Análise

A tempestade perfeita

O que há de dramático nesta crise profunda é a coincidência entre a versão eurocéptica dominante nos dois grandes partidos britânicos.

1. Com a votação de terça-feira no Parlamento britânico, o Reino Unido mergulhou ainda mais fundo numa crise de identidade para a qual só dificilmente se pode imaginar um fim que lhe devolva o estatuto europeu e internacional que ainda mantém. A pergunta recorrente é: como foi isto possível? A resposta talvez só possa ser encontrada em torno da palavra Europa e na rara coincidência temporal nos dois grandes partidos - Tory e Labour – de fortes correntes eurocépticas pouco disponíveis para apresentar uma alternativa clara a um abandono da União, cujo sentido político e estratégico se perdeu ao longo dos últimos dois anos.

2. Depois da II Guerra, perdido o Império e confrontado com um mundo bipolar definido pelo confronto entre duas superpotências, o Reino Unido passou as duas décadas seguintes a tentar encontrar o seu novo lugar no mundo, que deixara de ser na primeira fila - entre o estatuto de parceiro menor do novo Império Americano ou ser parte integrante de uma nova Europa democrática que iniciava o seu processo de integração.

Winston Churchill foi o primeiro a apontar esse caminho no seu discurso do Congresso da Haia, em 1948. Com uma particularidade: os “Estados Unidos da Europa” que defendeu seriam uma receita apenas continental. Churchill era um homem do Império que acreditava no destino particular dos povos anglo-saxónicos. E o seu país acabava de salvar a Europa de si própria pela segunda vez em trinta anos. A “relação especial” com os EUA marcou as décadas posteriores à guerra e nem a adesão tardia à então Comunidade Europeia (só concretizada em 1973) alguma vez a pôs em causa.

Quando Tony Blair, o mais europeísta dos líderes britânicos, teve de escolher entre os dois lados do Atlântico, não hesitou, mesmo que o tivesse feito também “em nome da Europa”. O Labour, que refundou em 1994, teve de esperar pelo final dos anos 80 e sofrer três pesadas derrotas eleitorais para afastar da liderança a sua facção eurocéptica: contra a Europa, mas também, ao contrário dos conservadores, contra a aliança transatlântica.

3. Foram os tories, pela mão de Edward Heath (1965-75), que lideraram o processo de adesão à Comunidade. Foi o seu sucessor em Downing Street, o trabalhista Harold Wilson, quem colocou a adesão a referendo (1976) na tentativa de resolver a crise interna do Labour em torno da questão europeia. A adesão foi ratificada por uma ampla maioria.

Margaret Thatcher, eleita em 1979, alimentou uma cultura de desconfiança em relação a Bruxelas, mas nunca lhe passou pela cabeça abandonar a Comunidade. Queria modificá-la por dentro ao gosto britânico, acentuando a sua dimensão económica e rejeitando qualquer veleidade de integração política.

As suas “brigas” com Bruxelas ficaram famosas. Mas o seu célebre discurso de Bruges (1983) não tinha nada de antieuropeu. Foi já o seu sucessor, John Major, quem renovou o compromisso britânico com a construção europeia ao negociar o Tratado de Maastricht, o grande salto em frente que pretendia ser a resposta à implosão do comunismo e ao fim da ordem de Ialta e que incluía o euro.

Os trabalhistas continuaram por mais algum tempo manietados por um programa radical, anticapitalista, antimilitarista, antieuropeu e anti-NATO, defendendo o desarmamento unilateral, incluindo a capacidade nuclear britânica. Ontem, em Westminster, Michael Gove, membro do Governo de May, recordou impiedosamente, ponto por ponto, esta velha tradição do Labour da qual Jeremy Corbyn é o herdeiro, ainda que devidamente adaptada às novas circunstâncias de um partido onde prevalece uma forte corrente pró-europeia.

Mas só o corte radical operado por Tony Blair em 1994 abriu finalmente as portas do poder ao “novo” partido. A questão europeia foi resolvida a favor da Europa, precisamente quando a Europa voltava a acentuar a clivagem entre os conservadores. “O lugar do Reino Unido é no coração da Europa”.

Entretanto, na oposição, os conservadores iam “enterrando” seus líderes, de eleição em eleição, remoendo a velha questão europeia sem lhe dar um rumo no qual os britânicos pudessem confiar. Sucederam William Hague, Ian Duncan Smith e Michael Howard.

David Cameron cortou com o passado, como Blair tinha cortado em 1994, oferecendo uma visão mais moderna da vida e do mundo e clarificando a questão europeia. Os conservadores regressam ao poder em 2010. A pertença à União nunca esteve em causa. Mas a tentativa de aplacar a revolta dos eurocépticos do seu partido, oferecendo-lhe o isco do referendo, acabou por ser a sua “morte”.

Ontem à porta de sua casa, quando se preparava para a corrida matinal, disse aos jornalistas: “Obviamente que lamento que tivéssemos perdido o referendo. Lamento-o profundamente. Liderei a campanha para ficarmos na União Europeia.” Theresa May, que lhe sucedeu com a missão de negociar a saída, acabou por incorrer no mesmo erro: ao querer aplacar a ala antieuropeia dos tories com as suas “linhas vermelhas”, acabou enredada nelas. E não aplacou ninguém, como se viu na terça-feira.

4. Para Jeremy Corbyn, aproxima-se a passos largos o momento da clarificação. A pressão para que defenda um novo referendo aumenta todos os dias. Novas eleições obrigá-lo-iam a clarificar o que faria de diferente. O que há, pois, de dramático nesta crise profunda é a coincidência entre a versão eurocéptica dominante nos dois grandes partidos. A condição para uma tempestade perfeita. Como disse Anna Soubry, conservadora pró-europeia, "a politica britânica vive na era dos extremismos".