Reportagem

Mentira, fascismo e Bolsonaro: assim se votou em Lisboa

Na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde os brasileiros votaram, alguém escreveu "fascismo sempre" numa mesa. E pôs o nome de Assunção Cristas numa lista de políticos anti-imigração. Apoiantes de Bolsonaro negam posições fascistas de candidato.

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“Não deixe seu celular virar seu inimigo, fuja das fake news.” A frase está em cartazes pendurados na entrada da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde funcionou neste domingo uma das secções de voto em Portugal para as eleições presidenciais brasileiras.

Mas a mensagem não chegou a tempo para alguns dos que se deslocaram à Faculdade – onde estão registados mais de metade (são 21 mil) de todos os eleitores brasileiros (um total de quase 40 mil) em Portugal, num universo de quase 85.500 cidadãos a viver no país. Bolsonaro ganhou aqui com 64,4% dos quase sete mil votos válidos, ultrapassando a votação que tinha tido em Lisboa na primeira volta. 

Diane Almeida, 29 anos, está com a filha ao colo e não tem problemas em revelar que irá votar no candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro, porque tem “a esperança que faça a diferença” e porque o Partido do Trabalhadores (PT, esquerda, cujo candidato é Fernando Haddad)  é “uma corja de corrupção”.

Mais difícil é admitir que subscreve as ideias do candidato que disse abertamente ser a favor da tortura e da ditadura militar, que proferiu discursos de ódio homofóbico e racista e que não tem pudor em defender posições machistas nem afirmar que irá banir os opositores. Estão disponíveis na Internet, em vários vídeos no YouTube, as imagens do próprio Bolsonaro a dizer: “Sou favorável à tortura”, “fecharia o Congresso nacional”, “durante a ditadura militar só desapareceram assaltantes e marginais”, “ter filho gay é falta de porrada”, “os afrodescendentes dos quilombos não servem nem para procriar” ou “vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre".

Diane Almeida afirma, com segurança, que todas essas ideias “são invenção da media”. “Nunca ouvi ele a dizer nada disso. É tudo mentira o que a media fala. Se ele fosse racista não teria negros trabalhando com ele, se ele fosse machista não teria mulheres [na equipa].” O marido subscreve e Diane Almeida, há 12 anos a viver em Portugal, afirma imediatamente, em tom de confronto: “Se você está a fazer essas perguntas [sobre Bolsonaro] é porque é PT.” 

Empregada de mesa, é através do Facebook e das redes sociais que se informa. A negação sobre as ideias de Bolsonaro é, aliás, comum a vários dos apoiantes com quem o PÚBLICO falou. A engenheira civil Imaculada Moreira, 58 anos, dá respostas semelhantes. Está com o seu iPhone a fotografar o momento. Não quer dizer explicitamente em quem vota, mas fica claro que será em Jair Bolsonaro. “No PT não votarei nunca na minha vida”, afirma. “Com certeza quero votar pela mudança. Aí você já vê em quem vou votar.”

Com uma empresa no Brasil, vive parte do ano em Portugal e parte no Brasil. Quando lhe perguntamos se não teme o regresso da ditadura militar responde: “Ele não é um ditador, ele não tem soldados ao lado dele, tem técnicos. Não vai existir ditadura.”

Ideias de extrema-direita ninguém tem coragem de defender abertamente, mas houve quem escrevesse numa mesa do restaurante da Faculdade de Direito, no andar de baixo do local onde as pessoas votam, "fascismo sempre", ao lado das palavras “Montijo”, “#assunção, #orban, #salvini” – referência a Assunção Cristas, líder do CDS que disse preferir não votar em nenhum dos candidatos, e a dois políticos anti-imigraçãoViktor Órban, primeiro-ministro húngaro, e Matteo Salvini, ministro do Interior italiano. Na mesa pode ainda ler-se: “Quem se sentar aqui é merdas (e gay).”

Sem desacatos

A ocasião serve também para encontros. Há grupos a conversar aqui e ali. Edylamar Sousa, governanta doméstica num lar, está a ser fotografada pela amiga na escadaria da entrada da Faculdade de Direito. “A violência não se combate com violência”, diz. "Sou 13” – o que quer dizer que apoia Fernando Haddad.  

Há filas de carros e filas de gente à porta das urnas. José Roberto Pinto, cônsul do Brasil, afirma que está “tudo correndo bem” e tranquilamente, sem desacatos ou tensão. Na primeira volta, a 7 de Outubro, houve problemas provocados por apoiantes de Bolsonaro. “Aparentemente”, há uma “óptima afluência”. Aqui, a primeira volta teve 35% de participação e deu a vitória a Jair Bolsonaro com 56% dos votos. 

Uns levam a bandeira do Brasil pelas costas mas muitas pessoas vestiram T-shirts mostrando de que lado estão da barricada. Umas mais explícitas, com a cara de Bolsonaro, outras com frases completas. Maria Elisa Oliveira tem estampada na T-shirt branca: “Covarde é quem joga fogo no circo e foge.” É um “recado para quem está botando fogo no Brasil e vem para Portugal”, é para quem “enfiar a carapuça”, explica esta reformada de 61 anos que lamenta a “desinformação que faz com que essa gente vote Bolsonaro”. “Não é preciso muito, não: se for ao Google vai ver as coisas da boca dele”, diz. Mas “Deus está no comando”.

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Embora ainda esteja indecisa a minutos de votar, Linda Sales diz que não escolhe “nenhum dos dois; são dois extremos”. Professora do secundário reformada, há 31 anos em Portugal, Linda e a filha Juliana, de 41 anos e publicitária, irão provavelmente votar em branco: “É uma eleição de valores. De um lado, um partido que roubou e, do outro, um cara que não tem formação, não tem um plano definido.”

Indícios "de tendência fascistóide"?

Foi Gisele Fernandes, do colectivo Andorinha – Frente Democrática de Lisboa, quem chamou a atenção para a propaganda fascista. Conta que a mesa do restaurante onde estavam aquelas palavras chegou a ser vista limpa por pessoas que estavam no seu grupo, apoiante do PT - ou seja, alguém escreveu aquilo este domingo. “Já há indícios de uma onda fascista na Europa e aquela mensagem mostra que Portugal também corre o risco de abrir uma tendência fascistóide. Quando um político português se posiciona como neutro face a um candidato no Brasil com características fascistas a gente preocupa-se. É sintomático o nome dela [Assunção Cristas] estar naquela lista.”

Gisele Fernandes e os amigos tentaram apagar, não conseguiram. Mas inclinaram as cadeiras para que as pessoas não se sentassem. O objectivo era que não fossem influenciadas por “propaganda fascista em pleno acto eleitoral”. “Foi um acto de repúdio”, comentou.