Aliados não vão abandonar sauditas mas estão a deixar de confiar no seu líder

MBS sabe que “são os outros que precisam dele” e tem razão. Mas pode ter ido demasiado longe, numa altura em que procura atrair grandes investimentos estrangeiros no reino.

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MBS gastou milhões a investir na sua imagem de reformista ocidentalizado Reuters/Amir Levy

A Arábia Saudita nunca assumirá responsabilidades pelo assassínio de Jamal Khashoggi, um dos mais proeminentes jornalistas do mundo árabe, desaparecido a 2 de Outubro, quando entrou no consulado de Riad em Istambul. Com grande probabilidade, os Estados Unidos nunca apontarão o dedo aos líderes do reino. Mas isto não significa que o país e o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman (MBS), não sofram consequências.

Entre promessas vazias de “castigos severo” se ficar provado que a ordem veio de cima, o Presidente Donald Trump já deixou claro que nada porá em risco a aliança especial com os sauditas – e muito menos os lucrativos negócios de armas com Riad.

Seja como for, depois de ministros do Reino Unido, França e Holanda anunciarem que não vão participar na conferência de investimento marcada para a próxima semana em Riad, esta quinta-feira foi a vez do secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, avisar que também não irá

Entretanto, no regresso do secretário de Estado, Mike Pompeo, que Trump enviou para conversar com MBS em Riad, a Casa Branca fez saber que vai esperar “mais alguns dias” pela versão saudita dos acontecimentos. "Parece certo que ele [Khashoggi] está morto", disse algumas horas depois Trump, em conversa com os jornalistas a bordo do Air Force One.

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A conferência a que Mnuchin vai faltar, Future Investment Initiative, é uma ideia de MBS para modernizar a imagem do reino de Meca e Medina e atrair investimento externo. O príncipe quer revolucionar a economia e diversificá-la; a conferência, que o ano passado teve a sua primeira edição, era o palco principal desse projecto.

Antes dos ministros houve várias empresas que estiveram em 2017 a decidir não ir este ano, e o mesmo fizeram os principais responsáveis do FMI e do Banco Mundial.

Os presidentes do Google Cloud, Uber, J.P. Morgan Chase, Ford ou BlackRock já não serão oradores, o fundador do Virgin Group também não. Os parceiros de media foram os primeiros a recuar na decisão de participar. Mas num sinal do que o assassínio de Khashoggi pode ou não custar ao reino, empresas de consultadoria como a McKinsey, PWC, Ernst & Young ou Deloitte mantêm-se, para já, como parceiras, assim como a gigante alemã Siemens e a empresa de pesquisa SWFI.

MBS gastou milhões a investir na sua imagem de reformista ocidentalizado (durante o périplo de três semanas pelos EUA, em Abril, abandonou a tradicional túnica branca e chegou a usar jeans quando se encontrou com Bill Gates), na expectativa de que a sua imagem fosse confundida com a da Arábia Saudita. Com 33 anos, teve sucesso nesta mega-operação de relações públicas.

O problema é que o príncipe não é o reformista que os líderes ocidentais quiseram acreditar que fosse: sim, quer aumentar o número de mulheres no mercado de trabalho e promover a educação no reino, permitiu a reabertura de cinemas e deixou, por fim, as mulheres conduzirem. Ao mesmo tempo, prendeu dezenas de críticos, mandou calar outros tantos e deteve temporariamente rivais da família real e grandes empresários para lhes extorquir milhares de milhões, no que Trump elogiou como grande passo no combate à corrupção.

MBS fez mais do que isto. Ainda lançou uma guerra que está a destruir o Iémen, fez exigências impensáveis ao Qatar, declarando um boicote ao país, e obrigou o primeiro-ministro libanês, Saad Hariri, a demitir-se em directo num canal de televisão saudita, culpando o Hezbollah e o Irão (inimigo regional que parece capaz de cegar o líder saudita) pela decisão.

Demasiado ruidoso

Tudo isto foi largamente ignorado pelos aliados ocidentais. A morte de um jornalista num outro país, mais a mais um que vivia desde Outubro de 2017 na Virgínia e escrevia no diário The Washington Post é algo demasiado ruidoso para poder ser ignorado. Khashoggi era uma voz respeitada – e, por isso, mais perigosa aos olhos de MBS – entre os sauditas no exílio e em casa, tinha sido conselheiro de vários membros da família real e editor do mais progressista jornal do país, Al-Watan, de onde foi despedido duas vezes.

Khashoggi nunca temeu pela vida antes de criticar MBS. Pelos relatos de amigos do jornalista, sabe-se que representantes do príncipe o tinham convidado a regressar, acenando-lhe com empregos em think tanks. Pelas informações dos serviços secretos dos EUA, sabe-se que responsáveis sauditas planearam atraí-lo ao país para o prender. E através de tudo o que os jornais pró-Governo turco têm publicado não restam dúvidas de que Khashoggi foi morto e desmembrado dentro do consulado, às mãos de um grupo de membros das forças de segurança sauditas (alguns próximos de MBS) que aterraram nesse dia em Istambul e ali ficaram só por algumas horas.

“A operação tem definitivamente a marca de Mohammed bin Salman”, diz ao Le Monde o académico Nabil Mouline. “Na actual configuração do sistema político saudita só pode ter sido ele a dar a ordem.” Alguns republicanos estão convencidos disso mesmo: o senador Lindsey Graham, próximo de Trump, é um deles. “Fui um dos seus maiores defensores no Senado dos EUA”, disse à Fox News sobre MBS. “Este tipo é um martelo pneumático. Mandou assassinar este homem num consulado na Turquia e espera que eu ignore. Sinto-me usado e abusado.”

Relação de forças

Os sauditas têm a seu favor muito dinheiro e a capacidade de equilibrar o mercado de petróleo, compensado a perda de barris iranianos por causa das sanções dos EUA. Ao mesmo tempo, Trump está satisfeito por ter Riad a “resolver” os problemas na região, agora que os americanos abandonaram o seu intervencionismo. Mas países como a França ou o Reino Unido também consideram a Arábia Saudita um aliado estratégico, tanto no combate ao terrorismo como nos negócios.

Para o especialista em monarquias do Golfo Stéphane Lacroix, ouvido pela rádio pública francesa RFI, “não podemos esperar uma mudança radical” na relação entre Riad e os seus parceiros. Nesta relação, MBS acredita que “são os outros que precisam dele” e têm razão. Mas como outros analistas, o investigador e professor na Universidade Science-Po antecipa estragos na imagem do reino e do seu líder, “que podem pôr em causa projectos económicos”.

Os aliados da Arábia Saudita não se importam que o país seja governado por um autocrata desde que saibam com o que podem contar. A impulsividade de MBS – e a crença absoluta na sua própria impunidade – já não será tanto do agrado de ninguém. Agora, “os parceiros estrangeiros vão desconfiar” dele, diz Lacroix. “Se alguém quer atrair investidores tem de ter uma boa imagem e transmitir confiança.”