Vox, cinco anos à espera de poder gritar “os espanhóis, primeiro”

Começou a “Reconquista" de uma Espanha “sem complexos”, à procura de recuperar “o seu lugar no mundo”. Pela defesa do “homem heterossexual” contra a “jihad feminista”, pelo “patriotismo” contra o “clientelismo”.

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Santiago Abascal REUTERS/Marcelo Del Pozo

Vieram para ficar, prometem. E o mais certo é terem razão. Afinal, Santiago Abascal e os seus lugares-tenentes tiveram a virtude da paciência e souberam esperar pelo contexto propício à explosão do partido que fundaram há cinco anos – vão cumprir-se no dia 12 – com um programa baseado na defesa das ideias de Espanha e Família e na Luta ao Terrorismo.

Hoje, o partido que acaba de surpreender Espanha ao conseguir levar a extrema-direita para um parlamento autonómico, e logo com 12 deputados, nas eleições de domingo na Andaluzia, é anti-imigração, anti-feminista e anti-aborto, quer derrogar as leis da violência de género, dos direitos LGTBI e da memória histórica, e propõe ilegalizar os partidos independentistas e acabar com as autonomias, o modelo de Estado que garantiu a transição para a democracia.

A última etapa da vida do Vox começou com o processo catalão, a maior crise política no país desde o fim do franquismo, foi impulsionada com o debate sobre a Lei da Memória Histórica e a exumação de Franco do Vale dos Caídos (iniciado pelo actual Governo do socialista Pedro Sánchez) e com o histórico 8 de Março deste ano em Espanha, quando milhões de homens e mulheres saíram à rua num tsunami feminista.

Se a tempestade perfeita não estivesse formada, o Partido Popular e o Cidadãos ajudaram ao avisar para “a invasão de imigrantes” que provocaria o gesto de Sánchez que, mal-chegado ao poder, se ofereceu para receber 630 requerentes de asilo resgatados do mar que Itália e Malta se recusavam a acolher.

“Os espanhóis, primeiro”, resumiam os jornais quando a 8 de Outubro o partido juntou no Palácio Vistalegre de Madrid 10 mil apoiantes, numa demonstração inédita de vida. Um dia depois, o ex-chefe de Governo José María Aznar lamentava que a direita estivesse dividida em “três partidos”, num claro reconhecimento do Vox. Abascal, líder da formação de extrema-direita, foi protegido de Aznar e considera Mariano Rajoy “um traidor” que encostou o PP à direita e não teve “mão forte” na Catalunha.

Depois de Aznar, veio a legitimação da direita constitucionalista, mais o PP do que o Cidadãos, pela voz dos actuais dirigentes. Pablo Casado, que substituiu Rajoy, afirmou-se amigo de Abascal, companheiro de décadas no PP, e apelou, como ele, aos votos “da Espanha que madruga” (fórmula estreada por Nicolas Sarkozy em França e recuperada por Marine Le Pen em 2017), assumindo partilhar “muitas ideias, muitos princípios”. “Fomos nós que os [Vox] metemos na campanha”, lamentou-se ao jornal online infoLibre um líder regional conservador. Como é habitual, os eleitores preferiram o original à cópia.

Uma ditadura?

Apresentando o patriotismo como remédio para quase todos os males, o Vox tornou-se no lugar político “mais confortável para gritar 'Viva Espanha!'” como descreveu um jornal na noite eleitoral (os resultados foram recebidos a gritos de “Viva España, coññññño”).

Em Junho, em pleno debate no Parlamento sobre a exumação de Franco, Abascal comentava: “Falam os progressistas de todos os partidos sobre desenterrar Franco e fazer desaparecer o Vale dos Caídos. A partir do Vox lançamos uma mensagem muito simples: Deixem os mortos em paz, liberdade aos espanhóis, e a História aos historiadores. Bestas!” No programa andaluz, defende-se que “nenhum parlamento está legitimado para definir o passado” e que “é preciso homenagear conjuntamente todos os que, a partir de perspectivas históricas diferentes, lutaram por Espanha”.

