“Se não prestarmos atenção aos cavalos-marinhos, vamos perdê-los”

A directora do Projecto Seahorse – aliança de investigadores e apaixonados por cavalos-marinhos – esteve em Portugal e mostrou-se preocupada com a situação destes animais no Algarve. Se em 2001 havia mais de 1,3 milhões de cavalos-marinhos na ria Formosa, agora estima-se que sejam cerca de 155 mil.

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A bióloga canadiana Amanda Vincent lidera o Projecto Seahorse Miguel Manso

Quando perguntamos a Amanda Vincent porque decidiu estudar cavalos-marinhos, a directora do Projecto Seahorse sorri e dá uma resposta pronta: “Porque são os machos a engravidar. É fascinante.” Entretanto, já passaram mais de 30 anos desde que começou a investigar estes animais e o fascínio não se desvaneceu. “Depois, deixei de estudar o seu comportamento e passei a estudar a sua conservação.” No fundo, a forma de reprodução lenta ou a mobilidade reduzida dos cavalos-marinhos tornam estes animais muito vulneráveis a ameaças como a pesca de arrasto.

Amanda Vincent veio a Lisboa para um encontro sobre a família Syngnathidae (que inclui cavalos-marinhos) e para a assinatura da renovação de um protocolo de apoio financeiro – de 100 mil euros por ano – da fabricante de chocolates Guylian. A fabricante apadrinha o Projecto Seahorse há cerca de 20 anos e já deu mais de 1,7 milhões de euros para a conservação de cavalos-marinhos. De vestido preto que contrastava com um pregador em forma de cavalo-marinho, Amanda Vincent falou com o PÚBLICO e mostrou-se preocupada com a situação na ria Formosa.

Em 1986, Amanda Vincent tornou-se a primeira cientista a estudar cavalos-marinhos debaixo de água. Dez anos depois – juntamente com Heather Koldewey e Helen Stanley – lançou o Projecto Seahorse, uma aliança de investigadores e apaixonados por cavalos-marinhos. 

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Amanda Vincent também lidera o grupo de especialistas em cavalos-marinhos da IUCN Miguel Manso

A bióloga canadiana – que preside o grupo de especialistas em cavalos-marinhos, marinhas e esgana-gatas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) – e o seu projecto chegaram a Portugal em 2000. Tudo aconteceu devido a Janelle Curtis, aluna de doutoramento de Amanda Vincent. A ideia inicial da então estudante era investigar uma população de cavalos-marinhos no Sul de Espanha. Contudo, não encontrou o que pretendia. Acabou por chegar ao Algarve, onde descobriu uma das populações de cavalos-marinhos mais densas do mundo.

Animais com poder de camuflagem

Nessa altura, Janelle Curtis convidou Amanda Vincent para que esta visse o que tinha descoberto na ria Formosa. Desse tempo, a bióloga recorda-se de uma história divertida. “A Janelle tinha-me dito que havia milhares de cavalos-marinhos. Mas, quando mergulhei, olhei e voltei a olhar e não vi nenhum. Mas ela tinha-me dito que estavam por todo o lado!”

Então, Amanda Vincent mudou de estratégia, até porque estes animais têm o poder de se camuflarem: “Desviei as ervas marinhas, olhei para o fundo e havia um cavalo-marinho enorme aqui e ali. Estava à procura de algo pequeno e invisível e, afinal, estava rodeada de cavalos-marinhos.”

Entretanto, já mergulhou mais vezes neste local e não se inibe de fazer elogios à ria Formosa, que tem o estatuto de parque natural. “É um ecossistema extraordinário. Em Portugal, deviam estar muito orgulhosos dele porque é uma zona húmida majestosa.” Amanda Vincent descreve este sistema lagunar-estuarino de cerca de 60 quilómetros de comprimento como “um pântano muito alagado que nos faz sentir integrados no oceano.”

