Portugal tenta recuperar os anos de avanço que deu à vespa-asiática

Estado, autarquias e outras entidades parecem agora mais coordenadas no controlo desta invasora que se tornou mais um problema, grave, para a apicultura.

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Adriano Miranda

Oito anos depois de ter sido detectada, pela primeira vez, em Portugal, a Vespa velutina, ou asiática, adaptou-se perfeitamente ao país, e prepara-se para saltar definitivamente o Tejo e instalar-se no Sul, para mal dos apicultores algarvios, por sinal os mais profissionalizados e os que exploram apiários de maiores dimensões. Por causa deste insecto invasor e predador de abelhas, a apicultura portuguesa já contabiliza uma quebra de produção que anda entre os 5 a 10%, segundo contas da federação nacional do sector, que vem pedindo, há muito, um ataque coordenado a este problema. A esperança reside agora no financiamento do Governo à destruição de ninhos, tarefa que está entregue, às autarquias, e nos avanços da investigação científica e tecnológica​.

Num dos laboratórios do Instituto Ibérico de Nanotecnologia, em Braga, uma equipa coordenada pelos investigadores Miguel Cerqueira e Lorenzo Pastrana desenvolveu, a partir de um polímero em gel, umas pequenas esferas ambarinas que, envolvidas numa mistura de proteínas com os aromas certos, está, nos testes, a conseguir convencer a Vespa velutina de que são melhor petisco, para as suas larvas, do que as abelhas que costumam caçar. As bolinhas amarelas não passam, contudo, de um “cavalo de Tróia” e o próximo passo desta investigação aplicada passará por definir o que colocar dentro delas para que, uma vez transportadas para os vespeiros, ajudem a destruir as colónias e a controlar o avanço desta invasora. Que, já ninguém tem dúvidas, veio mesmo para ficar.

Enquadrado num esforço que envolve financiamentos comunitários à investigação e uma acção concertada dos ministérios do Ambiente e da Agricultura, o ARMA4VESPA é uma das esperanças para um controlo mais efectivo da população de Vespa velutina nigritorax - o nome completo desta subespécie - em Portugal. Miguel Cerqueira ainda não sabe se o isco vai ser recheado com algum insecticida ou se a opção passará por um agente biológico, parasita desta espécie, mas sabe que, seja qual for a opção, ela terá de ter em conta vários factores: a sua eficácia, a minimização de efeitos no ambiente envolvente e um custo de produção industrial que garanta a sua disseminação entre os apicultores, cuja federação nacional (FNAP) é parceira no projecto, tal como a Associação de Apicultores do Cávado e Ave (APICAVE) e vários departamentos da Universidade do Minho.

Preparação do isco para vespa velutina no INL Adriano Miranda
Preparação do isco para vespa velutina no INL Adriano Miranda
Isco para velutina que está a ser testado no INL, em Braga Adriano MIranda
O INL está a tentar desenvolver uma armadilha para a vespa Adriano Miranda
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Enquanto esta inovação não chega ao mercado, agentes da protecção civil de vários municípios, associações, como a Nativa, ou empresas da área de controlo de pragas vão garantindo, a custos e com uma eficácia que varia em função do empenho e da capacidade financeira de quem contrata, a destruição dos ninhos, com recurso a fogo ou a insecticidas aplicados nos vespeiros por via de canas telescópicas. Esta semana o ministro da Agricultura, Capoulas Santos, apresentou no Marco de Canaveses um pacote de um milhão de euros para financiar os municípios aos quais, desde 2015, com a publicação da primeira versão do Plano de Acção para a Vigilância e Controlo da Vespa Velutina, ficou atribuída a coordenação das tarefas de eliminação desta praga.

A questão, queixam-se os apicultores, é que essa atribuição nunca teve força legal, e o esforço tem sido díspar. Se há câmaras que fizeram ou estão a fazer tudo ao seu alcance para minimizar o impacto desta espécie - e que agora vão poder aceder a um máximo de dez mil euros de apoio anual - outras acordaram tarde, ou nem acordaram ainda para o problema, facilitando a propagação deste insecto. Que não conhece fronteiras administrativas e que, no início do seu ciclo anual, após a hibernação, pode viajar dezenas de quilómetros para encontrar o sítio certo para instalar um ninho primário.

