Metro de Lisboa não pode servir só os interesses "de um ou outro município"

Bernardino Soares insiste no prolongamento do Metro de Lisboa até Loures e lembra que existe uma petição com milhares de assinaturas para o Parlamento discutir.

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Enric Vives-Rubio

O presidente da câmara de Loures, Bernardino Soares, escreveu uma carta ao primeiro-ministro a insistir na necessidade de levar o Metro de Lisboa ou outra solução ferroviária até àquele município. “A existência de uma oferta de transporte de massas tipo ‘metropolitano’ assume a maior importância para o concelho de Loures”, escreve o autarca, argumentando que “Loures assume uma forte centralidade na área metropolitana norte [de Lisboa]”.

A missiva seguiu para António Costa poucos dias depois de o chefe de Governo ter estado na estação da Baixa-Chiado para assistir ao lançamento do concurso público da obra que vai criar uma linha circular no centro de Lisboa. “Era o passo a dar antes de todos os outros. Não fazia sentido expandir para a periferia sem robustecer o centro da cidade”, disse o primeiro-ministro na ocasião.

Sem se referir à linha circular nem ao anunciado encurtamento da linha amarela (que passará a ligar Odivelas a Telheiras), Bernardino Soares diz a António Costa que tem de se pensar a mobilidade da Grande Lisboa como um todo. “Como o sr. primeiro-ministro bem sabe, pelas funções que já desempenhou no passado, na Área Metropolitana de Lisboa e em Loures, a oferta de transporte público tem de ser desenvolvida, pelas entidades competentes, face às necessidades metropolitanas e não as de um ou outro município”, escreve.

Este é o ponto em que a administração do metro, a câmara de Lisboa e o Governo divergem de Bernardino e dos partidos com assento parlamentar, que quase unanimemente rejeitam a opção agora tomada. Para os executivos nacional e lisboeta, a criação da linha circular é uma peça fundamental na mobilidade metropolitana, ao permitir que os passageiros que chegam ao Cais do Sodré de comboio ou barco acedam rapidamente à zona empresarial da cidade (entre o Marquês de Pombal e o Campo Grande). E, assim, retirando carros da cidade. “A maioria dos veículos vem da A2, da A5”, acrescentou há dias Vítor Domingues dos Santos, presidente do metro, numa audição da Assembleia Municipal de Lisboa.

Mas o autarca de Loures, eleito pelo PCP, contrapõe com os dados do Inquérito à Mobilidade do Instituto Nacional de Estatística, divulgado há uns meses. Na área metropolitana, o concelho é um dos principais fornecedores de pessoas para Lisboa – e muitas andam de automóvel.

“O Conselho Metropolitano tomou decisões de grande alcance estratégico, propondo ao Governo uma redução do custo do passe, que permitirá uma diminuição substancial da despesa das famílias”, continua Bernardino Soares. “Mas, para que esta nova atenção para o tema da mobilidade se traduza em melhorias sensíveis para a oferta, importa de imediato melhorar a qualidade da frota de transportes públicos e adequar a resposta às reais necessidades das populações”, lê-se na carta.

O presidente da câmara lembra ainda a existência de uma petição pública, que à data do seu lançamento foi apoiada pelos vereadores de todos os partidos, “que obteve mais de 31 mil assinaturas”, assim “demonstrando cabalmente o sentimento da população”.

Nesse documento pede-se “a concretização da extensão do metropolitano ao concelho de Loures, por um lado a Santo António dos Cavaleiros, Loures e Infantado, e, por outro, à Portela e a Sacavém”, tal como foi definido em 2009 por um decreto-lei da então secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, que até chegou a ir a Loures anunciar a boa nova. O metro chegou entretanto a Moscavide, mesmo na fronteira entre os municípios de Lisboa e Loures, mas não progrediu mais além. A petição ainda aguarda que a Assembleia da República se debruce sobre ela.

A carta de Bernardino Soares termina com um pedido de reunião a António Costa para “debater a oferta de mobilidade necessária para o território de Loures”.