Um novo livro e uma Barbie para homenagear as mulheres na ciência

Nas comemorações do Dia Internacional da Mulher no Pavilhão do Conhecimento, será lançado um exemplar único de uma Barbie astronauta em homenagem a Dava Newman, antiga vice-administradora da NASA.

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Conceição Calhau, cientista do metabolismo, dará o seu testemunho como cientista esta sexta-feira no Pavilhão do Conhecimento Rita Carmo
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Conceição Calhau, cientista do metabolismo Rita Carmo
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Maria Irene Ramalho, teórica da literatura, é uma das 109 cientista no novo livro Mulheres na Ciência Rodrigo Cabrita
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A Barbie dedicada a Dava Newman DR
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Dava Newman a apresentar o BioSuit no Pavilhão do Conhecimento DR

Ao todo, são 109 os pequenos testemunhos que compõem a nova edição do livro Mulheres na Ciência. Há químicas, físicas, biólogas, arqueólogas ou antropólogas e todas estas cientistas deixam uma declaração na primeira pessoa. Lançada esta sexta-feira – no Dia Internacional da Mulher – no Pavilhão do Conhecimento (em Lisboa), esta publicação é uma forma de homenagear as cientistas portuguesas a trabalhar em Portugal ou fora do país. No mesmo evento, que terá início às 11h, Dava Newman – antiga vice-administradora da NASA – fará uma palestra e será apresentada uma Barbie astronauta inspirada em si.

O nome da apresentação de Dava Newman para o público em geral e para duas escolas de Lisboa – que poderá ser vista por streaming através do site da agência Ciência Viva – é o mote do dia no Pavilhão do Conhecimento: “Mulheres na Ciência”. Quem é esta mulher na ciência? Até 2017, a professora do Programa Apollo no Instituto de Tecnologia do Massachusetts foi a primeira mulher a assumir as funções de vice-administradora da NASA por nomeação do então presidente dos Estados Unidos Barack Obama.

A actual co-directora do Programa MIT-Portugal é especialista em engenharia biomédica aeroespacial e investiga o desempenho do corpo em diferentes condições de gravidade. “Neste âmbito, desenvolveu o BioSuit, um fato espacial que permite ao astronauta uma melhor mobilidade e pela qual foi distinguida, em 2007, com o prémio Melhor Invenção da revista Time, destaca a agência Ciência Viva em comunicado. “Espero que algum dia os astronautas andem na superfície de Marte protegidos por uma versão futura do BioSuit”, escreve a cientista num documento da NASA, destacando que este fato também tem sido desenvolvido por alunos e colegas do MIT, com outros colaboradores de todo o mundo e com financiamento da NASA e do Programa MIT-Portugal.

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BioSuit, fato desenvolvido por Dava Newman NASA

Em homenagem a Dava Newman, criou-se então uma Barbie com um fato inspirado no BioSuit. Lançada pela Mattel Portugal em parceria com a Ciência Viva, esta Barbie denominada “Dava Astronaut powered by MIT Portugal” é um exemplar único e não será comercializado. Durante o evento, vai ser entregue às crianças outra Barbie astronauta que já existe no mercado.

Também Chiara Manfletti, da Agência Espacial Europeia e a cientista portuguesa Zita Martins – do Centro de Química-Física Molecular do Instituto Superior Técnico e que também tem uma Barbie inspirada em si – deixarão o seu testemunho.

Neste evento com entrada gratuita – mediante inscrição – e que terá a presença do Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, será então apresentada a mais recente edição do livro Mulheres na Ciência, que teve a com a colaboração da Amonet – Associação Portuguesa de Mulheres Cientistas. O livro pode ser adquirido na loja do Pavilhão do Conhecimento por 25 euros.

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Barbie astronauta dedicada a Dava Newman DR

Depois de a Ciência Viva ter lançado em 2016 uma edição do livro com 137 investigadoras, seguem-se mais 109 testemunhos que também serão reproduzidos na versão digital num módulo expositivo já existente no Pavilhão do Conhecimento.

Tal como no livro de 2016, os retratos das cientistas são todos a preto e branco e foram feitos pelos fotógrafos Augusto Brázio, Gonçalo F. Santos, Rita Carmo e Rodrigo Cabrita. “Fotógrafos profissionais captaram-nas em ambientes que as retratam como cientistas sociais, como engenheiras, como bioquímicas, como geólogas, como mulheres de inesgotáveis áreas do saber”, escreveu Rosalia Vargas, presidente da Ciência Viva, no prefácio do livro.

“Reconhecemos em cada um desses rostos o mesmo olhar curioso e inspirador que faz desta comunidade científica no feminino, em Portugal ou no estrangeiro, um exemplo e um motivo de orgulho.” Afinal, como destacou a presidente da Ciência Viva, “Portugal está acima da média da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico] na percentagem de diplomadas as áreas científicas.” No relatório da OCDE The Pursuit of Gender Equality (de 2017) assinala-se que são 57% as mulheres a estudar nos cursos STEM (Ciências, Tecnologias, Engenharia e Matemática) e com ambições de carreira nestas áreas. A média entre os países da OCDE é de 39% e Portugal lidera esta lista.

Ainda segundo o relatório She Figures de 2015 editado pela Comissão Europeia, a média de doutoradas em Portugal é de 53,3% e a de mulheres investigadoras de 45%. Quanto às mulheres na direcção de instituições de ensino superior em Portugal, contabilizam-se apenas 29,8%.

A nível global, de acordo com os dados de 2017 da UNESCO, o número de mulheres cientistas está abaixo dos 30%. Além disso, apenas 11% dos cargos académicos superiores pertencem a mulheres e só 3% dos Prémios Nobel dedicados às ciências distinguiram mulheres. 

Matemática e poesia

No final do evento no Pavilhão do Conhecimento, duas investigadoras retratadas no livro deixarão o seu testemunho: Conceição Calhau (cientista do metabolismo) e Maria Irene Ramalho (teórica da literatura).

No livro, Conceição Calhau – da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Lisboa – confessou que é apaixonada por números. “Não propriamente os da Matemática, mas os cálculos de risco/benefício, a associação directa ou inversa entre alimentação e estilos de vida, entre saúde e doença”, contou a cientista que estuda a forma como a alimentação, o ambiente e os estilos de vida podem ser modificados pelo humano. “Os segredos do metabolismo enchem de fascínio o meu dia-a-dia de investigação e ensino.”

Maria Irene Ramalho – do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra – tem dedicado a sua vida científica à poesia, “aquela área do saber que muitos consideram a mais inútil das Humanidades”, sublinhou no seu testemunho. “Os organismos financiadores assim pensam, mas sem a ‘inútil poesia’, ou ‘inspiração’, teremos um mundo cada vez mais desencantado (Max Weber)”, relata ainda.

“[Queremos] agradecer o trabalho que têm vindo a fazer, muitas delas em condições difíceis”, acrescentou à agência Lusa Rosalia Vargas. E terminou o prefácio do livro com uma ambição: “Com esta nova edição do livro Mulheres na Ciência, a Ciência Viva continua a dar a conhecer os rostos das cientistas portuguesas para que sigam inspirando as novas gerações na procura do conhecimento.”