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Pelos trilhos de quem fica depois de as bruxas partirem

Quando a sexta-feira se casa com o dia 13, em Montalegre há festa rija. Mas, por ali, todos os dias se casa a natureza do Gerês com quem a soube moldar — em comunidade. E isso é motivo de visita (a sério, até para as bruxas).

Nas primeiras vezeiras de Domingo Laja, eram muitos os homens e ainda mais as cabeças de gado. Os homens (porque à frente tinha sempre de ser um homem) guardavam o gado dia e noite. Conforme o número de vacas que juntavam à manada, podiam ser mais os dias e mais as noites longe de casa, a zelar pelo que era dos outros, da mesma maneira que zelavam por o que era deles. A aldeia de Fafião, da freguesia de Cabril, concelho de Montalegre, era (é?) um exemplo de comunitarismo.

“Ninguém tinha nada que fosse só dele.” Partilhavam-se os terrenos baldios e o “touro de cobrição”. Era um “paraíso”. Era uma imposição à “sobrevivência”. Era um feliz exemplo dos dois. Pouco interessa; fosse o que fosse, “era-o antigamente” e agora “já levou muito tombo, muito tombo”. Isto é, “muita volta”, explica-nos, com as mãos a exagerarem o movimento da roda, como se quisesse garantir que estávamos a perceber bem o que nos queria dizer. Porque aquilo tudo lhe “diz muito”.

Confia que estamos a seguir e só por isso é que continua a explicação. Ajeita a boina. “Ora bem, no primeiro domingo de Maio é feita uma reunião dos compartes que fazem parte da dita vezeira.” Nove, no ano passado. Trinta, há 50 anos, lembra-se. “É feita essa dita reunião e, mais ou menos no sábado seguinte, se estiver bom, põe-se a vezeira.”

Leva-nos para fora da garagem. Caminha seguro, mãos nos bolsos. “Ela sobe para as malhadas, as mais longe são por trás daquele morro que tem neve, vê?” Estica mais o dedo. Os transportes ainda “chegam aos currais de Salgueiro e Pinhô”, mas depois “só apeado”. Os trilhos “para pessoas e animais” estão sinalizados por mariolas. O da Vezeira, identificado como de dificuldade elevada, estende-se por 20 quilómetros e meio, com uma cota mínima de 500 metros e máxima de 1260. Aconselha-se a que seja feito com um guia. “É duro.” Sai do centro da aldeia, passa pelo Fojo dos Lobos, um marco histórico bem conservado, constituído por dois muros convergentes, que hoje simboliza a luta entre os habitantes e o animal, e segue serra acima, passando pelas cabanas de pedras empilhadas onde os pastores pernoitam. Misturam-se na montanha e são quase todas diferentes, dependendo do que se conseguiu aproveitar do estado natural do terreno.

“E então isto modificou muito. Agora deixamos de guardar, o gado fica sozinho, principalmente a partir de Julho [a vezeira dura até Setembro]. Só fica acompanhado nos meus dias e de mais de dois ou três que aí temos.” Domingo Laja, 67 anos, acredita que este sistema rotativo de pastorear o gado “continuará a aguentar-se”. Mas “ao deus-dará”. De oito em oito dias, menos espaçadamente se algum animal não estiver bem. A razão já tem barbas e orelhas quentes: porque a “juventude de hoje não se dedica a isto”. Quando era mais novo, aos 12 anos, ele gostava de acompanhar o pai. “Gostava, gostava.” Não há lamentos nesta conjugação do verbo. Até porque ainda nada está “enterrado”.

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Domingo Laja Renata Monteiro

É esta linha de museu vivo que o centro interpretativo Vezeira e a Serra — um dos pólos do Ecomuseu de Barroso, que estende vários tentáculos na região formada pelos concelhos de Montalegre e de Boticas — quer seguir, equilibrando a “actividade pastoril com a turística”. Em Fafião, aldeia de “montanha muito agressiva”, inserida no Parque Nacional da Peneda-Gerês, é-se mais minhoto que transmontano (o trilho da “construção popular”, cerca de 8,5 quilómetros, atravessa as duas regiões administrativas). “Somos a parte do Barroso que eles dizem que fica longe”, brinca Lino Matos Pereira, da associação Vezeira-Fafião. São eles que promovem actividades que põem em contacto visitantes e moradores, algumas relacionadas com a preservação do próprio património “desta reserva da biosfera”, como a plantação de árvores ou a recuperação dos currais. Para que a aldeia comunitária “seja realmente de todos”.