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A bióloga já mergulhou algumas vezes na ria Formosa Miguel Manso

Nesse “pântano alagado”, há muitas ervas-marinhas e outras condições que o tornam um “oásis para os cavalos-marinhos”. Lá habitam duas espécies destes elegantes animais: a Hippocampus hippocampus e a Hippocampus guttulatus (mais abundante). “É um dos melhores sítios do mundo para encontrar esses cavalos-marinhos. É por isso que estamos tão preocupados com os seus números actuais”, alerta a bióloga.

Ameaçados pela pesca ilegal

Estima-se que em 2001 existissem mais de 1,3 milhões de cavalos-marinhos na ria Formosa, segundo dados fornecidos por Miguel Correia, cientista da Universidade do Algarve e investigador associado do Projecto Seahorse. Em 2008, já só se contaram 126.900, existindo assim uma descida de cerca de 90%. Quatro anos depois, a situação melhorou e calcularam-se 747.300 cavalos-marinhos. Mas esta subida não se manteve e os dados deste ano já apontam para que sejam 155.100, segundo um censo feito a partir de uma campanha lançada pela Fundação Oceano Azul e o Oceanário de Lisboa, uma descida de quase 21% face a 2012.

“Portugal tem um autêntico desafio”, frisa Amanda Vincent. “Tem assinado os acordos internacionais [como o CITES – Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção], que ajudam a regulamentar o comércio, mas não tem implementado estes acordos muito bem.” Amanda Vincent explica que, ao assinar o CITES, Portugal tem de assegurar os esforços necessários para que a população de cavalos-marinhos não seja prejudicada.

Entre as maiores ameaças aos cavalos-marinhos na ria Formosa estão a pesca ilegal, a extracção de areias, a dragagem descuidada dos canais ou a circulação descontrolada de embarcações de recreio que destrói ervas marinhas. “Se há uma pesca ilegal significativa e a ria Formosa é um parque natural, então isso não deveria estar a acontecer”, indica Amanda Vincent. “Neste momento, Portugal não está a dar a atenção devida à população de cavalos-marinhos na ria Formosa. Gostaria de ver mais responsabilidade.”

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Os cavalos-marinhos da ria Formosa podem chegar aos 20 centímetros João Rodrigues

Miguel Correia explica que as populações de cavalos-marinhos podem sofrer oscilações em termos de abundância de origem natural – como através da alteração da temperatura da água que faz descer a abundância de alimento – ou de origem artificial. Nessa categoria, o investigador indica que a pesca ilegal de cavalos-marinhos através de redes de arrasto é um dos principais factores de pressão. E refere que é difícil apanhar quem faz esta actividade em flagrante. “Hoje em dia, há falta de efectivos e de uma rede de vigilância suficientemente eficaz que consiga detectar os infractores a tempo.”  

O biólogo salienta ainda que tem existido “uma apanha dirigida” para o mercado asiático que pode levar à extinção dos cavalos-marinhos na ria Formosa. “Há uma investigação a decorrer [um levantamento e consciencialização sobre a situação junto das comunidades] e sabe-se que alguns compradores abordavam pescadores da ria Formosa sobre várias espécies, entre as quais de pepinos-do-mar e cavalos-marinhos”, diz, indicando que foi informação veio de relatos pescadores a partir de uma campanha de ONG como a Sciaena - Associação de Ciências Marinhas e Cooperação ou a Associação Natureza Portugal, a Fundação Oceano Azul e o Oceanário de Lisboa.    

“Há investigações a decorrer sobre várias ilegalidades na ria Formosa, mas especificamente só sobre cavalos-marinhos não”, diz ao PÚBLICO o capitão do Porto de Faro, Nuno Cortes Lopes. “É bastante redutor que a razão principal para a diminuição dos cavalos-marinhos na ria Formosa seja a apanha ilegal nos últimos 15 anos”, acrescenta, referindo que há factores como a poluição – como o tráfego de embarcações, nomeadamente de recreio e marítimo-turísticas – ou a diminuição de pradarias na ria e até porque o número destes animais é cada vez menor.

