Editorial

Pedro Nuno e Duarte Cordeiro Ocasio-Cortez

Pedro Nuno Santos e Duarte Cordeiro têm um projecto para o futuro do PS que poderá estar ali ao virar da esquina

Pedro Nuno Santos é o socialista mais parecido com Alexandria Ocasio-Cortez, a jovem congressista que tem seduzido as camadas mais jovens do Partido Democrata com um discurso muito mais à esquerda do que é habitual no partido de Obama e dos Clinton. Quem assistiu ao discurso de Pedro Nuno Santos no último Congresso do PS, aquele que obrigou Costa a declarar que "não tinha metido os papéis para a reforma", percebeu que estava ali uma Alexandria em homem e mais velho. Pedro Nuno Santos tem as suas ideias socialistas - que não são exactamente as de António Costa e Augusto Santos Silva - arrumadas e é detentor de uma coisa rara em política e que Ocasio-Cortez tem aos molhos: o "it", a capacidade de sedução, aquilo a que se convencionou chamar "carisma".

Duarte Cordeiro, que deixa agora a vice-presidência da Câmara de Lisboa, também é uma versão masculina de Alexandria Ocasio-Cortez, em estilo muito mais discreto mas não menos convicto. Duarte Cordeiro partilha com Pedro Nuno as mesmas posições ideológicas (apresentaram juntos uma moção sectorial ao Congresso) e, tal como o agora ministro das Infra-estruturas e Habitação, poderá ser candidato a secretário-geral do PS num futuro qualquer, eventualmente a seguir a Pedro Nuno ou se Pedro Nuno falhar pelo caminho.

Pedro Nuno Santos e Duarte Cordeiro têm um projecto para o futuro do PS que poderá estar ali ao virar da esquina. Quantos anos António Costa conseguirá aguentar-se como primeiro-ministro e secretário-geral se vencer as eleições sem maioria? Dois? Três? Se o Congresso do PS funcionou como uma espécie de "primárias" do futuro, contra a vontade de António Costa, agora foi por sua exclusiva decisão que promoveu todos os putativos sucessores, nomeadamente ao enviar Pedro Marques, que tem com Fernando Medina a mesma relação que Pedro Nuno tem com Duarte Cordeiro, para Bruxelas como número 1.

A dúvida agora é se o PS escolhe no futuro a via Ocasio-Cortez ou a geração Vieira da Silva, de que foram secretários de Estado Fernando Medina e Pedro Marques. Francisco Assis, ao dizer que não quer ser candidato à Assembleia da República nas próximas legislativas, está a colocar-se de fora, talvez incompreensivelmente - é jovem e o mais bem preparado da ala centrista do PS.

Outra dúvida é se, ao passar a gerir um ministério com infra-estruturas periclitantes, Pedro Nuno Santos conseguirá manter o seu perfil elevado. Até aqui, o papel que tinha servia-lhe como uma luva (o contacto com os parceiros de esquerda com quem tem simpatias políticas), agora vai ser responsável por comboios que perdem o motor e que não deram um grande currículo ao cabeça de lista do PS às europeias. Fica por saber se António Costa, que prefere claramente a linha dos herdeiros de Vieira da Silva, não deu a Pedro Nuno Santos um presente envenenado.