A password é partilhada por todos? Deputados contestam

Emília Cerqueira assumiu ter usado a palavra-passe do colega do PSD, mas assegura que foi para consultar documentos de trabalho, e não para o registar como presente.

Emília Cerqueira
Fotogaleria
Emília Cerqueira LUSA/MANUEL DE ALMEIDA
José Silvano
Fotogaleria
José Silvano Rui Gaudencio

A deputada do PSD Emília Cerqueira veio assumir nesta sexta-feira a responsabilidade pelo registo de dois dias de presença (falsa) no plenário da Assembleia da República de José Silvano, deputado e secretário-geral do PSD, mas acabou por inflamar mais o caso, ao afirmar que a partilha de palavras-passe é uma prática banal no Parlamento como em “qualquer outra organização”. Há deputados do PSD (e não só) que discordam. E assumem que nunca partilharam palavras-passe nem que precisam de o fazer, muito menos para consultar documentos de comissões.

Um dia depois de o secretário-geral ter assegurado que não pediu a ninguém para fazer o registo da presença em plenário nos dias 18 e 24 de Outubro – quando estava em iniciativas do PSD –, Emília Cerqueira assumiu que foi a autora do registo, mas “inadvertidamente”. Em conferência de imprensa no Parlamento, em que esteve sozinha, a deputada admitiu ter a password de Silvano e de "alguns colegas" que usa para consultar documentos de trabalho sobre a primeira comissão, como “em qualquer organização”. Fá-lo no plenário e também a partir do seu gabinete. Só que, no caso dos acessos feitos através do computador no plenário, a entrada com a palavra-passe regista automaticamente a presença do deputado. E, segundo a sua versão, foi isso que aconteceu, para ter ficado registada a presença de Silvano quando este estava ausente de Lisboa. 

A deputada manteve o tom de desvalorização que José Silvano e a direcção do PSD usam sobre este caso. Os jornalistas quiseram saber se não retira consequências desta sua atitude de usar uma password de um colega, como deputada e membro do Conselho Nacional de Jurisdição do PSD, depois de os serviços informarem, através do presidente da Assembleia da República, que essa palavra-passe é “pessoal e intransmissível”. “Não vejo qual a ligação de uma questão e a outra. Não tem nada de mal. Não tem nada de errado partilhar passwords”, respondeu.

Questionado pelo PÚBLICO sobre a revelação de que a partilha de palavras-passe é uma prática frequente, o gabinete de imprensa do presidente da Assembleia da República rejeitou comentar. Só que há vários deputados do PSD, como Teresa Leal Coelho e Margarida Balseiro Lopes, a assumir que não partilham palavras-chave.

Em declarações à Lusa, o líder da bancada, Fernando Negrão, considerou o caso encerrado mas confirmou nem todos os deputados do PSD partilham a password. E admitiu que o sistema de registo de presenças precise de ser revisto.

No CDS, o deputado e porta-voz do partido João Almeida demarcou-se desta prática numa nota publicada no Facebook: “No Parlamento, como em qualquer outro lugar, cada um fala por si. Ninguém tem a minha password, nem eu tenho a de ninguém. Esta é a prática que conheço”.

Deputados contactados pelo PÚBLICO dizem não compreender a necessidade tão recorrente de entrar na rede interna com os dados de outro colega para consultar documentos das comissões, já que eles estão sempre acessíveis por email ou na intranet, mesmo que o deputado não esteja envolvido directamente no trabalho. Outros lembram ainda que há outros meios informáticos para guardar e partilhar ficheiros. 

Com uma polémica que dura há seis dias, a deputada disse não se ter apercebido das notícias no fim-de-semana (esteve ausente de Portugal) e assegurou que só esta quinta-feira à noite teve consciência do “circo mediático” do caso, após a conferência de imprensa de Silvano em que este reclamava uma investigação da Procuradoria-Geral da República. Foi só na quinta-feira à noite que telefonou a José Silvano, de quem disse ser “amiga”.

Queixas de ataque à direcção

Considerando que este caso é “um ataque directo à direcção de Rui Rio”, a deputada usou um tom agressivo para apontar o dedo aos que se “divertem tanto a acusar o deputado José Silvano” e qualificou os que agora se “preocupam tanto” com uma prática corrente como “um bando de virgens ofendidas numa terra onde não há virgens".

As justificações por parte da direcção do PSD para a mediatização deste caso das falsas presenças do secretário-geral começaram a ser dadas esta sexta-feira de manhã, seis dias depois de o Expresso noticiar o caso, e após uma semana de desvalorização. Depois de não terem estado visíveis durante semanas (Rio é que tem dado a cara pelo partido), dois vice-presidentes saíram em defesa do líder e ao ataque à comunicação social. Salvador Malheiro, também líder da distrital de Aveiro, aponta o dedo a “certos órgãos de comunicação social”, sem especificar. "Ou esses órgãos de comunicação social têm a certeza absoluta (...) de que tal prática não é replicada nos outros partidos, por outros líderes partidários - quer no presente, quer no passado -, ou então esta é mais uma prova cabal de que existem órgãos de comunicação que têm um objectivo muito claro: atingir e denegrir a actual direcção de Rui Rio", criticou na TSF.

Outro vice-presidente, David Justino, veio defender que tem existido um "conjunto de acções sistemáticas de ataque à direcção do PSD", depois de afirmar que “o PS não precisa de fazer nada para ganhar as eleições, está a ser levado ao colo”. Em declarações à SIC-Notícias, o presidente do Conselho Estratégico Nacional reiterou o que disse Rio: a questão das falsas presenças no Parlamento é "uma questiúncula". Outra leitura faz o ex-líder da bancada do PSD, Luís Montenegro, assumindo preocupação com o caso e criticando o discurso do “moralismo” de Rio: "A forma como tem gerido alguns destes casos tem-lhe retirado margem de manobra".