Alexandria Ocasio-Cortez é a nova obsessão da direita americana

É jovem, fica bem na televisão, tem ideias descaradamente de esquerda e é descuidada com os factos. A nova congressista democrata tornou-se uma superestrela e os republicanos não sabem o que fazer com ela.

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Alexandra-Ocasio-Cortez em Nova Iorque PETER FOLEY/EPA

Alexandria Ocasio-Cortez tornou-se uma obsessão para a direita conservadora norte-americana. A recém-eleita congressista norte-americana, do Partido Democrata, “é tão irresponsável financeiramente que nem conseguiu poupar dinheiro suficiente para arrendar um apartamento na área de Washington D.C.”, escreveu a comentadora conservadora Candace Owens num domingo à noite.

O tweet desencadeou logo uma discussão na Internet sobre idade, classe social e política.

Ocasio-Cortez tinha acabado de criticar alguns congressistas do Partido Republicano por se queixarem de não conseguirem pagar duas residências. “Mas sim, vamos confiar-lhe o futuro do planeamento fiscal da América”, ironizou a comentadora conservadora, numa resposta que terminou com a hashtag #SocialismSucks (o socialismo não presta).

Desde que entrou de rompante na cena política norte-americana, apresentando-se como uma assumida democrata socialista com jeito para gerar títulos de jornais, Ocasio-Cortez tornou-se numa obsessão para uma grande parte da direita.

Aos 29 anos, esta descendente de porto-riquenhos, eleita num distrito urbano e diverso e conhecida por defender ideias liberais em questões de raça, género e classe social, surge como um contraponto vivo a um Partido Republicano masculino, branco e rural - e tem provocado a ira de quase todos os cantos do movimento conservador.

Ataque cerrado

Comentadores e políticos têm criticado a sua inteligência, a sua roupa, até as referências às suas raízes na classe trabalhadora. Todos os dias surgem novos exemplos dessas críticas.

Os republicanos Ed Rollins e Rush Limbaugh trataram-na recentemente como uma “miúda” e “uma jovem qualquer que tem a mania”. O jornalista Eddie Scarry, do conservador Washington Examiner, partilhou no Twitter uma fotografia de Ocasio-Cortez e disse que “ela não parece ser uma rapariga com dificuldades”. Na semana passada, o jornal Daily Caller publicou uma fotografia de uma mulher nua, numa banheira, sugerindo que seria Ocasio-Cortez. Quando começaram a surgir indícios de que não seria ela, o jornal retractou-se.

A tendência tem sido tão implacável que até alguns republicanos começam a sair em defesa da jovem congressista do Partido Democrata.

“Porque é que as pessoas insistem nestes ataques superficiais contra ela?”, perguntou o congressista Justin Amash, referindo-se às críticas da comentadora Candice Owens. “Vamos discutir as nossas diferenças filosóficas e políticas (e áreas de entendimento), e não os rendimentos dela.”

Ocasio-Cortez, que conquistou mais de dois milhões de seguidores no Twitter e é actualmente uma das figuras mais conhecidas do Partido Democrata, parece gostar de responder aos ataques.

“É encorajador, porque eu estou no Congresso há poucos dias e eles atacam-me com esta artilharia toda”, disse a congressista numa entrevista recente. “Esperavam que a fotografia da mulher nua fosse a bazuca. Tipo ‘vamos mandá-la abaixo’. Pessoal, vocês já gastaram todas as balas e todas as bombas. O que é que têm mais para mim?”

Estrela socialista

Os conservadores dizem que atacam Ocasio-Cortez porque ela é uma estrela em ascensão que promove ideias socialistas, de vez em quando erra nos factos e atrai uma grande dose de atenção nas redes sociais.

Em entrevistas, estes conservadores defendem a sua abordagem, dizendo que é justa.

“Isto chama-se escrutínio a figuras públicas”, disse Scarry, rejeitando a ideia de que os conservadores estão obcecados por Ocasio-Cortez. “Faz parte do jogo. Ela é uma mulher de 29 anos, sabe tomar conta dela e pode responder por ela.”

Alexandria Ocasio-Cortez, a mais jovem congressista norte-americana de sempre, chegou a Washington numa posição pouco comum: sem um grande poder efectivo, mas no centro de um contexto político muito particular. Desde que venceu a sua eleição primária, no ano passado, em Nova Iorque, quando derrotou um congressista veterano do seu partido, já foi parodiada no programa Saturday Night Live e defendida pelo economista Paul Krugman no New York Times. Os painéis de comentadores políticos discutem as ideias dela. Os jornalistas especializados em verificar se as declarações dos políticos são falsas ou verdadeiras salientam os seus erros.