Um dos seus candidatos agora eleitos, o veterinário Eugenio Moltó (que chegou a ser suplente do PP nas municipais de 2011) afirmou numa entrevista ao diário Sur que, na sua opinião, “o franquismo não foi uma ditadura”; outros candidatos também preferem descrever Franco como “político autoritário, não um ditador”.

No programa andaluz, umas seis páginas com alguns dos cem pontos apresentados no comício do Vistalegre, diz-se que “a Reconquista começa na Andaluzia” e apela-se ao voto de “todos os espanhóis que desejam uma Espanha unida em permanente progresso material e moral, dotada do prestígio e da influência que lhe correspondem no mundo pela sua envergadura histórica, cultural e económica”.

“Muro” e “ilegais”

“É preciso construir um muro em Ceuta e Melilla” (a fronteira com Marrocos já dividida com uma cerca de arame farpado e com uma vala) ou “necessitamos de um muro intransponível” - esta é uma das grandes promessas sobre imigração e política de refugiados marteladas pelos dirigentes do Vox na campanha andaluza.

Isto porque “o multiculturalismo não funciona” e “a imigração é uma autêntica invasão que pretende substituir-nos” e os “imigrantes vêm para receber ajudas, não para pagar pensões” - a Andaluzia tem um rendimento mínimo de 420 euros que beneficia tanto espanhóis como imigrantes, desde que regularizados (o partido quer expulsar os “ilegais”).

Numa entrevista ao diário El Mundo, o jornalista perguntou a Abascal “quanta foi a imigração ilegal em Espanha em 2017”. O político não sabia, o jornalista esclareceu que representou “4,5% do total”, pouco para justificar o medo de uma “invasão”. Não faz mal: Abascal não hesitou e deu uma resposta esclarecedora: “Pomos os dados de quarentena”.

Os melhores resultados do Vox aconteceram em cidades com mais de 20% de população imigrante, gente que na sua maioria trabalha nas estufas a ganhar menos do que o mínimo nacional à hora – vários jornais encontraram empregadores destes mesmos imigrantes que assumem ter votado Vox.

Homem zangado

Pouco presente na campanha andaluza, a luta contra o que os dirigentes do Vox chamam “ideologia de género” é um dos pilares deste projcto político. O partido defende a anulação da Lei de Violência de Género, a eliminação da “política de quotas que humilha as mulheres” e perseguição das denúncias falsas (de violência doméstica”) - um “flagelo”, dizem, responsável pelo aumento do suicídio entre os homens e, por isso, um verdadeiro “genocídio” ou “holocausto lento”.

As denúncias falsas representam em média 0,01% num país em que todos os anos dezenas de mulheres são mortas pelos seus companheiros, mas os dados contam pouco para a retórica.

O candidato do partido à Junta da Andaluzia, Francisco Serrrano, é um ex-juiz condenado por prevaricação por ter alterado o regime de visitas de uma criança para que pudesse participar com a família paterna numa procissão durante a Semana Santa sem ter sequer ouvido a mãe. Diz ser vítima de “jihadismo de género” e fala, como outros eleitos do partido para o parlamento autonómico, da “jihad feminista” e do “feminismo radical de esquerda formado por lésbicas violentas e ressentidas que levam o dinheiro público”.

O Vox defende o fim de quaisquer apoios públicos a associações de defesa do direito das mulheres. Também quer acabar com o aborto, pelo menos às custas do Estado, e Serrano já disse que “dedicar um dia ao aborto seguro é como dedicar um dia ao holocausto bem planeado”. Antes de ser eleito no domingo, trabalhou como advogado defendendo vários acusados de violência contra as mulheres. Dois em cada três eleitores do partido são homens.

Abascal diz que os eleitores de todo o país vão ver no Vox o partido que “expulsou o clientelismo do PSOE” na Andaluzia, mas sabe que a campanha que funcionou na grande região do Sul (com ênfase na defesa das tradições, como a tauromaquia e os valores católicos) não tem tanto efeito noutras zonas de Espanha. Mas como já fez na Andaluzia, de certeza que saberá adaptar o discurso do partido à procura de novas conquistas.