“Entre quem é”

Quem também queria mais mãos a ajudar era Gracinda Marinho, 48 anos, “pitonesa a 100%”. Tivesse-as e metia lenha no forno comunitário da aldeia de Pitões de Júnias (a cerca de 40 quilómetros de Fafião, a nossa primeira paragem) muitas mais vezes. Sem elas, “amassa de vez em quando” em casa a massa que, depois de moldada, leva para cozer no casebre de granito. “É o forno do povo mas só eu é que o utilizo.” Quarenta e cinco minutos a amassar, três horas a levedar e uma hora e meia a cozer na pedra. Sessenta pães de Pitões de dois quilogramas. São estes os andamentos até o cheiro do pão de centeio quente, grande, em que só entram fermentos naturais, atrair o resto da aldeia ao forno (dois euros e meio a unidade). Se aguentar sem o comer, “dura três semanas”. E tem de durar, que Gracinda não vai ao forno todas as semanas. É um trabalho “mais difícil” do que o que tem todos os dias na padaria, que rouba o nome à aldeia. A carrinha que distribui o pão pelas aldeias está estacionada à porta. Fica na rua acima do forno comunitário, a do Outeiro. Ela cresceu numa casa entre estes dois lugares. Foi para França, voltou passados dez anos. “Viver em Pitões é um luxo.”

- “É um luxo, pois é”, repete Carolina, metade ironia, metade certeza.

Aos 30 anos, estava Gracinda para nascer e já ela “amassava muito”. Agora fica à porta para comprar e abre-se um sorriso quando vê o casebre cheio de gente. Como dantes.

- “Entre quem é!”

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Cecília Reis, artesã Renata Monteiro

Era ali que costumavam “aquecer os pés” quando a neve os encurralava. A que ali caía naquele sábado, segura, seguida, não chegava a cobrir a base das couves. Caia os telhados de branco e forma pequenos murinhos colados à base das casas, mas é só isso. “Uma nevezita”. Parece a geada que cobre os baldios pela manhã, mas fica todo o dia. Tão-pouco impressiona Cecília Reis, 72 anos, que ali vem ao longe, saco de ir à horta na mão. “Já vai, já vai.” Apressa o passo. Não nos perguntou quem éramos antes de nos abrir a porta de casa. Até porque pode ter lá dentro algo que nos interesse levar. Encosta-se ao tear, mãos descansadas na barriga, voz como um sopro (e que bem que se ouve o vento a soprar lá fora) e começa a lengalenga: “Vendo as mantas de lã; de trapos; as passadeiras; as capas castanhas de burel; os aventais.” Tem-nas todas expostas no anexo da casa, a seguir ao restaurante Casa do Preto, na parede atrás do tear. É artesanato — “a menina a ver isto já vê que não é coisa de fábrica” — feito com mãos laboriosas e materiais resistentes, mas quem chega “não dá valor”. “Se a gente pede dinheiro por metade do tempo que passou ao tear dizem que é muito caro.” Um tapete custa 13 euros, as mantas de lã, muito maiores, 150. “Mas a aldeia está melhor do que quando cresci. Tem menos gente, mas está mais desenvolvida”, afiança.

Em cascata

Por esta altura, as cascatas parecem “brotar das pedras”. “Furam-nas! Água mole em pedra dura…” É esta disputa que se ouve na aldeia de Pincães, Cabril, no PNPG, quanto mais próximos chegamos da cascata com o mesmo nome. A água, gelada, forma uma lagoa transparente (não se esqueça de dar um mergulho) e, ao cair, rompe o silêncio com um estrondo. Não há que enganar: para lá chegar, a partir da povoação, basta quase “seguir o regadio” — e, a partir de certa altura, o barulho. De Fafião, segue-se pela E.N 308 no sentido de Cabril. Sai-se do carro na aldeia. A partir dali é um trajecto de baixa dificuldade, cerca de dois quilómetros, ladeado por florestas cerradas de bétulas, quercíneas e medronheiros e que passa por várias outras cascatas, nenhuma tão grande como a queda de água que parece dividir o monte. Bem sabemos que este passeio se quer na natureza, mas vale a pena parar para espreitar o lagar de azeite da comunidade, recuperado e ainda em funcionamento, onde em Janeiro se realiza uma festa dedicada ao produto.

Em Pitões, a água também cai entre a montanha. Vem do ribeiro, o mesmo que passa junto ao Mosteiro de Santa Maria das Júnias, e é ainda mais fácil apreciá-la: há até um parque de estacionamento, 600 metros antes do fim do passadiço de madeira que dá acesso ao miradouro. Fique por lá, a respirar o ar desse pulmão que é o Gerês, longe de diabos e bruxas, ao pé de sapos e corujas.

A Fugas viajou a convite do Turismo do Porto e do Norte de Portugal