Uma safia e um cavalo-marinho revelam os segredos da ria Formosa

A forma como as ervas purificam a água e sequestram o carbono é apenas uma parte da generosidade de que é capaz a ria Formosa. Para que todos a entendam, a mensagem passa-se através de um livro infantil.

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Como é que um peixe descobre que as plantas não servem só para fornecer alimento? A resposta vem no livro Formosa, da autoria de Cátia Freitas, investigadora da Universidade do Algarve, e que pretende ser um guia para que professores, pais e alunos descubram a importância das pradarias marinhas. Um ecossistema ameaçado pelos efluentes das estações de esgotos e que ameaçam a sobrevivência de várias espécies.

Durante esta semana, a ria Formosa está em festa. Abrem-se as portas do Parque e a Quinta do Marim, sede desta área protegida, ganha uma outra vida com a entrada de estudantes, professores e pais, todos à descoberta da natureza. Um dos objectivos da iniciativa é chamar a atenção para a importância das coisas que estão perto dos olhos mas distantes das preocupações colectivas no que diz respeito à defesa desta zona húmida. Cinco concelhos — Faro e Olhão, mais de perto, mas também Tavira, Vila Real de Stº António e Loulé fazem parte deste Parque, em progressivo declínio por falta de investimento público

Desde há três anos que a direcção do Parque Natural da Ria Formosa (PNRF) organiza, durante uma semana, actividade de divulgação deste espaço. Este ano, os municípios integrados no perímetro do parque organizaram, cada qual à sua maneira, jogos, passeios e actividades de sensibilização ambiental, envolvendo em primeiro lugar os alunos dos ensinos básico e secundário. “Ensinar aos filhos para chegar aos pais e avós”, é a fórmula usada por Rui Santos, professor da Universidade do Algarve e coordenador de dois projectos nesta área: o RiaValue — Avaliação do valor dos serviços prestados pelo ecossistema da ria Formosa e o REASE — Rede de Educação Ambiental sobre os Serviços dos Ecossistemas.

O livro Formosa conta a história de uma pequena safia que nadava triste. Um dia encontrou um cavalo-marinho e toda a sua vida mudou. A aventura deu-se no dia quente de Verão, naquelas alturas em que as praias estão apinhadas de gente e nem os lugares mais recônditos do sistema lagunar se livram da invasão humana. Entre os dois, presume-se, foi amor à primeira vista. Conversa puxa curiosidade e eis que partem pela ria fora, descobrindo o que os rodeia — ervas marinhas por todo o lado. “Senti necessidade de encontrar uma ferramenta para descodificar a linguagem técnica”, revela Cátia Freitas, que faz palestras nas escolas a contar pequenas histórias para divulgar o conhecimento científico. Depois de a ouvirem, diz, não faltam voluntários a querer meter as mãos e pés no lodo.

O livro, publicado em Fevereiro, é ilustrado com desenhos dos alunos da escola básica de 2º e 3º ciclo Santo António, Escola EB1 da Penha e Escola Secundária João de Deus, ambas de Faro. Na escola João da Rosa, em Olhão, o coordenador do projecto é o biólogo marinho Nuno Magalhães. “A minha ideia inicial era proteger o ecossistema das ervas marinhas, que tem um potencial enorme em termos de biodiversidade”, revelou aos jornalistas, durante uma visita no final da semana passada à Quinta do Marim com a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino. Nessa altura, Cátia Freitas andava com uma turma, no meio do lodo, de seringa na mão, para extrair amostras de dois centímetros, verificando a diferença da cor das lamas, reveladora da capacidade de retenção do dióxido de carbono. “Isto é uma grande função das plantas: o sequestro de carbono”, destaca Rui Santos, que é membro do Centro de Ciências do Mar (CCMAR).

Ameaças persistem

Mas apesar da importância das pradarias marinhas, não só para a vida que as rodeia, como para o clima, o certo é que os esgotos das cidades de Faro e de Olhão, que são descarregados na ria Formosa, depois de passarem pelas Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR), as estão a ameaçar. Mesmo que o equipamento funcione na perfeição, sublinha Rui Santos, “os efluentes que saem estão carregados de nutrientes (nitrato e fosfato), que podem fazer desequilibrar o ecossistema”, adverte.

A morte das amêijoas por falta de oxigénio, durante o Verão, é uma questão recorrente. “Uma das coisas que as plantas marinhas fazem é oxigenar a água”, recorda Rui Santos. Por isso, as ervas e algas assumem um papel fundamental nesta história, narrada como se fosse uma brincadeira mas para ser levada a sério. As plantas, acrescenta Nuno Magalhães, ainda “protegem contra a erosão marinha. Há cem anos, quando havia ervas marinhas do lado oceânico das ilhas, não havia os problemas de erosão que há hoje”.

Mas a sua defesa continua a falhar. Rui Santos lembra que a quantidade de nutrientes que chegam à ria Formosa vindos dos esgotos e da agricultura intensiva podem transformá-la “numa sopa de algas, que se degradam, esgotam o oxigénio e matam os peixes”. Razão pela qual o CCMAR está a desenvolver um projecto de monitorização com o apoio da Fundação para Ciência e Tecnologia.

No livro, chega-se ao final da viagem ao interior da ria com o cavalo-marinho, o robalo, as ostras e outros animais a reclamarem contra a poluição de que são vítimas. “Finjam-se de mortos”, sugere a safia. Assustados com o resultado das suas acções, os humanos mobilizam-se finalmente para a limpeza da ria. Ficção? A mensagem que se pretende passar é que esta tem de ser uma realidade. Para que a ria e o seu contributo para a vida no planeta não seja destruída.