aí Portugal está na média, mas não tão bem.

Hoje recebeu uma representação sua em forma de Barbie. Que importância tem este tipo de ícones?
Eu brinquei na natureza, brinquei lá fora. Andei a correr. Não brinquei muito com bonecas. Tenho honra em ter uma hoje. Mas a brincadeira é extremamente importante. Todos vivemos nos nossos computadores e smartphones e eu preocupo-me com isso. Porque quero que as crianças brinquem, [desenvolvam] trabalho de equipa. Aprende-se muitas competências sociais quando se joga à apanhada, com a bola e coisas assim. E a criatividade é extremamente importante. No caso da boneca da Barbie, aquilo que se põe nas mãos de alguém a sua imaginação segue. As raparigas e rapazes que têm as bonecas da Barbie, conseguem imaginar ir até à lua, até Marte. Por isso, estamos a ajudá-los a sonhar, estamos a ajudá-los a brincar e a serem criativos. Precisamos que as raparigas se vejam nesses papéis. A partir do momento em que se consegue imaginar, esse é o primeiro passo. O segundo é quando chegam às suas carreiras, têm de ter um sentido de pertença. Por isso, quando temos estudantes, temos de ter ambientes de laboratório que sejam saudáveis.

Quais foram os factores que mais contribuíram para o seu sucesso enquanto mulher nas ciências?
Cresci na natureza, o que me ensinou a olhar para as estrelas e sonhar. Também o programa Apollo. Cresci nos anos 1960 e 1970 e estávamos a ir à lua. O presidente Kennedy disse: “ponham um homem na lua nesta década”. Não havia nada mais difícil. Foi uma excelente visão, excelente liderança e depois os engenheiros puderam-se ao trabalho. Não disseram “não”. Disseram “sim, conseguimos”. Nunca o tinham feito. Também foi muito bem financiado. Mas acho que são os ingredientes essenciais: é preciso uma boa liderança, uma boa visão e um bom trabalho de equipa. E precisas de problemas desafiantes. As pessoas dão o seu melhor quando o desafio é difícil.

Sente que enfrentou mais desafios por ser mulher?
Acho que me deu carácter. Fez-me ser resiliente, persistente. Com cada desafio há uma oportunidade. Sou optimista. Na verdade, na NASA dava um prémio para falhanços. Porquê? Porque pessoalmente não estou confortável com falhanço. É uma coisa difícil de ensinar e é uma coisa difícil de aceitar, mas é mesmo importante.