Saborear Montalegre às portas de Braga

Experiência obrigatória para os amantes das carnes. Em local improvável, os produtos e sabores da região do Barroso na sua versão mais saborosa, simples e genuína.

Fotogaleria
Nelson Garrido
Fotogaleria
Nelson Garrido
Fotogaleria
Nelson Garrido

O sítio é improvável e a ementa não lhe fica atrás. A invocação dos sabores remete inevitavelmente para o gado, os prados, o casario rústico e lareiras das aldeias transmontanas do planalto do Barroso, mas é precisamente esse o imaginário que vamos encontrar em contexto urbano, no subúrbio de Braga. É na loja de esquina de uma urbanização difusa e meio caótica que se acomoda o restaurante Sabores do Barroso, designação que é ainda reforçada com a indicação de “sabores genuínos” e garantida pela família Miranda, vinda de Montalegre.

Foi, pois, em Vimieiro, ultrapassado o Parque Industrial de Celeirós, que se instalou este recanto que oferece produtos e sabores barrosãos, na sua versão mais simples e genuína.

Comandam as brasas - sempre incandescentes no enorme fogareiro para lá do balcão ao fundo da sala – e os nacos de carne, chouriças e alheiras vindos de Montalegre, tal como as batatas que sempre os acompanham à mesa.

E, tal como nas típicas cozinhas da serrania do Barroso, há também um delicioso arroz com nacos de carne gorda, folha de louro e o intenso refogado de cebola que puxa pelo sabor e lhe dá o tom mais escuro. Sabe a aldeia e frio e só ausência do aroma fumado impede que se diga ter sido mesmo feito à lareira.

PÚBLICO -
Foto
Nelson Garrido

A par dos produtos, também a enorme fotografia que cobre toda a parede lateral nos enquadra com o ambiente rural e a paisagem nevada das aldeias de Montalegre. Graças ao enorme pé direito, a loja foi dividida em dois pisos com um mezanino em madeira, podendo cada um acolher à volta de 40 comensais.

Tal como a oferta culinária, o ambiente é simples e resume-se ao essencial. Baixela correcta e com copos adequados, mesas e cadeiras confortáveis e espaço desafogado, mesmo com casa cheia como, pelos vistos, é norma. O ruído não é da casa, mas faz parte da evidente satisfação da clientela.

Aos genuínos produtos do Barroso, a ementa junta também a posta de bacalhau e o pudim abade de Priscos, afinal os símbolos maiores da cozinha bracarense.

Além do pão, manteiga e azeitonas, as entradas incluem presunto, chouriça assada, alheira e salpicão (5€ cada). E se a alheira, crocante e de gordura saborosa, logo nos transporta para Montalegre, o presunto e o salpicão já de lá não nos deixam arredar pé. Come-se à mão, lambem-se os dedos e só mesmo a ausência do crepitar da lareira nos devolve à realidade. O presunto, bem cortado, macio e gorduroso é uma delícia (e um privilégio, já que raramente se pode apreciar na genuína versão fora da região).

Para as carnes, costeleta à Barroso, ilhada grelhada e a tradicional posta compõem a oferta que sublima o sabor único das carnes barrosãs.

É que se bifes e carnes há muitos, a conversa é sempre outra quando se trata da vitela do Barroso. Isso mesmo destacava nestas páginas, já lá vai uma década, o saudoso David Lopes Ramos a propósito dos bifes de Lisboa e das várias formas de os preparar.

“Mais do que estes bifes, e talvez mais deliciosa do que eles devido à alta qualidade sápida da carne, só a transmontana e alto-duriense ‘posta’. Carne, melhor se de vitela barrosã, cortada em bife alto e assada nas brasas. Há cada vez mais quem a sirva com um molho de azeite, vinagre, alho e malagueta. Mas este prato de feiras e romarias, que costumava ser servido com batatas assadas com a pele no borralho, não precisa, como molho, de mais do que aquele que ressumbra da carne."

Não há, de facto, molhos nem complementos a acompanhar as carnes de grelha neste recanto suburbano dos sabores do Barroso. Cozinha básica, simples, a destacar apenas as qualidades do produto e a fazer com que o sabor e aroma das carnes sumarentas nos inundem o palato. A posta (13,50€ em meia dose avantajada) acompanha com batata frita em rodelas - bem secas e estaladiças - e o tal arroz com louro e carne gorda. E assim acontece também com a costeleta (11,50€) ou a ilhada grelhada (8€).

E se com a posta o molho da carne de vitela - macia, rosada e perfumada - torna ainda mais único e saboroso aquele arroz de refogado intenso, já as carnes de músculo mais vermelho da costeleta indicam tratar-se já de peça de boi ou vitelão. Com mais idade, sabor mais complexo e a carne sumarenta quase gelatinosa em resultado de um cozinhado perfeito que nos calhou em sorte.

PÚBLICO -
Foto
Nelson Garrido

Já a ilhada grelhada (8€), num corte transversal da costela mendinha, mostra uma outra versão do sabor e perfume da vitela. Destaca o sabor - intenso e quase adocicado do pasto –, a textura fibrosa e macia, com a envolvência crocante a deixar rebentar depois na boca o suco gorduroso, intenso e saboroso.

Como acrescento às carnes barrosãs, também o ícone da cozinha local faz parte da ementa. Em meia dose (12€), o bacalhau à moda de Braga mostrou-se de execução impecável. Posta inteira, fritura correcta a deixar as carnes crocantes com as lascas inteiras a deslizar na gelatina interior e molho de cebolada a equilibrar de forma correcta a doçura e acidez avinagrada. Muito bem! A posta do gadídeo pode ser também servida assada ou cozida com todos.

Numa oferta igualmente contida de sobremesas, surpreende também pela positiva o exemplar pudim abade de Priscos (3€).

Para os amantes das carnes, esta é uma experiência obrigatória, mesmo em contexto simples e despretensioso e com o entusiasmo ruidoso da clientela.

A proposta de vinhos é igualmente contida, mas com critério e adequação e a preços sensatos, incluindo espumantes.

Além de proporcionar uma estimulante e saborosa experiência gastronómica com os genuínos sabores e produtos do Barroso, a clientela pode também agradecer à família Miranda o serviço caloroso, atento e eficiente.