Uma linha circular no metro em Lisboa? “Era o passo a dar antes de todos os outros”

Está lançado o concurso público para a construção do prolongamento do metro de Lisboa entre o Rato e o Cais do Sodré, que contempla ainda a criação de duas novas estações na Estrela e em Santos. São esperados mais nove milhões de passageiros por ano.

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LUSA/MIGUEL A. LOPES

O ponto de encontro era a estação Baixa-Chiado, ali junto à estátua de Fernando Pessoa e à Brasileira. Era preciso apanhar o metro até ao Alto dos Moinhos, juntamente com o primeiro-ministro, o ministro do Ambiente e o presidente da Câmara de Lisboa, para assistir ao lançamento do concurso público para a construção das duas novas estações — Estrela e Santos — que o Metro de Lisboa, se tudo correr como o previsto, terá em 2023.

E uma coisa rara aconteceu, todas as escadas rolantes para se descer para a estação estavam a funcionar já depois de, na segunda-feira, ter ficado concluída a sua “primeira fase de modernização”. Na plataforma, aconteceu o que qualquer utente mais deseja: chegar ao mesmo tempo que o metro, assim, sem ter de esperar um segundo. 

É precisamente para melhorar os tempos de espera de quem se desloca no centro da cidade, assim como o acesso a quem vem de fora, que se ligará o Rato ao Cais do Sodré, formando esta linha circular, acreditam os governantes. Que, além de fazer da linha verde um anel, reduzirá a Amarela ao troço Telheiras-Odivelas.

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Concluídos os trabalhos, que implicam a construção de um túnel com 1956 metros, será possível viajar entre o Cais do Sodré e o eixo central da capital sem necessidade de transbordo. E essa é para os governantes a grande mais-valia do projecto. Não é um mero prolongamento da rede de metro, mas sim um “investimento” que é “a base para toda a expansão da rede do metro”. “Era o passo a dar antes de todos os outros. Não fazia sentido expandir para a periferia sem robustecer o centro da cidade”, considerou o primeiro-ministro, António Costa, durante a sessão pública de abertura do concurso.

“Este é o investimento que melhor estrutura a rede do metro para o curto e longo prazo em conjugação com outros modos de transporte”, acrescentou, por sua vez, o ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, que tutela os transportes urbanos. 

A mesma ideia foi também reforçada pelo presidente da câmara, Fernando Medina. “Não é uma decisão qualquer em termos de expansão. A opção pela linha circular vem estabilizar o mais poderoso instrumento de mobilidade de Lisboa, a partir do qual tudo será possível realizar”, disse o autarca. Refuta assim as vozes que criticam que a primeira expansão do metro em mais de dez anos vá privilegiar a mobilidade no centro da cidade, deixando de fora outras zonas da cidade que não têm tantas opções de transporte público como o centro. 

Os trabalhos deverão ficar concluídos em 2023, apesar de o primeiro-ministro não se querer comprometer com esta data porque basta haver algum contratempo para que os prazos derrapem. O próprio presidente do Metropolitano de Lisboa, Vítor Domingues dos Santos, admitiu, numa entrevista ao PÚBLICO em Novembro, que as obras pudessem estar concluídas apenas em 2024. 

O projecto de expansão deverá custar 210 milhões de euros, contando com duas fontes de financiamento: 83 milhões comparticipados pelo Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso dos Recursos (POSEUR), 127 milhões pelo Fundo Ambiental. E deverá pôr a viajar de metro mais nove milhões de passageiros por ano.

Para o autarca de Lisboa, esta opção “não compromete” outros projectos, como a expansão da linha vermelha de São Sebastião até Alcântara ou a expansão da amarela até ao Colégio Militar. Matos Fernandes pôs mesmo nas mãos da câmara a decisão sobre os futuros prolongamentos da rede: “Será a Câmara de Lisboa a definir se pretende priorizar a expansão para Alcântara em relação a outra”, assinalou o ministro. 

Se este anel que será criado é apontado pelos governantes como uma opção que beneficia quem vem de fora da cidade, tanto de Oeiras ou Cascais, como da outra margem, de barco, também é certo que, antes da obra pronta, a capital vai ter de viver com desvios de tráfego rodoviário e da linha de Cascais, estaleiros a céu aberto, ruído e vibrações para a escavação do túnel e das estações.