Nuno Cortes Lopes salienta que “nunca foi obtida informação válida nem foi detectado a bordo de embarcações, ou na posse de sujeitos interceptados, a presença de qualquer quantidade significativa de cavalos-marinhos, embora existam notícias por comprovar que nos anos de 2013 a 2015 tenha havido o interesse na sua captura para o mercado asiático.” Acrescenta ainda que em 2017 e 2018 foram realizadas várias acções dirigidas à prevenção e combate de actividades ilegais na captura de espécies protegidas, onde estão inseridos os cavalos-marinhos. 

O capitão do Porto de Faro destaca que as capitanias dos portos e comandos locais da Policia Marítima de Faro e de Olhão, “no seu dia-a-dia e no âmbito das suas múltiplas competências, continuarão bastante empenhados e atentos a esta complexa temática dos cavalos-marinhos na ria Formosa, nomeadamente através da realização de operações de identificação e controlo da espécie, bem como na fiscalização de eventuais actividades de captura, não tendo, até ao momento, ocorrido nenhuma detecção de actividade ilegal.” Além de o CITES estar em vigor em Portugal – proibindo a comercialização destas espécies protegidas, considerando-o um crime ambiental –, Nuno Cortes Lopes refere que a apanha e pesca lúdica de cavalos-marinhos também são proibidas por portarias.

Miguel Correia ressalva ainda que, de facto, há legislação que protege as espécies da apanha, assim como coimas para penalizar quem comete essas infracções. Contudo, alerta que não há “uma regulamentação propriamente dita” nem nenhum protocolo de boas-práticas para as actividades marítimo-turísticas. “Surgiram na ria Formosa, quase de forma exponencial, [actividades] marítimo-turísticas que fazem saídas das cidades principais para as ilhas, assim como visitas para os canais secundários da ria e snorkeling para ver cavalos-marinhos.”

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Os cavalos-marinhos são animais sedentários e precisam de um lugar abrigado para se reproduzirem. Em média, têm 200 a 400 filhos de cada vez (no limite, podem ter mil) João Rodrigues

Miguel Correia conta que as próprias empresas marítimo-turísticas têm um biólogo que leva as pessoas a verem cavalos-marinhos. Depois, durante a saída, apanha-os, faz com que circulem pelos clientes ou até os põe num tupperware. “Esta não é a mensagem correcta quando se pensa ao nível da conservação da espécie. A regulamentação dessa actividade é premente.” Além disso, adianta que as empresas não têm pessoas com formação que fazem esta prática e que para manusear um cavalo-marinho é preciso autorização do CITES. Como tal, o biólogo diz estar disponível para estabelecer um manual de boas-práticas para que esta actividade possa ser um meio de passar a mensagem sobre a situação dos cavalos-marinhos.

Vagarosos na reprodução

Amanda Vincent destaca que o estilo de vida mais lento dos cavalos-marinhos também os torna mais vulneráveis. “Na maior parte das espécies, a fêmea e o macho juntam-se e dançam todas as manhãs e de forma permanente. E se perderem o parceiro, podem parar de se reproduzir durante um longo período de tempo.”

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Amanda Vincent estuda cavalos-marinhos há mais de 30 anos Miguel Manso

Quando se reproduzem, tudo acontece de forma vagarosa. A fêmea transfere ovos para a bolsa do macho e ele fica grávido. Depois, tem de se cuidar das crias durante a “gravidez” para que os ovos sejam fertilizados dentro da bolsa durante duas a três semanas. Por fim, os juvenis eclodem e são expelidos através de movimentos de bombardeamento.

Para que isto aconteça, têm de encontrar um lugar abrigado e com estruturas. Além disso, os cavalos-marinhos não se movimentam muito. “Se encontrar hoje um cavalo-marinho, vai encontrá-lo de novo amanhã [no mesmo local]. Se se pensar nas espécies que são mais lentas na reprodução, têm uma estrutura forte e não se movimentam muito.” Como tal, se se pescar intensamente, isso vai deixá-los vulneráveis. “A ria Formosa está muito vulnerável neste momento”, assinala a bióloga. 