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Uma espécie "competente"

Se ninguém lhe fizer frente, e se houver alimento - abelhas ou outros insectos - disponíveis, um ninho primário dará origem a um volumoso ninho secundário, que por sua vez dará origem a entre cem a trezentas futuras fundadoras. Sem controlo, “a progressão é exponencial”, diz o presidente da Associação de apicultores do Cávado e Ave, Alfredo Marques. No seu esforço de sobrevivência, “esta espécie é extremamente competente”, acrescenta o entomólogo José Manuel Grosso-Silva, co-autor, com Miguel Maia, do primeiro artigo descrevendo a presença desta vespa em Portugal, publicado em 2012 na revista O apicultor.

No entanto, o biólogo da Universidade do Porto assume também que, face ao que se conhece da sua expansão no território de França - de onde, a partir de uma única rainha, explica, ela se espalhou por vários países do continente europeu - esperar-se-ia que o seu avanço, em Portugal, tivesse sido mais rápido. Por factores como o clima, ou de menor alimentação disponível, a colonização de novos espaços, de norte para sul, a partir de Viana, por cujo porto entrou em 2011, deu-se “a um terço da velocidade”, explicou ao PÚBLICO.

O problema é que, mesmo avançando mais devagar, este insecto muito bem organizado, e que só em Julho de 2016 foi entre nós classificado como exótico, contou com alguma desorganização, e lentidão de reacção, das várias entidades que poderiam contribuir para um controlo mais precoce. Em Outubro de 2017, perante a incapacidade de travar este fenómeno, o actual ministro criou uma comissão de acompanhamento, no âmbito da qual o plano de acção foi revisto. E já em Dezembro do ano passado, foi finalmente publicado um manual de boas práticas para a destruição de ninhos desta vespa.

Portugal até tem há anos uma plataforma online para notificação dos avistamentos e da eliminação dos vespeiros, sob alçada do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, mas o SOS Vespa tem problemas de funcionamento, queixa-se quem com ele trabalha. E, além disso, não dá um retrato fiel do que passa no terreno, tendo em conta que nem tudo é devidamente registado por quem está envolvido na vigilância e controlo. Ainda assim, esta semana, durante a apresentação da Campanha Nacional de Combate à Vespa Velutina, pelo ministro Capoulas Santos, afirmou-se que nestes anos terão sido já destruídos quase 12.900 ninhos.

Apicultores precisam de se profissionalizar

Face à já descrita capacidade de reprodução desta espécie, os números são assustadores. Para as abelhas, o seu petisco favorito, mas também para toda a biodiversidade e para a agricultura, dado o papel dos vários insectos predadores na polinização. E a isto há que acrescentar a saúde pública, tendo em conta que ela se dá muito bem nas cidades, aumentando, por isso, a possibilidade de contactos, inadvertidos, com humanos. As consequências de um choque anafiláctico por picada desta invasora não são muito diferentes das de uma picada da nossa abelha melífera, e resultaram, até agora, em duas mortes, a última das quais em Dezembro passado, em Vila Verde, no distrito de Braga.

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As abelhas, e quem delas vive, terão, claro, maior razão de queixa. Para Alfredo Marques (um dos autores do manual de boas práticas), a Vespa velutina é um problema novo, e grave, a juntar-se a outros também graves e bem conhecidos do sector, como a varroose ou infecções bacterianas, que têm enfraquecido muitas das colmeias estabelecidas em Portugal. E uma colónia de abelhas fragilizada por outras doenças tem também maior dificuldade em reagir aos ataques desta vespa, necessitando, por isso, de maior atenção e apoio dos apicultores. Que, perante o nível dos desafios, "precisam, hoje mais do que nunca, de se profissionalizar", alerta.

Entre alimentação artificial, deslocações aos apiários, e colocação de armadilhas para captura de vespas fundadoras - um método preventivo que está a ser estimulado, nos primeiros meses do ano - os sobrecustos de produção associados a este novo problema rondam os 20%, garante a FNAP. Prejuízos difíceis de suportar por um sector que, segundo o Programa Apícola Nacional 2017-2019, tinha, em 2015, quase 10.700 apicultores, cada com uma média de 60 colmeias, mas apenas mil que, por explorarem mais de 150 colmeias, eram considerados profissionais.