Autoeuropa carregou navio e paralisou o resto do porto de Setúbal

Embarque no terminal com capacidade de parqueamento (Ro-Ro), desbloqueado à força pela PSP, levou à paragem dos dois terminais que ainda estavam a trabalhar. Cinco navios ficaram por operar. Carregamento ficou incompleto e continua hoje.

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LUSA/RUI MINDERICO

A paralisação no Porto de Setúbal, que encerrou dois terminais durante quase três semanas, estendeu-se ontem aos restantes terminais que ainda estavam a trabalhar. O cargueiro Paglia, fretado para o transporte de carros da Autoeuropa, conseguiu embarcar alguns veículos, mas cinco outros navios, que já estavam no Sado, ficaram por operar. E a operação de carregamento repete-se esta sexta-feira.

No terminal Tersado, terminal multiusos, de carga geral, gado vivo, contentores, granel e ferro, ficaram quatro navios com os porões fechados, dois deles considerados prioritários. Um cargueiro da linha Grimaldi, de automóveis e um navio de fruta, em contentores frigoríficos, apesar de considerados prioritários, não conseguiram movimentar a carga. Neste terminal estiveram ontem acostados três navios, sendo que ao largo, no estuário do Sado mantiveram-se outros três.

No terminal da Sapec, que movimenta granéis especificamente para a fábrica desta multinacional, na Mitrena, esteve acostado também um quinto navio.

Os estivadores destes terminais são de outra empresa, a Sulset, e esta quinta-feira não trabalharam, em solidariedade com os colegas da Operestiva, a empresa de trabalho temporário com que os trabalhadores estão em conflito laboral desde dia 5 deste mês.

“Hoje [quinta-feira] tínhamos que estar aqui com eles, porque esta luta é de todos. Só não parámos porque na nossa empresa os patrões não agiram de má-fé”, disse ao PÚBLICO Paulo Dias, estivador há 22 anos, a trabalhar na Sulset, que esteve assim ao lado dos colegas do terminal Ro-Ro.

Esta sexta-feira, os terminais da Tersado e da Sapec não devem retomar ainda o trabalho. O PÚBLICO apurou que os trabalhadores eventuais da Setulset tencionam parar mais um dia e continuar o protesto junto dos estivadores da Naviport e Sadoport.

Carregamento interrompido às 22h

O embarque de carros da Autoeuropa começou por volta das 11 horas da manhã, mas fez-se de forma muito lenta, tendo ficado o total de veículos carregados muito abaixo do previsto.

O navio tinha lugar para cerca de dois mil automóveis mas, até às 20 horas de quinta-feira, pelo que o PÚBLICO apurou, estavam embarcados somente cerca de 300. Os trabalhos foram interrompidos já perto das 22h e serão retomados na manhã de sexta-feira, pelas 8h00. O objectivo de carregar o navio todo até às 1h ficou assim por terra.

Como o PÚBLICO noticiou na quarta-feira, a embarcação é considerada um “navio-fantasma” por dar entrada fora do sistema habitual em vigor na Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra (APSS), a Janela Única Portuária (JUP).

“Os trabalhadores que trouxeram ou não são estivadores ou não têm experiência de Ro-Ro”, disse Carla Rodrigues, pertencente ao estivadores em protesto, considerando o ritmo de embarque “muito lento”.

O dia tinha arrancado com a PSP a retirar do acesso ao porto de Setúbal os estivadores que se sentaram no chão para bloquear a passagem de um autocarro que transportava os trabalhadores chamados a substituir os estivadores em protesto. Os trabalhadores começaram a pegar os estivadores em braços depois de a PSP ter inicialmente afastado outros que estavam em pé, segundo a Lusa. Foram levados para uma zona lateral, ficando atrás de um gradeamento. Apesar da tensão, a maioria não ofereceu resistência e desmobilizou.

Os trabalhadores eventuais estão parados desde 5 de Novembro, exigindo um contrato colectivo de trabalho negociado entre os operadores portuários e o Sindicato dos Estivadores e Actividade Logística (SEAL). A maioria dos 150 casos são da empresa Operestiva, havendo também estivadores ao serviço da  Setulset. 

António Mariano, do Sindicato dos Estivadores e Actividade Logística (SEAL), apontou o dedo ao Governo de António Costa, acusando-o de estar “ao lado de criminosos”. À Lusa, considerou este dia “vergonhoso para a democracia portuguesa”, pela “perseguição aos sócios do sindicato, discriminação salarial e tudo mais”.

“Temos a informação de que os trabalhadores que vêm substituir os eventuais do porto de Setúbal vêm ganhar 500 euros para trabalhar três dias. Durante 20 anos nunca tiveram disponibilidade para fazer um contrato sem termo aos 150 trabalhadores eventuais do porto de Setúbal [90 da Operestiva e os restantes Setulsete]”, afirmou o dirigente sindical à agência de notícias.