Editorial

As touradas e o risco das ditaduras do gosto

É esta mania politicamente correcta que estimula os extremismos e cerceia o espaço de tolerância.

As touradas entraram em força no debate do Orçamento e não foi por causa da política fiscal. Depois de a nova ministra da Cultura, Graça Fonseca, ter afirmado na solenidade do parlamento que as corridas de touros jamais beneficiariam de tratamento fiscal mais favorável por uma questão de civilização, saber se pagam 13 ou 6% de IVA tornou-se questão menor. O que agora importa sublinhar é que o Governo se dá ao luxo de usar a cobrança de impostos para estabelecer padrões de civilização. Que um estado decente use este recurso em matérias indiscutíveis (como a saúde pública ou a educação), parece pacífico. Quando entra em matérias como a dos valores civilizacionais, ou do gosto, arrisca-se a cair no paternalismo moralista que raramente encaixa nos preceitos de uma sociedade livre.

Sim, as touradas são um espectáculo hediondo, invocam instintos primitivos, sustentam-se na celebração da violência e custa a perceber como há seres humanos decentes prontos a aplaudi-las. Uma opinião desta natureza, porém, vale apenas enquanto expressão de uma sensibilidade ou de uma atitude cultural individual. Porque, do lado dos aficionados, há quem veja na arena um manifesto cultural sustentado na exibição da coragem ou da arte de cavalgar. Alguns podem não entender que esta actividade seja vista por humanistas, como Hemingway ou Picasso, como uma arte ou como uma tradição cultural. Mas isso não os deve impor o seu padrão de civilização aos outros. Coexistir com hábitos culturais que rejeitamos é uma parte indispensável da tradição das sociedades abertas.

É por isso que, mesmo que haja na apologia da ministra Graça Fonseca a melhor intenção do mundo, a sua proposta política colide com o valor da liberdade e com o direito individual ao gosto e à diversidade cultural, por bizarro e ofensivo que seja para a sensibilidade de outrem. E sim, como bem dizia Manuel Alegre ao PÚBLICO, é esta mania politicamente correcta que estimula os extremismos e cerceia o espaço de tolerância onde se valorizam as diferenças e se abrem portas aos compromissos. Ao sonegar aos outros o seu próprio sentido de civilização, por errado que seja, a ministra Graça Fonseca pode dar lastro aos novos devaneios do PAN ou de outros partidos que fazem do sectarismo receita; mas não contribui para a imagem de partido de massas, aberto e pluralista, que o PS ainda reclama para si.

ND - Este editorial foi actualizado às 10h30. A versão original transcrevia erradamente as declarações da ministra Graça Fonseca, que defendeu a manutenção da actual taxa de IVA para as touradas “não por uma questão de gosto, mas de civilização”, quando no editorial original se lhe atribuía a opinião de que em causa estava uma questão de gosto e de civilização.