Paulo Trigo Pereira deixa bancada do PS e passa a deputado não-inscrito

Deputado diz que houve um “afastamento mútuo” entre si a direcção do grupo parlamentar socialista por causa das votações divergentes e que um dos sinais foi não ter sido escolhido para intervir sobre o orçamento quando é vice-presidente da comissão de Orçamento. E garante: “O meu apoio a este Governo, com a crítica construtiva e a divergência, sempre que necessária, é inquestionável.”

Foto
Nuno Ferreira Santos

O deputado independente eleito pelo PS, Paulo Trigo Pereira, anunciou que vai sair do grupo parlamentar (GP) socialista e tornar-se deputado não-inscrito. Mas garante: “O meu apoio a este Governo, com a crítica construtiva e a divergência, sempre que necessária, é inquestionável.” O deputado assume um ambiente algo crispado com a direcção da bancada parlamentar, presidida por Carlos César: “Os meus votos desalinhados, mas justificados em declarações, levaram a um afastamento mútuo entre mim e a direcção do grupo parlamentar do PS.”

Trigo Pereira comunicou a sua decisão na quinta-feira ao secretário-geral do PS, António Costa - que o convidara para integrar as listas de deputados -, ao líder parlamentar e presidente do PS, Carlos César, e ao presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.

Poderá ler este sábado no PÚBLICO a entrevista a Paulo Trigo Pereira com as explicações do deputado para esta decisão que, diz, estava a ser ponderada há alguns meses.

De acordo com um comunicado do deputado a que o PÚBLICO teve acesso, Trigo Pereira demite-se também de vice-presidente da Comissão de Orçamento e Finanças (COFMA) já que o cargo lhe estava atribuído como deputado socialista.

Mas este afastamento do grupo parlamentar do PS não implica que o deputado fique de costas voltadas para o partido pelo qual concorreu nas listas pelo distrito de Setúbal. No texto, Trigo Pereira garante: “Cumpri e continuarei a cumprir, escrupulosamente, a disciplina de voto e o compromisso ético que subscrevi antes de ser eleito como deputado independente nas listas do PS.” Ou seja, continuará a votar alinhado com os socialistas nas questões previstas no programa eleitoral e no programa de Governo.

O deputado aponta ainda as consequências do “afastamento” devido aos seus votos divergentes. “Quando a direcção do grupo parlamentar do PS não dá a palavra em plenário ao seu vice-presidente da COFMA nos debates mais importantes sobre finanças públicas (OE2019 e Programa de Estabilidade), como aconteceu este ano, e não esclarece porque é que certas propostas de alteração ao OE2019 são rejeitadas, está esclarecido o lugar que a direcção do GP atribui ao seu vice-presidente.”

Mas isso não o demoveu, afiança. “Fiz questão de participar activamente neste quarto e último OE da legislatura. O meu apoio a este Governo, com a crítica construtiva e a divergência, sempre que necessária, é inquestionável. Apenas esse apoio deixará de ser feito através do GPPS, onde fiz alguns bons amigos e tenho elevada estima por muitos outro(a)s colegas.”

O Governo paternalista

Sem especificar desentendimentos claros com a direcção da bancada, Trigo Pereira traça, no entanto, um cenário cinzento. Afirma que “particularmente nos últimos dois anos, a atitude do Governo perante o grupo parlamentar do PS tornou-se mais paternalista (vide todo o processo de descentralização)”.

O deputado vinca que durante estes assumiu “completamente a exclusividade” do mandato e que deu o que sabe tanto no grupo parlamentar do PS como na vice-presidência da COFMA; e que se dedicou “na medida das possibilidades” a Setúbal, o círculo por que foi eleito.

“Nunca ambicionei um cargo político e a minha entrada na AR como deputado foi acidental. Como é sabido, tudo começou pelo convite do PS para integrar o grupo de economistas coordenado por Mário Centeno para prepararmos o cenário macroeconómico que entregámos em Abril de 2015, e que enquadrou a parte orçamental do programa eleitoral do PS”, recorda Paulo Trigo Pereira. “Mais tarde António Costa convidou alguns dos elementos independentes desse grupo (Centeno, Caldeira Cabral e eu próprio) a integrar a lista de deputados.”

“Depois de mais de três décadas na academia, ensinando entre outras coisas, economia das instituições (incluindo economia política), e tendo uma curiosidade académica pelo funcionamento do sistema político considerei útil esta mudança temporária de actividade como duplamente interessante: ao mesmo tempo que poderia contribuir como deputado para a actividade legislativa e fiscalizadora do executivo, poderia compreender melhor o funcionamento da principal ‘casa da democracia’”, acrescenta.

Notícia actualizada às 20h20 com o comunicado do deputado