Cavalos-marinhos da ria Formosa já tiveram trinetos em cativeiro

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A cor do cavalo-marinho de focinho comprido varia bastante, indo do castanho e avermelhado até amarelo e verde-claro Grupo de Biologia Pesqueira e Hidroecologia da Universidade do Algarve

Trabalho pioneiro de biólogos do Algarve reproduziu em cativeiro o cavalo-marinho de focinho comprido, com uma taxa elevada de sobrevivência. O mercado da aquariofilia pode ganhar uma nova espécie.

No início, todos os cavalos-marinhos que Jorge Palma e Miguel Correia tentavam reproduzir em cativeiro, desde 2007, morriam. Mas a partir de 2009, os dois biólogos do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve começaram a obter níveis de sobrevivência aceitáveis do cavalo-marinho de focinho comprido, uma espécie de águas temperadas, que vive na ria Formosa. Hoje, os dez casais que apanharam na ria Formosa, entretanto libertados, já tiveram trinetos, tendo-se atingido os 150 animais.

É a primeira vez no mundo que se conseguiu reproduzir em cativeiro uma espécie de cavalo-marinho de águas temperadas, em quantidades significativas, como noticiou a agência Lusa. "Segundo julgamos saber, somos o único grupo de investigação a ter estes resultados com esta espécie, a nível mundial", diz por sua vez ao PÚBLICO Miguel Correia. "Actualmente, conseguimos elevar as taxas de sobrevivência desta espécie para os 65% e completar com sucesso quatro gerações consecutivas."

Por que é tão difícil produzir em tanques o cavalo-marinho de focinho comprido, ou hippocampus guttulatus? "É difícil por ser uma espécie de águas temperadas, ao contrário das espécies tropicais, mais fáceis de reproduzir e que já existem no mercado para efeitos ornamentais", responde Miguel Correia.

O principal entrave, que na fase inicial da investigação matava 100% dos cavalos-marinhos, era a doença da bolha, que surgia nos juvenis: "Ganhavam uma bolha de ar no sistema digestivo, que os impedia de se alimentarem correctamente, ficavam a flutuar à superfície e morriam."

As causas da doença da bolha não estão identificadas, mas a equipa desconfiava que a alimentação e a concepção dos tanques pudessem ter a ver com isso. "Afinámos a alimentação (comem pequenos crustáceos), evitámos a bolha de ar e subimos a taxa de sobrevivência para 65%. Também afinámos o design do sistema de aquacultura: os tanques e a filtração da água."

Alguns dos animais nascidos nos tanques já foram doados a instituições portuguesas, como o Oceanário de Lisboa, e internacionais, de países como os Estados Unidos, Reino Unido, Áustria, Espanha e a China, para divulgação da espécie junto do público, sem as consequências da sua captura na natureza.

O que se segue agora? "Embora ainda não tenhamos vendido nenhum cavalo-marinho, esta espécie tem um grande potencial para o ramo da aquariofilia. Com algum investimento, seríamos capazes de a reproduzir em quantidade suficiente para o mercado de animais ornamentais", diz Miguel Correia. "Só os animais produzidos em cativeiro podem ser comercializados. Neste caso, por ser uma espécie até agora nunca produzida em cativeiro, pode atingir valores elevados."

Além de poder ser vendida para aquariofilia e aquários de todo o mundo, poderá ser fornecida a grupos de investigação para diversos estudos e que, assim, não teriam de a capturar na natureza - o que, sublinha Miguel Correia, permitirá proteger o cavalo--marinho de focinho comprido.

"O tamanho mínimo para a comercialização de um cavalo-marinho são dez centímetros, o que significa que nós, aqui, temos um produto acabado ao final de três meses", explica Jorge Palma, citado pela Lusa.

Com estes animais também poderá estudar-se a própria espécie, como o comportamento e a alimentação, o que ajudará à sua conservação.

De dois milhões para 120 mil

A ria Formosa é a casa da maior população desta espécie, que ocorre por todo o mar Mediterrâneo. Por volta de 2001-2002, as estimativas, com base em estudos de monitorização na ria de Olhão a Faro, apontavam para dois milhões de cavalos--marinhos de focinho comprido. Em 2008, quando se monitorizaram os mesmo locais, percebeu-se que tinha ocorrido um declínio drástico da população - na ordem dos 94%, reduzindo-os assim para os 120 mil.

Não se sabe o que causou esta redução, embora os cientistas pensem que uma das causas seja a perda de habitat, em zonas que sofreram grande impacto das actividades humanas. Por isso, já colocaram na ria redes metálicas com cordas agarradas, que procuram simular pradarias marinhas e campos de algas, em suma a casa dos cavalos-marinhos. "Em zonas sem cavalos-marinhos, passámos para quatro a cinco indivíduos por metro quadrado, o que é uma densidade elevada", diz Miguel Correia.

A ideia não é repovoar a ria com animais de cativeiro. "O que nos interessa é identificar as causas do declínio e se há possibilidade de as resolver", refere o biólogo. "Se as causas não forem identificadas e solucionadas, a reintrodução de indivíduos na natureza poderá ser em vão. Só se tudo falhar, aí sim, faremos o repovoamento."

Tudo isto para que este animal carismático não desapareça da nossa vista. Como particularidade, o cavalo-marinho de focinho comprido tem um padrão único de pintas brancas ao longo do corpo, que funciona como uma impressão digital de cada indivíduo. Como todas as outras espécies de cavalos-marinhos, nesta é o macho que fica "grávido", não sem antes ter havido uma dança de corte, em que ele e ela andam à volta um do outro. Ela põe depois os ovos numa bolsa no macho e é aí que ele liberta os espermatozóides. Alguns dias depois de os ovos eclodirem, o macho expele as crias da bolsa.