A sua sugestão de aumentar os impostos aos mais ricos, feita numa entrevista no famoso programa 60 Minutos, da CBS, gerou burburinho nos media e na classe política. E quando votou a favor de Nancy Pelosi na eleição para presidente da Câmara dos Representantes, ouviram-se vários congressistas republicanos a resmungar em sinal de desaprovação.

Quando perguntaram ao Presidente Donald Trump o que tinha a dizer sobre o facto de Ocasio-Cortez o ter acusado de ser racista, a resposta foi curta e acompanhada com um gesto de desdém: “O que é que isso interessa?” A resposta da congressista foi dada no Twitter: “Nós conseguimos irritá-lo.”

As redes sociais tornaram-se na sua plataforma preferida para atacar adversários políticos e salientar comentários que ela considera serem injustos ou tendenciosos. Na semana passada, depois de o Daily Caller ter publicado uma fotografia de uma mulher nua sugerindo que era Ocasio-cortez, a congressista disse no Twitter que a forma como é tratada pela direita é “completamente repugnante”.

Comparada a Trump

Geoffrey Ingersol, director do Daily Caller, disse que mudou o título da notícia para garantir que não estava a enganar ninguém, mas defendeu a escolha do tema pelo seu jornalista.

“O artigo deixava bastante claro que era sobre um embuste vil perpetrado por trolls anónimos”, disse Ingersol numa mensagem enviada ao Washington Post, em que também comparou as competências de redes sociais de Ocasio-Cortez às de Trump. “A diferença é que Trump foi obrigado a adaptar-se a um sector dos media em grande mudança, e Ocasio-Cortez cresceu com a nova realidade.”

Várias figuras da direita dizem que o estilo dela convida os ataques.

“Se andares por aí a atirar pedras, vais acabar por ser apedrejado”, disse Dan Crenshaw, do Partido Republicano, um congressista que tentou discutir política fiscal com Ocasio-Cortez no Twitter. “O estilo dela é muito semelhante ao do Presidente Trump”, disse Crenshaw.

Outros republicanos dizem que lhe responderam porque é preciso desafiar as ideias dela.

“Sempre que um congressista promove ideias socialistas, é importante que alguém venha dizer que essas ideias iriam destruir a capacidade das pessoas para chegarem à classe média”, disse o republicano Steve Scalise, que usou o Twitter para deixar clara a sua oposição à proposta de uma taxa marginal de 70% de impostos para os mais ricos.

O antigo governador do Wisconsin, Scott Walker, que foi derrotado em Novembro, ridicularizou a proposta fiscal de Ocasio-Cortez, sugerindo que até uma criança percebia mais sobre o assunto. “Até um aluno do 5.º ano compreende isto”, disse no Twitter.

Teorias da conspiração

Ocasio-Cortez respondeu que a sua ideia é taxar “os multimilionários que fazem toneladas de dinheiro pagando pouco aos trabalhadores”.

Em muitas ocasiões, a resposta da direita a Ocasio-Cortez vai muito além da postura política normal.

A congressista tem enfrentado teorias da conspiração desde que chegou à ribalta política, em Junho do ano passado. Os seus críticos dizem que ela não tem raízes na classe trabalhadora, e analisam as suas escolhas de vestuário, a sua educação universitária e, até, uma alegada antiga alcunha para provarem a sua teoria. Uma conta anónima no Twitter ligada à extrema-direita tentou envergonhá-la este mês, ao partilhar um vídeo em que ela surge a dançar quando estava na universidade.

“É claro que a direita ia dizer que eu estou a pedi-las. Isso não me surpreende e revela muito sobre as pessoas que lançam os ataques”, disse Ocasio-Cortez.

Mas o congressista republicano Dan Krenshaw também disse que Ocasio-Cortez exagera ao dizer que os conservadores têm sentimentos negativos em relação a ela. Krenshaw referia-se a um tweet da congressista - “Ouvi dizer que o Partido Republicano acha que uma mulher a dançar é escandaloso” -, publicado depois de o vídeo ter sido posto a circular.

“Nós não queremos saber, deixa de dizer que nós nos importamos com isso”, disse Dan Krenshaw. “Que eu saiba, nenhum membro do Partido Republicano comentou isso. Não faças generalizações sobre o outro lado só porque recebeste um tweet desprezível. Isso não é verdade.”

E Geoffrey Ingersol, o director do Daily Caller, disse que a cobertura mediática de Ocasio-Cortez é necessária para responsabilizar uma política novata com um poder fora do normal.

“O apelo dela é óbvio”, disse Ingersol. “Ela é telegénica, refrescantemente ingénua e hilariantemente descuidada com os factos.” 

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post