O estudo de impacto ambiental (EIA), que analisa o impacto da obra, admite ainda que possam vir a existir “danos ou eventuais colapsos” em troços do aqueduto e do chafariz da Esperança, que têm de ser “recuperados no final dos trabalhos”. O próprio jardim da Estrela é visto como uma zona sensível. 

Quanto a tempos, o EIA refere que a nova linha circular verde terá um tempo de espera entre composições de 3 minutos e 50 segundos, inferior aos actuais 5 minutos e 35 segundos. No entanto, os utentes da actual linha amarela a norte do Campo Grande, que serão obrigados a mudar de linha para poderem prosseguir viagem para o centro, verão um aumento do tempo de espera dos actuais 4 minutos para os 4 minutos e 15 segundos. 

A semana ainda vai a meio e o Governo já fez três anúncios em matéria de obras públicas: o lançamento do concurso público para a compra de 22 automotoras para serviço regional da CP, o novo aeroporto do Montijo e a expansão do metro. António Costa nega que tenha arrancado já a campanha eleitoral, admitindo que estes investimentos públicos estão a ser anunciados agora porque "felizmente, hoje o país tem condições financeiras para o poder fazer".

Trabalhadores estão contra linha circular

Desde que Governo e câmara de Lisboa apresentaram a futura linha circular do metro da capital, partidos políticos (à excepção do PS), trabalhadores da empresa e especialistas têm-se manifestado repetidamente contra a opção.

No entender da Comissão de Trabalhadores do Metropolitano de Lisboa​ e da Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (Fectrans) esta opção não mereceu os estudos científicos necessários que comprovassem o impacto desta decisão.

"Nesta proposta de expansão de rede do Metro faltam os projectos e estudos científicos sobre o impacto no factor humano (trabalhadores e utentes) que resulta do novo modo de funcionamento na nossa rede que deixa de operar num sistema de linhas, com dois terminais cada e passa a uma linha circular sem qualquer cais terminal", aponta a Comissão de Trabalhadores do Metro, em comunicado. 

Os trabalhadores referem ainda que além da ausência de estudos científicos a suportar a opção pela "Linha Circular" existem pareceres que apontam no sentido contrário. E vão mais longe ao afirmarem que as opiniões sobre a construção deste anel que têm sido divulgados “são contrárias” a esta expansão, “traduzindo-se em apreciações e pareceres de agentes políticos de variadas sensibilidades, de autarquias, de reconhecidos técnicos e urbanistas e de utentes”. “São valiosos contributos que deveriam ser considerados de modo a responder a esta expansão", defendem os trabalhadores.

Também a Fectrans defende a expansão da rede do metro, mas considera um erro que "num momento em que muito falta para repor os níveis de manutenção e segurança se dê prioridade a uma obra que nem sequer tem projectos cientificamente elaborados”. 

"Não podemos deixar de lamentar todo o show em torno do lançamento do concurso dos toscos para dar início à Linha Circular, realizado hoje [quarta-feira] no Alto dos Moinhos, num quadro de mais uma das cerimónias de charme que o Governo impõe como bandeira de um falso desenvolvimento na mobilidade na cidade de Lisboa", aponta a organização sindical num comunicado citado pela Lusa. 

Também o PCP voltou a mostrar a sua discordância com esta opção, argumentando que "não serve os interesses nem da cidade, nem da Área Metropolitana de Lisboa"
Em comunicado, os comunistas admitem que a opção pela transformação da linha verdade numa linha circular “desconsidera e abandona o inadiável investimento, esse sim prioritário, para o Metro até à zona ocidental de Lisboa e até Loures. Com a agravante de que a errada opção agora assumida implicará no futuro a sua correcção com o dispêndio desnecessário de recursos para o povo português”. 

Para os comunistas, esta foi uma opção “imposta pelo PS (apoiado pelo BE na CML, onde o seu voto podia ter sido decisivo para outra solução) ao arrepio do que resultou da consulta pública e da opinião alargada de técnicos". 

No comunicado, o PCP considera ainda que "falaram mais alto os interesses especulativos e a perspectiva da valorização de um conjunto de projectos imobiliários na zona das novas estações" e também "a visão de uma capital do país submetida à mono actividade do turismo".

Os comunistas anunciaram ainda que vão promover em Lisboa, no dia 7 de Fevereiro, uma audição pública sobre o projecto de expansão do metro. 

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