Mas nem só a situação no Algarve preocupa Amanda Vincent. “Em todo o mundo, o maior problema é a pesca do arrasto, porque quando a rede se solta leva tudo com ela. Nada escapa ao arrasto e os cavalos-marinhos vivem em habitats onde se aplica o arrasto.” No México, Tailândia, Vietname e Moçambique estão algumas das áreas que preocupam a bióloga, que adianta que a situação não só é alarmante para as mais de 40 espécies de cavalos-marinhos como também para as restantes espécies.

Quanto ao comércio, refere que os cavalos-marinhos são usados como lembranças ou na medicina tradicional chinesa. “O maior [uso] é, de longe, a medicina tradicional. Na medicina chinesa, os cavalos-marinhos são usados há milhares de anos e faz parte daquela cultura. O problema não é o seu uso, é o seu uso excessivo”, considera, referindo que o comércio tem de ser regulado e o ilegal controlado.

Actualmente, a transacção de cavalos-marinhos (secos, vivos ou mortos) para a medicina tradicional chinesa é de dezenas de milhões de indivíduos por ano para mais de 80 países, segundo um relatório feito a partir da base de dados do CITES. Miguel Correia refere que, por exemplo em Hong Kong, um quilo de cavalos-marinhos secos pode chegar a cerca de 2200 euros. Mas Amanda Vincent confessa que a associação de comerciantes de medicina chinesa de Hong Kong tem sido uma aliada do Projecto Seahorse.

Portanto, a sua grande luta é a pesca de arrasto. “Se tiras um cavalo-marinho da água, do ponto de vista da conservação, não interessa se o tiras por curiosidade ou para a medicina. Devemos preocupar-nos mais a nível da pressão e não do uso por si só”, avisa. “Não é só com os cavalos-marinhos, mas com tudo o que vai na rede. Também não é bom para a segurança alimentar porque muitos juvenis ou espécies comerciais importantes acabam nas redes.”

Como solução para a devastação dos habitats dos cavalos-marinhos e das suas populações, Amanda Vincent nomeia a importância da combinação entre áreas marinhas protegidas – o Projecto Seahorse já ajudou a criar 36 –, pescas, limites na comercialização, mudanças na legislação, sensibilização nas escolas e das comunidades ou actividades de observação de cidadãos que poderão ajudar a encontrar mais informação (em falta) sobre os cavalos-marinhos.

“Não sabemos o suficiente para fazermos uma avaliação para toda a Europa. Mas sabemos que o Algarve precisa de atenção”, frisa Amanda Vincent. Miguel Correia acrescenta que as duas espécies existentes no Algarve estão classificadas como espécies com falta de informação pela IUCN. Por isso, no futuro – até porque existem cavalos-marinhos nos estuários do Tejo e do Sado ou na lagoa de Melides – pretende fazer uma avaliação global e depois regional e nacional da população de cavalos-marinhos.

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As pradarias de ervas marinhas são a casa dos cavalos-marinhos na ria Formosa João Rodrigues

Por fim, Amanda Vincent aconselha: “Recusem-se a comer qualquer coisa que venha da pesca de arrasto. Se vai a um restaurante ou a um supermercado devia perguntar se o que come vem da pesca de arrasto. Se não sabem, então é porque não é um bom supermercado ou restaurante.” Também recomenda que se questionem os governos sobre a implementação das leis ou da criação de áreas protegidas.

“Algumas pessoas pensavam que os cavalos-marinhos nem existiam, que eram mágicos. É alguma dessa magia que me atrai”, revela. “Já passei milhares de horas a observá-los. Há já uma parte de mim neles e uma parte deles em mim.” Além disso, relembra que estão na economia, que configuram habitats porque são grandes predadores e perduram na nossa cultura. “Desde sempre que há cavalos-marinhos nas narrativas. Toda a gente fala sobre eles. Mas se não prestarmos atenção, vamos perdê-los.”